domingo, 22 de setembro de 2013

Desde 1869, vale perguntar: Que País é esse?


A semana se encerra com o País perplexo e indignado diante da decisão do STF de aceitar os embargos infringentes dos réus do mensalão. Porém, esta indignação não deve esconder o fato de que nosso país sofre com a fragilidade de suas instituições e, paradoxalmente, também se ressente quando as instituições e seus regramentos são pouco flexíveis. O mesmo brasileiro que cobra a pena rígida defende o famoso jeitinho.

Essa contradição nas nossas relações com as instituições não é fato novo nem recente, podemos encontrar exemplos nos mais variados eventos de nossa história: na Colônia, na Corte no Rio, no Império, nas repúblicas e até nas poucas guerras que participamos. Desde sempre esse Brasil sem segurança institucional, assentado em heróis inventados, macunaímas e jeitinhos está presente.
Em 1869, Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, o visconde de Taunay, produziu um dos melhores, talvez, o melhor relato da participação brasileira na Guerra do Paraguai. Seu livro, A Retirada da Laguna, é tão emblemático do momento que estamos vivendo que merece ser lembrado.

A Retirada é, por definição, um épico às avessas! Bem ao feitio de um país que só pode ser entendido se analisado às avessas.
Escrito em prosa de grande qualidade, o livro narra um dos maiores fracassos militares da campanha paraguaia do Brasil. Ainda assim, no meu período nos bancos escolares tal evento foi transformado em feito de grande heroísmo nacional: uma fuga vitoriosa!?

Na campanha retratada por Taunay, como nos eventos recentes, não há heróis, são escassas as cenas de nobreza, de denodo, de caráter ou audácia. Com algum esforço, talvez pudéssemos considerar o guia Francisco Lopes o herói de uma guerra pela sobrevivência por ter conseguido achar o caminho de volta quando todos estavam perdidos.

Desde o início a desorganização, o despreparo, o desconhecimento sobre as terras onde iriam combater e a precária logística apontavam para uma ação militar fadada ao fracasso, sob do comando do Coronel Carlos de Moraes Camisão.

O Coronel assume o comando sob suspeita. Considerado pusilânime e covarde, especialmente depois de sucessivos adiamentos da partida da Coluna, ele espera recuperar sua imagem na campanha. Sempre indeciso e hesitante, o Camisão descrito por Taunay nos leva a perguntar como tal homem pôde ser designado para a tarefa? Que Exército era aquele? Que Império era aquele?

A Coluna, com 1680 homens, saiu da Colônia Militar de Miranda em 11 de janeiro de 1867 chegando a Nioaque 13 dias depois. A pequena vila, com poucas casas, uma igreja e um quartel para quinhentos homens abrigou a tropa por um mês enquanto tentavam estabelecer as linhas de suprimento, já que desde o anúncio da partida a tropa não tinha o suficiente para se alimentar, nem tinha a retaguarda como garantir o seu abastecimento. 

Pouco depois de Nioaque, ao se aproximar de território ocupado pelos paraguaios, ocorre o primeiro encontro com o inimigo. No momento em que os soldados esperam investir sobre os paraguaios, Camisão hesita e não ordena o ataque. Taunay ironiza o comandante ao explicar que a decisão de não atacar se devia aos escrúpulos de Camisão uma vez que “estávamos na Sexta-Feira Santa, e a iniciativa de uma ação sangrenta no dia da morte do Salvador repugnava a um coração religioso como o do nosso chefe”.

Assim, a primeira vitória da Coluna é a conquista do Forte de Bella Vista em 21 de abril. Menos de uma semana depois, um destacamento formado por soldados e índios Guaicurus e Terenas ocupa e incendeia o forte paraguaio Rinconada. 

Com poucos mantimentos, o Coronel resolve avançar Paraguai adentro, chegando à Fazenda da Laguna, onde são cercados pelos adversários. A partir daí a situação começa a se agravar e no dia 8 de maio o exército brasileiro começa a retirada com perdas significativas de armas e homens. 

Depois de cruzar o rio Apa, na Bela Vista brasileira, a coluna sofre duro ataque inimigo com muitos mortos e feridos. Seguindo em fuga, atordoada pela fome e pela pressão do inimigo, que incendeia as matas em volta dos acampamentos dos brasileiros, sofrendo com as condições do caminho, a tropa se vê perdida e sem mantimentos.

Não bastassem as dificuldades, o cólera começa a abater mais e mais soldados e a coluna entra em desespero, até que o guia Lopes consegue se localizar e retoma a marcha em direção à sua fazenda, cruzando o riacho Cambaracê, onde os doentes foram abandonados à própria sorte. No final do dia chegam aos currais da Fazenda Jardim com o Comandante, o Sub-Comandante e Guia também atacados pela doença. 

Na fazenda do Guia Lopes ficaram, sepultados, além do proprietário, o Coronel Camisão, o Tenente Coronel Juvêncio e vários desconhecidos. Nosso único herói morre cumprindo a promessa de levar a coluna ou o que dela restasse de volta ao Brasil e dar abrigo na segurança de sua própria fazenda. Mas os paraguaios continuam por perto. 

Em 3 de junho o grupo chega a Nioaque para encontra-la saqueada, com cadáveres espalhados por todo lado. No dia seguinte há a explosão da igreja da vila e a tropa só consegue se livrar do inimigo depois de transpor o rio Taquarussu. Em 11 de junho, o que restou do contingente brasileiro chega a Porto Canuto, às margens do Rio Aquidauana, encerrando as operações de guerra, com a perda de 698 soldados, além de grande número de índios, mulheres, comerciantes, paisanos e garotos de serviço que os acompanhavam. 

Por conta do trabalho e depois, por lazer, conheci a região onde se desenrolou toda a fuga. Partindo de Campo Grande, capital do Estado, toma-se a rodovia em direção a Sidrolândia e de lá para Nioaque. A cidade que abrigou a coluna por quase um mês ainda guarda algumas referências históricas do movimento em torno de sua praça e da sua igreja matriz. O quartel militar ainda estava lá, claro que moderno e reformado, mas pouco demonstrava da importância que teve para a história do Exercito brasileiro.

De lá segui oeste, rumo ao Paraguai cortando a região de belíssimas paisagens do peripantanal. Entre Nioaque e Porto Murtinho, fronteira com o Paraguai, estão os municípios de Bonito e Jardim muito frequentados pelos que gostam do turismo de aventura ou do contato com a natureza. Nas vizinhanças também está a cidade de Guia Lopes da Laguna, homenagem ao herói da retirada. 

Na região, além dos hotéis, pousadas e restaurantes que fazem de Bonito uma cidadezinha com muitos atrativos, os mergulhos nas águas frias e cristalinas do Rio da Prata, o rapel no abismo Anhumas, as trilhas pelas cachoeiras ou a visita à Lagoa Azul, são passeios imperdíveis aos com disposição para aventura. 

Os realmente aventureiros podem optar por incursões mais longas pelo do pantanal sul matogrossense, fazendo trilhas de grande duração, acampando em fazendas da região. Pessoalmente minha veia aventureira vai até escurecer. Ao cair da noite gosto de voltar para o conforto do hotel, tomar uma cerveja gelada ou uma caipirinha e jantar bem. Isto sem falar do banho para relaxar. 

Os que têm paciência para a pesca devem seguir para Porto Murtinho, com seu peculiar dique, que cerca o centro urbano e o protege das águas volúveis do Rio Paraguai. Ali o rio é muito piscoso e a cidade é um centro para turismo de pesca, recebendo visitantes de todo o país, com oferta de barcos, equipamentos e guias. Quando estive por lá, havia um cassino – se é que poderia receber esse nome – que funcionava em uma das ilhas do lado paraguaio, hoje em dia não sei se ele ainda existe, mas também não acho que seja razão para rodar tantos quilômetros.

Naquela época sugeri aos governantes de então que procurassem uma estratégia de desenvolvimento para a região que juntasse ao potencial do ecoturismo, que estava em fase embrionária de exploração, a importância histórica da área, por conta da famosa Retirada da Laguna. Olhando na internet a divulgação do turismo no estado percebo que muito pouco ou quase nada se fez com esta intenção. Mas para que criar uma atração turística em torno de um fracasso militar?

Quem sabe para dignificar as mais de mil pessoas que morreram na campanha.

Quem sabe para nos perguntarmos mais uma vez: Que guerra foi essa? Que Brasil é esse?

sábado, 14 de setembro de 2013

Tradições nas Terras Altas...


Outro dia estava no Fortim, aqui no Ceará, na casa do meu amigo Dr. William curtindo a maravilhosa vista da foz do Rio Jaguaribe e conversando sobre política, quando me deparei com um livro do Hobsbawm de sua biblioteca. Como gosto do autor, não me contive e acabei tomando o volume emprestado.

Ao contrário do que pensei, o historiador Eric Hobsbawm não é o autor do livro A Invenção das Tradições, mas o organizador de uma coletânea de artigos produzidos por vários historiadores discutindo hipóteses de como se formam as tradições e, conforme ele explica, como muitas daquelas que acreditamos serem ancestrais são recentes e criações da própria modernidade. Já o primeiro artigo, A invenção das tradições: a tradição das Terras Altas da Escócia, de Hugh Trevor-Roper trata, me fez lembrar a viagem que fiz para aquelas bandas.

Em um dia que amanheceu frio e chuvoso saímos de Glasgow com destino à cidade de Inverness, capital das terras altas e cidade mais ao norte da Grã-Bretanha. A viagem certamente teria sido melhor apreciada se o dia estivesse ensolarado e luminoso, mas mesmo debaixo de nuvens cinzas e uma chuva renitente pudemos apreciar a beleza das Lowlands e a transição para a porção mais alta e mais ao norte do Pais.
Ali as paisagens se transformam, o verde exuberante se converte em uma cobertura rala e marrom e o cenário parnasiano dos arredores de Glasgow e Edimburgo dá lugar a uma paisagem mais hostil e selvagem. Nem por isso o contraste entre as montanhas, as rochas imponentes, os riachos pedregosos e a vegetação da tundra deixam impressionar pela beleza. É uma terra de horizontes vastos e grandes vazios. Inóspita ao primeiro olhar, mas que aos poucos vai revelando suas belezas e suas facetas mais agradáveis.

Chegando ao nosso destino não podíamos deixar de visitar, imediatamente, a principal atração daquelas paragens – pelo menos para nós estrangeiros – o famoso Loch Ness. O lago, com mais de 35 quilômetros de extensão, é de uma beleza impar e o contraste de suas águas escuras e profundas com as montanhas e pastagens do seu entorno fazem valer sua fama internacional.
Mas em um dia com ventos de um frio cortante, chuvas eventuais e pouco sol, nem mesmo o famoso monstro do lago ousou sair de sua caverna e não deu o ar da graça. Mas certeza que ele estava por lá nos vigiando!

Não tendo sucesso na observação da personagem mais famosa da região, retornamos para a capital das Terras Altas. Inverness é uma cidade pequena (70 mil habitantes) e sem grandes atrativos, além do Lago e dos velhos castelos às suas margens. Ainda assim, caminhamos pelas ruas centrais da cidade e subimos para conhecer o seu castelo, que ainda tem uso administrativo atualmente e é um local de onde se tem uma bela vista da cidade espalhada ao longo do Rio Ness. Nada que justificasse as quase 3 horas de viagem, mas ainda assim, bonitinha.
Convencidos pela praticidade do Vicente e da Marília acabamos almoçando no McDonalds (!!!!!!), franquia americana que globalizou o nome de um dos mais tradicionais clãs escoceses, os MacDonalds, que dominaram o oeste da Escócia e o norte da Irlanda no final da Idade Média, antes de virarem sinônimo de fastfood.

Os tradicionais MacDonalds, segundo Trevor-Roper, jamais usaram os famosos kilts e as gaitas de fole que tão marcantemente associamos à Escócia e suas mais profundas tradições. Ao contrário!
No seu artigo, o autor defende que o kilt, os tartans de padrões diferenciados e a própria gaita de fole são uma tradição escocesa inventada há pouco tempo, tão recente como a segunda metade do século XVIII. E, mais grave: o inventor da moda foi um INGLÈS!!!!!
De acordo com o autor, antes da unificação das coroas, em 1707, o traje tradicionalmente usado pelos populares escoceses das terras altas era um manto de peça única com um cinto que o amarrava e se chamava breacan. Já os nobres de então, imitavam os costumes das classes mais abastadas de Edimburgo e usavam calças compridas justas e axadrezadas denominadas trews.
O kilt que hoje conhecemos foi inventado por um Quaker inglês de Lancashire, denominado Thomas Rawlinson cuja família controlava fornos de fundição e forjas na Inglaterra e que, em 1727, fez um acordo com Ian MacDonell, chefe do clã MacDonell de Glengarry, arrendando umas florestas perto de Inverness para extrair madeira e posteriormente construir um forno para o refino de ferro.

Quando Rawlinson percebeu o manto com cinto usado pelos highlanders era incomodo e desajeitado para o labor na forja e na floresta, resolveu simplificar a vestimenta, adequando-a ao trabalho. Criativo, desenhou um uniforme em que separava a parte de baixo da túnica da parte de cima que eles usavam também como capa. Criava assim o feliebeg (saia curta com as pregas já costuradas), que de tão prática e acessível logo se espalhou por todas as Terras Altas, isto por volta de 1730!!!
O autor faz questão de frisar que o kilt, nome que popularizou o feliebeg, não era a vestimenta dos nobres e proprietários de terras ou dos chefes de clãs, mas sim de seus criados e trabalhadores braçais. Logo, o tecido utilizado, tanto das mantas antigas, como dos novos kilts, não eram os hoje famosos tartans multicoloridos, mas sim, tecidos de cores cruas, próximas ao marrom, que eram mais baratos e, por conseguinte, não tinham qualquer relação de identidade com a pessoa ou o clã a que pertenciam.

Depois da rebelião dos highlanders jacobitas em 1745 o Rei da Inglaterra, como parte de estratégia de desorganizar a cultura das terras altas e fazer valer os domínios da Coroa resolveu, entre outras coisas, proibir o uso das vestimentas tradicionais da região. Assim breacans, trews, kilts e outros trajes dos montanheses tornaram-se peças excluídas do guarda-roupa da região, sob pena de prisão e deportação para quem contrariasse a norma.

Outra resposta do Rei ao movimento rebelde foi a implantação dos primeiros regimentos militares britânicos nas Terras Altas, ocupando a área e canalizando para o exército oficial o espirito guerreiro dos highlanders. Curiosamente esses soldados mantiveram a permissão de usar as roupas proibidas, incluindo os modernos kilts, que logo se popularizaram. Para se diferenciarem entre si cada regimento passou a adotar um padrão de tartan. Ou seja, seu uso era restrito aos militares e não tinha qualquer relação com as famílias tradicionais do norte da Escócia. Estas, se adaptando aos regramentos reais, preferiam usar roupas que imitavam os padrões vigentes na corte inglesa ou entre os ricos e famosos de Edimburgo.
Foi somente no final do século XVIII, influenciados pela teoria do bom selvagem de Rousseau, que os intelectuais escoceses adotaram uma nova perspectiva em relação aos brutos extravagantes das terras altas do norte e passaram a considera-los como representantes da mais arraigada tradição daquele povo. Logo, sociedades se formavam para valorizar a tradição escocesa das Terras Altas em Londres, Edimburgo e outros centros, tendo intelectuais e eruditos nascidos naquele país à sua frente.

A tradição ancestral do kilt virou verdade absoluta quando, em 1822 (!!!), o Rei Jorge IV resolveu visitar a capital escocesa. Sir Walter Scott, um dos maiores intelectuais do país, fica incumbido de organizar a cerimônia de recepção do mandatário e se propõe a fazê-lo resgatando e valorizando o mais tradicional de sua terra. Para tanto, escreve a todos os chefes de clãs das terras altas convidando-os a virem receber o rei vestindo suas agora tradicionais vestimentas.

A empresa inglesa Wilson & Son de Bannacknoburn, que há anos produzia os tecidos de tartan, vê nesta ocasião excelente oportunidade de negócio e, com chancela da Sociedade das Terras Altas em Londres, cria um catálogo que relaciona um padrão de cor do tecido a uma determinada família ou clã.
Os produtos dos Wilson vendem que nem água e no dia da cerimônia a capital escocesa é invadida por milhares de homens trajando aqueles vestidinhos estranhos coloridos. Até o Rei adere à moda e aparece vestido como um tradicional escocês das terras altas, para delírio de muitos e constrangimento de alguns.

Lorde Macaulay, montanhês de estirpe, mesmo reconhecendo alguma antiguidade na vestimenta, achava que esta absurda modernidade havia “atingido um ponto além do qual não poderia mais ir. O último rei britânico que manteve uma corte em Holyrood julgou que não poderia dar prova mais definitiva de seu respeito pelos costumes que prevalecem na Escócia desde a União do que fantasiar-se com um traje que, antes da União, era considerado por nove entre dez escoceses como roupa de ladrão”.
Não posso negar que a tese defendida e bem fundamentada por Trevor-Roper me deixou cabreiro com relação à ancestralidade das tradições escocesas e suas origens célticas, mas isto não diminuiu em nada o prazer que foi conhecer aquele país e aquele povo.

Para os amigos que forem para o norte da ilha, deixo uma sugestão: se não dispuserem de tempo de sobra na sua viagem, não precisam ir até Inverness para ver a tradição das terras altas. Invistam seu tempo em Glasgow e Edimburgo que oferecem aos visitantes o tradicional, o histórico e o que há de mais moderno naquele belo país. E divirtam-se com os espetáculos de rua proporcionados por escoceses tradicionais com vestimentas talvez nem tão tradicionais assim.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Em tempos de Francisco...




A visita do Papa Francisco I ao Brasil tornou a religião Católica e as questões de natureza religiosa tema recorrente em todas as mídias. Assim, não podia perder a oportunidade de falar sobre leitura e viagens relacionadas ao homem que inspirou o Cardeal Jorge Mario Bergoglio na escolha do seu nome como sucessor de Pedro.

São inúmeros os livros, textos e filmes que tratam da vida do criador da ordem dos frades menores. Quem não assistiu Irmão Sol, Irmã Lua ou não escutou músicas e referências ao papel revolucionário que Francisco de Assis teve para a Igreja Católica durante o século XI e que ainda tem.

Recentemente tive a oportunidade de ler o interessante livro São Francisco de Assis – O homem por trás da lenda, de Augustine Thompson. Mais que um texto romanceado sobre a vida do famoso santo, neste livro, o autor, que é um padre dominicano com Doutorado em História Medieval, procura, com base em uma séria pesquisa histórica, retratar da melhor maneira possível a vida de Francisco e a Europa em que ele vivia, no intuito de separar a história da lenda.

Nesta trilha ele nos apresenta a família de Francisco em Assis e como devia ser a vida social de uma cidade na península italiana daquela época, com suas guildas, suas festas e como seria a vida “dissoluta” do jovem Francisco, filho de comerciantes emergentes e com dinheiro naquela cidade, no capitulo “Quando andava em Pecados”.


Com base nas informações e dados disponíveis ele narra a fracassada experiência militar de Francisco na batalha de Ponte San Giovanni, mais um capítulo da guerra entre Assis e Perugia durante o século XI, quando nosso futuro santo caiu prisioneiro das hostes inimigas e assim permaneceu por quase um ano até que sua família pagasse o resgate e de como – aí especulação do autor – esta experiência frustrada pode ter sido decisiva para que Francisco di Bernardone abandonasse os sonhos de se transformar em heróico cavaleiro e se encaminhasse para uma vida mais espiritual.

Do mesmo modo o autor tenta explicar – a partir da compreensão de como se organizava a sociedade da época – a famosa história do abandono da família e da opção pela pobreza como resultante do desinteresse de Francisco pelas coisas mundanas e o medo, de seus pais, que sua dedicação à caridade e à recuperação de igrejas e pequenos templos pudessem arruinar a fortuna tão duramente conquistada.

Entre outras coisas, o autor desmistifica a crença de ser Francisco o autor da famosa Oração da Paz – aquela do “Senhor fazei-me instrumento de vossa paz” – entendendo de que dificilmente um homem do seu século colocar-se-ia em outra posição em relação ao Senhor que não fosse de obediência, de objeto da vontade divina, não em sujeito de transformação. Ainda de acordo com Thompson, fontes históricas apontam que a oração foi composta originalmente em francês por autor desconhecido e datada do início do século XX, de 1912 para ser mais preciso.

O autor também explora o sofrimento de Francisco devido à contradição que nascia, necessariamente, de um homem que queria ser o menor dos menores, mas era, ao mesmo tempo, o líder de uma congregação que se iniciara com poucos seguidores em Porciúncula e que quando já estava perto do fim de sua vida havia sido reconhecida por Papas e Bispos e atraia milhares de religiosos que olhavam para ele como um líder, aquele que estaria acima de todos e os guiaria. Como um maior podia ser menor?

De acordo com a narrativa de Thompson, Francisco sofre com este paradoxo, enquanto desfilam pelo texto outros santos conhecidos da história da Ordem, como Santa Clara e Santo Antônio de Pádua e outros que forjaram os franciscanos como eles hoje são.

Ficamos sabendo, entre outras coisas, que Antônio de Lisboa (depois de Pádua) só tem sua sólida formação aproveitada pela ordem depois que Francisco revê as suas regras e o Papa Honório III baixa o regramento que possibilita que seus seguidores possam ambicionar aprender mais e crescer na carreira eclesiástica. Inicialmente tal aspiração era vista por São Francisco como manifestação de orgulho e uma ambição inadequada para quem se propunha a ser um frei menor.

E Antônio, vindo de Lisboa, tem papel fundamental na organização desta faceta “erudita” da Ordem. Ele, primeiro Doutor em Religião entre os Franciscanos, é culto, educado e excelente orador e vai, com os anos, mesmo depois da morte de Francisco, ganhando posição de mais e mais destaque junto aos seus pares.

Assis e Pádua distam, uma da outra, pouco mais de 360 quilômetros que podem ser feitos por belas paisagens, passando pela cidade de Bolonha na direção do Veneto. Estive nessas duas cidades no inverno de 2012, um dos mais rigorosos dos últimos anos na Europa - até em Roma nevou, coisa que fazia 25 anos que não ocorria - com os prós e contras de viajar no frio e na neve.

Não ficamos em Assis. Preferimos nos hospedar em Perugia em um excelente hotel em seu centro histórico, nas imediações da Piazza de Italia. Como chegamos a noite, com muito frio, no primeiro momento apenas pudemos apreciar a neve que cobria a cidade e um excelente restaurante local que foi indicado pelo concierge e que ficava nas imediações. Diante do frio que fazia o vinho tinto da Úmbria fechou com chave de ouro o primeiro dia na Itália.

O dia seguinte amanheceu esplendoroso, com um céu azul e um sol radiante que dava mais beleza ao contraste entre a arquitetura antiga do centro da cidade e a brancura da neve que havia caído durante a noite. Fazia frio, mas isso não nos impediu de fazer uma bela caminhada ao longo do Corso Pietro Vannucci, partindo da praça e seguindo na direção da Catedral, com direito a fotos na Fontana Maggiore e nas escadarias do Pallazzo dei Priori que fica ali defronte. O passeio foi mais que agradável, mas como o tempo era escasso, pouco depois do meio dia estávamos de novo no carro, agora rumo a Assis.

 A pequena cidade murada nos recebeu praticamente vazia, não sei se por conta de ser dia de semana ou se por conta do frio que fazia. Depois de achar com facilidade um lugar para estacionar o carro, logo fora das muralhas, seguimos diretamente para a Basílica de São Francisco de Assis que se encontrava igual e surpreendentemente vazia. Aqui e ali um peregrino, um pequeno grupo de turistas ou um franciscano aparecia para fazer uma oração ou para reverenciar o santo da casa.

A basílica, cuja construção começou logo depois que Francisco foi canonizado, lá pelo século XIII, é hoje um prédio de grandes dimensões, compreendendo a duas igrejas e a cripta, que guarda os restos mortais do santo. Apesar dos inúmeros afrescos e outros trabalhos de arte que a decoram o complexo religioso, a minha sensação foi de que aquela igreja não era compatível com o santo que eu esperava encontrar em Assis. Mesmo quando desci à cripta, ainda me pareceu que havia um descolamento entre o ambiente e a mensagem, algo grandioso demais para o santo que queria ser o menor dos seguidores de Cristo, não que fosse luxuosa, mas me pareceu grandiosa e acética. Distante! Algo parecido com o que senti quando visitei Fátima, mas isto é outra viagem.

De lá saímos caminhando pelas ruas tortuosas da cidade murada, pelas ladeiras cheias de lojinhas, que vendem todo o tipo de souvenires de São Francisco, Santa Clara e a da cidade. Passamos pela antiga praça do fórum da cidade romana de Asisium, hoje Piazza del Comune, para admirar o antigo templo de Minerva, depois convertido na igreja de Santa Maria sopra Minerva. Ali entramos em uma lanchonete e comemos qualquer coisa. A ideia era que o dia rendesse ao máximo, pois nosso próximo destino era a Basílica de Santa Clara, no extremo oposto da cidade.

Na igreja devotada a Santa Clara a mesma sensação. Pouca gente, pouco calor – realmente fazia frio. Uma sensação completamente diferente daquela que senti quando entrei na Basílica de Santo Antônio de Pádua, o frade português que depois juntar-se à Ordem dos Frades Menores veio a se converter, assim como seu líder, em um dos santos mais adorados da religião católica.

Dias depois de Assis estávamos em Pádua, cidade eleita como base para as incursões pelo Veneto. Depois da experiência pagã de acompanhar o carnaval veneziano e brindar com um Brunello a noite de sábado na Piazza San Marco, o dia seguinte amanheceu frio e nublado, convidando a ficar ali mesmo pela cidade-base.

Como o hotel ficava fora da cidade murada, convenientemente perto da rodovia para facilitar os deslocamentos, fomos de carro até o centro da cidade, paramos no estacionamento do Pratto de la Valle, uma enorme praça elíptica no centro da cidade, que naquele dia recebia uma feira de antiguidades. Depois de comprar algumas cédulas e moedas antigas para a coleção, seguimos na direção da Basílica.

Uma leve garoa começou a cair aumentando a sensação de frio e aceleramos o passo para chegar à igreja.

Quando entrei na Basílica a sensação foi completamente oposta da que havia experimentado em Assis. Era hora da missa e a nave principal estava lotada. Não só os cânticos e a celebração da missa eram envolventes, mas havia naquele momento uma sensação de conforto que – mesmo para alguém que não é muito dado a questões espirituais – era mais que o mero conforto físico.

O ambiente da basílica – o calor, as pessoas, as vozes, as imagens, as sensações – acalmavam corpo e espírito e, ainda que ir ver a língua do Santo que está ali exposta seja uma experiência diferente, por assim dizer, não posso negar que naquele momento tive uma experiência transcendental.

Em Pádua me senti mais perto de entender o ideal franciscano e o poder transformador da entrega espiritual, coisa que não encontrei em Assis, em nenhum momento. Tudo bem que a neve nos impediu de visitar a Porciúncula, o que talvez tivesse possibilidade um encontro de igual natureza, mas a experiência da Basílica ainda estava comigo mesmo quando estava do lado de fora tirando fotos em frente a estátua equestre produzida por Donatello do famoso condottieri Erasmo de Narni, vulto Gattamelata .

Mas Pádua tinha mais a oferecer!

Sede da segunda universidade mais antiga da Itália, perdendo apenas para a de Bolonha, a cidade tem inúmeros atrativos para os que gostam da cultura e da história da “bota”. Em especial a Cappella degli Scrovegni com os belíssimos afrescos pintados por Giotto. A pequena capela é uma das principais atrações turísticas da cidade e, com certeza, vale a visita e a espera, uma vez que só se entra em visita guiada, com número restrito de visitantes e depois de uma série de controles de temperatura e biologicos para evitar que as pinturas se deteriorem.

Nas ruelas da cidade velha também se encontram vários prédios históricos e museus – como o ótimo museu da cidade, praticamente em frente à Cappela famosa – que garantem dias de diversão e entretenimento de qualidade.

Já Assis merecerá nova visita.

Quem sabe na primavera, quando poderei passear nos campos que a cercam e que pareciam muito bonitos à distância. Visitar as pequenas capelas, caminhar pelos lugares onde São Francisco viveu e pregou e aproveitar melhor a campanha italiana com atividades mundanas como um bom vinho e uma boa mesa.

Em tempos de Francisco, nada melhor que calçar as sandálias da humildade e reconhecer que o mais provável é que o frio tenha embotado meus sentimentos do que negar a espiritualidade da terra natal de tão extraordinário homem.

domingo, 21 de julho de 2013

São Jorge de Lisboa




Uma decisão impensada, uma pequena mudança, uma escolha não feita, um não mal colocado, podem mudar a história, podem mudar as pessoas, podem afetar as nossas vidas?
Uma viagem a Portugal poderia –  ou NÃO – começar por onde se deu início à construção da nação que anos depois se tornaria o principal centro da expansão ultramarina europeia e centro de um império global: a parte mais antiga de Lisboa.

Surpreendentemente, muitos dos que visitam a capital portuguesa acabam por NÃO visitar o Castelo de São Jorge. Ele que do alto da colina mais alta do centro histórico, há mais de 1000 anos contempla o movimento da cidade e vigia a entrada do porto que naturalmente ali se forma por conta da curva que faz o Rio Tejo antes de avançar com suas águas na direção do Oceano Atlântico.
Foi essa privilegiada posição que atraiu os Romanos que expulsaram os Lusitanos e depois foram expulsos por Suevos, pelos Visigodos que os sucederam e mais adiante pelos mouros que por volta do século VIII ocuparam a área do castelo, reforçaram suas defesas, construíram a cerca moura e os traçados de ruas e casas que condicionaram o que hoje é a Alfama, bairro tradicionalíssimo da cidade, com seus deliciosos restaurantes e interessantes casas de fado.

No início do século XII quando o Condado Portucalense declarou sua autonomia do Reino de Leão e se transformou no reino de Portugal, ocupando as terras entre o Minho e o Douro, a cidade de Lisboa continuava – depois de idas e vindas – nas mãos dos Mulçumanos e a sua retomada era importante no processo de reconquista da península Ibérica pelos cristãos.
Em 1147 o Rei Afonso Henriques deu início ao cerco à cidade, missão fundamental para a consolidação do novo reino e, de certa maneira, garantia de que os reis de Leão e Castela não reclamariam que o país voltasse à antiga situação de condado. A tarefa se mostrava difícil para o rei lusitano e para os parcos recursos da nascente nobreza lusa. Não fosse o apoio dos cruzados que, no seu caminho para o Oriente, fizeram uma escala na foz do Tejo e aceitaram apoiar a cruzada lusitana, Dom Afonso Henriques, provavelmente, não teria sido bem sucedido.

Aqui, neste ponto da história entra o livro que nos acompanha nesta viagem e também a explicação do porque o texto começar como começou. O livro, do único autor da língua portuguesa a receber um Nobel de Literatura, José Saramago, A História do Cerco de Lisboa, conta a história de Raimundo Benvindo Silva, revisor encarregado de tratar o livro História do Cerco de Lisboa que resolve, por razões que a própria razão desconhece, intervir no texto alheio e modificar a frase original que passa a ser: “e os cruzados decidiram que os portugueses NÃO terão sua ajuda”.
A partir daí a vida de Raimundo e da editora onde ele trabalha passa por uma revolução, com crises entre chefes e funcionários, editores, revisores e escritores, o que vai ser o mote de boa parcela do romance.
A mudança incidental patrocinada por Raimundo Benvindo também transforma a história do cerco à cidade – agora sem os cruzados – que Saramago continua a narrar, apresentando seus personagens: el-Rey Dom Afonso, o capitão Mem Ramires, o soldado Mogueime e toda as desventuras do exército luso a partir daquele não.

Assim, o autor vai construindo uma trama que mistura a história que foi com a que poderia ter sido e a história atual de Raimundo e sua paixão pela nova chefe dos revisores, Maria Sara, que chega à empresa para evitar que problemas iguais se repitam e para balançar o coração do revisor.
Os caminhos trilhados pelas personagens – tanto os do século XII como os do século XX – são tão tortuosos quanto as ruelas da Alfama e da freguesia do Castelo que nos conduzem até a porta de São Jorge e as belezas do castelo. Ao longo da escalada – é uma longa subida – o turista mais observador poderá encontrar troços remanescentes da antiga cerca moura, que hoje serve de fundações para muitos dos prédios, muros de arrimo e ruelas que cortam os bairros da freguesia.

Aqui e ali os mais atentos vão ver no beco do Arco Escuro, na Porta do Mar, no Arco de Jesus ou na rua de Judiaria reminiscências das pedras da antiga muralha que serviu de obstáculo para as personagens da conquista – as de Saramago e as da vida real – e que os submeteram a quase 100 dias de um cerco muito duro já que a muralha que defendia Al-Usbuna (ou Lissabona) cercava um perímetro de 1250 metros, com uma largura que variava de 2 a 2,5 metros, algumas portas permanentemente fechadas e torres que apoiavam a tenaz defesa dos mouros.
Reza a lenda que a conquista só foi possível porque o cavaleiro Martim Moniz, ao perceber que um dos portões estava aberto, sacrificou sua vida ao usar o próprio corpo para evitar que os mouros conseguissem trancá-lo e assim permitir que seus colegas portugueses entrassem na cidade murada.

O livro de Saramago traduz a dificuldade que os portugueses enfrentaram durante o período do cerco tanto nos desafios enfrentados pelo capitão Men Ramires como pelo soldado Mogueime que assume papel de representante dos interesses dos soldados lusos que não se conformavam em serem discriminados em relação ao tratamento que recebiam ou receberiam os estrangeiros que apoiassem El-Rey Dom Afonso na conquista da cidadela.
Depois que os cristãos ocuparam Lisboa a cidade ainda resistiu a duas investidas dos mouros que tentaram retomá-la e, uma vez consolidada a conquista, ela foi transformada em capital do reino português e o castelo de São Jorge passou a abrigar a corte, acolhendo reis, generais, bispos e a fidalguia lusa.

O que resta da Lissabona dos primeiros anos de domínio português, além dos remanescentes da cerca moura, é o clima de cidade interiorana da Alfama com suas casas apinhadas umas sobre as outras, a beleza do Castelo de São Jorge – hoje convertido em museu – a perspectiva que se tem da cidade desde a Colina e as igrejas que aparecem a cada esquina, muitas delas reconstruídas depois do terremoto de Lisboa no século XVIII, com destaque para a Sé de Lisboa.
Esta última merece um tempinho a mais da nossa atenção. Construída, por volta de 1150, no local de uma antiga mesquita para o cruzado inglês Gilbert de Hastings, nomeado primeiro bispo de Lisboa, a catedral sofreu com os terremotos que abalaram a cidade tanto no século XV como no XVIII, o que obrigou que ela fosse várias vezes renovada e a transformada numa grande mistura de estilos.

Apesar do interior escuro e austero das três naves que a formam, algumas capelas e memoriais de reis, fidalgos e heróis dos muitos séculos da história portuguesa já justificariam a visita, ademais, a Sé abriga a pia onde foi batizado Santo Antônio, no distante ano de 1195. A peça mais importante da coleção, entretanto, são os restos mortais de São Vicente, trasladados para a catedral em 1173 que podem ser visitado na sala do tesouro, junto com trajes, relíquias e outras peças de valor.
O museu do Castelo de São Jorge também tem um número razoável de atrações e, na minha opinião, vale a pena aproveitar um fim de tarde de primavera no pátio do Café do Castelo para tomar um vinho branco ou um café com pastéis de nata, descansando de um dia inteiro de caminhadas pelas ruas da Alfama e pelas muralhas, apreciando sua beleza e curtindo seu agradável clima de cidade pequena.

Neste momento o visitante poderia se perguntar: e se os cruzados não tivessem apoiado Dom Afonso Henriques? O que um não dito na hora errada teria afetado a história de Portugal? E como afetou a do revisor de Saramago?
No livro, apesar das desventuras – tanto de El-Rey e sua trupe, como dos funcionários da editora – Lisboa ainda está Lisboa e ainda é portuguesa, Raimundo Benvindo ainda é Raimundo e ama Maria Sara. Mas, certamente, o Castelo não seria dedicado a São Jorge, já que este é o santo da devoção dos cavaleiros e dos Cruzados!

domingo, 14 de julho de 2013

Toledo, Zaragoza, Tordesilhas e a Espanha dos Tratados.


Desde a adolescência a Espanha, ou melhor, os reinos de Castela, Aragão e Leão fazem parte desse imaginário histórico da construção do Brasil e, consequentemente, do que e de quem somos.
Portugal, a pátria que nos pariu (ou descobriu, ou achou, ou fundou) é ela própria, cria de Castela. O pedaço de terra achado por Pedro Álvares Cabral teve sua certidão de nascimento em um tratado firmado na desconhecida – provavelmente assim permaneceria se não fora o tratado – cidade de Tordesilhas.

A falta de quaisquer outros atrativos – pelo menos que eu tenha ouvido falar – fez com que nunca colocasse esta cidade como prioridade nas vezes que fui à Espanha. E olha que estive até perto de lá nas visitas que fiz a Ávila e Segóvia.
Por outro lado – ou melhor, para o outro lado para quem sai de Madri – está a cidade que durante boa parte da história medieval da península Ibérica teve posição política importante e foi capital de Reinos e Taifas: Toledo.

Durante os séculos XIV e XV a corte de Leão e Castela costumava se reunir em várias cidades – a ideia de capital administrativa como temos hoje não fazia muito sentido já que o governo estava onde o rei estivesse – mas certamente Toledo era uma das mais frequentadas.
O livro 1494, O Papa, os Reis e o Mercenário de Stephen R. Brown não esclarece a razão, mas provavelmente, na época da assinatura do tratado, a corte de Fernando e Isabel – os famosos reis católicos – devia estar reunida em Valladolid, para que o evento ocorresse ali perto em Tordesilhas.

Se o texto não esclarece este ponto da historia, ele é rico em detalhes e informações sobre os estados ibéricos da era medieval e a formação do que hoje conhecemos como Espanha.
O autor conta da rebeldia de Isabel que, contrariando os partidários de seu irmão – Henrique IV, o Impotente - que articulavam o seu casamento com o herdeiro do trono português, preferiu se casar às escondidas com o herdeiro do trono de Aragão, seu primo Fernando, numa aliança que consolidaria a reconquista da Península Ibérica pelo catolicismo e o fim de mais de 700 anos de influência muçulmana naquela região.

O livro também revela o importante papel desempenhado por Rodrigo Bórgia, bispo de Valência que, com o apoio de Fernando – político e militar – veio a ser eleito papa em 1492, mesmo ano em que Colombo chegou às Américas, também com o patrocínio dos reis católicos.Bórgia também tinha participado das negociações junto ao Papa Sisto IV para autorizar o casamento entre os primos e, poucos anos depois, foi quem deu o título de Reis Católicos para Fernando e Isabel.
Além do título, Rodrigo Bórgia, agora Papa Alexandre VI, editou 3 bulas papais que viraram de ponta cabeça a expansão marítima europeia e colocou ainda mais lenha na fogueira das disputas entre Portugal e Castela.

A primeira delas Inter Caetera, dava base legal para a reivindicação europeia sobre as terras descobertas, garantia a justificação para a conquista da América indígena pelos europeus e reconhecia todo poder e jurisdição aos reis de Castela e Leão sobre os lugares descobertos “pelo nosso adorado filho Cristóvão Colombo”.Os reis católicos, entretanto, acharam pouco e pressionaram Alexandre VI por mais.

Em resposta, a segunda bula papal, Eximia Devotiones, garantia direitos iguais à Espanha e Portugal sobre as terras descobertas e estabelecia uma primeira linha divisória do mundo descoberto e a descobrir, que ficaria a cem léguas dos Açores e de Cabo Verde.
O rei português, Dom João II, não acreditava nos rumos que as decisões papais estavam tomando, mas ele ficou realmente furioso quando a terceira bula papal reconheceu os direitos portugueses apenas sobre as terras que estivessem sob sua posse até o natal de 1492.

Não querendo confrontar diretamente o poder papal o rei resolveu abrir negociações diretas com Fernando e Isabel, mandando seus embaixadores para Tordesilhas para negociar o famoso tratado.

Ainda que não tenha sido o palco do acordo, Toledo é a cidade mais representativa deste período da história espanhola. Tendo sido a capital de uma das taifas mais ricas do Al-Andalus sua tomada pelos cristãos em 1085, marcou o início da reconquista da península Ibérica e reforçou o caráter religioso desta guerra.
A cidade murada, que fica a 70 quilometros de Madri e com ligação de trens que partem da estação Atocha regularmente, é passeio imperdível. Mais que a beleza dos trabalhos em aço da cidade, com suas belas espadas e armaduras, a cidade é ponto de encontro das 3 culturas conviveram na Ibéria durante tantos anos. Mesquitas, igrejas e sinagogas se misturam e se sobrepõem de modo a evidenciar como a cidade foi plural e cosmopolita durante seu auge.

A visita à catedral gótica, construída no século XII é imperdível, os vários portões que compõem as muralhas da cidade, os recentes achados das pesquisas arqueológicas sobre o período romano e visigótico da cidade, assim como a Igreja de Santo Tomé, onde se pode apreciar o belo trabalho de El Greco - o Enterro do Conde de Orgaz - mais que justificam um dia ou dois passados na cidade.
Essa pintura, por sinal, faz parte de uma das minhas mais antigas lembranças da Espanha: Quando adolescente, junto com meus pais e meu irmão Carlos, eu fui pela primeira vez a Toledo e minha mãe nos fez pegar uma fila que me pareceu interminável, sob o calor do verão da Mancha, para ver a tal pintura.

Do auge da minha intolerância juvenil não pude deixar de expressar minha opinião quando finalmente entramos na pequena sala onde está a famosa obra:
É só isso? perguntei à minha mãe, sem esconder o sarcasmo por trás das palavras. Acho que o elevado número de testemunhas impediu que minha mãe me enforcasse ali mesmo! E com razão! Como sempre têm as mães.
Só o tempo me ensinou a apreciar as figuras esguias de El Grego, suas mãos compridas e impressionantes e um belo jogo de luzes que faz dele um dos principais representantes da pintura medieval da Europa.

Depois de Toledo os cristãos avançaram cada vez mais para o sul da península e foram os reis católicos que concluíram esse processo depois de séculos.
Também foi sob o patrocínio de Fernando e Isabel que a Espanha embarcou na aventura ultramarina que se converteu na colonização das Américas e do globo, só que agora com a concorrência de franceses, holandeses e ingleses que também avocaram para si o direito do mar livre, como nos conta Stephen Brown.

Pouco mais de 30 anos depois do Tratado de Tordesilhas portugueses e espanhóis voltaram a se reunir para discutir uma nova linha divisória do globo e de seu poderio, no debate do que veio a ser chamado de o antimeridiano, ou seja, o lugar por onde passaria a linha do tratado no outro lado do mundo. Desta vez a cidade escolhida para abrigar as negociações foi Zaragoza.
Situada no meio do caminho entre Madri (Leão e Castela) e Barcelona (Aragão) e às margens do importante Rio Ebro – de onde vem o nome Ibéria – a cidade alcançou seu apogeu durante o Império Romano, como importante entreposto comercial quando era chamada Caesar Augusta (que virou Sarakusta para os muçulmanos).

Ela tem, como ponto alto para os turistas e visitantes, o museu romano, que na verdade são vários museus: o porto, o belíssimo anfiteatro, os restos da muralha, as termas. Partes de um mesmo museu espalhado por todo o centro, permitindo ao viajante conhecer, simultaneamente, a cidade de hoje e sua versão da antiguidade.

A Basilica del Pilar, cuja construção teve início em 1681 (há registros de templos na localidade desde tempos imemoriais) e teve últimas intervenções no século XVIII, impressiona pelo seu porte monumental, sua beleza barroca e os afrescos pintados por Goya.

O Tratado de Zaragoza, como então já deviam prever os negociadores, não resolveu nem resolveria as disputas e os constantes conflitos dos interesses lusos e hispânicos. Mas a união das coroas a partir de 1580 fez submergir esses contenciosos que só voltaram a ressurgir a partir de 1640, quando a questão não era mais de descobrir, mas de explorar os territórios descobertos.
Em1750, o Tratado de Madri veio resolver as disputas relativas aos limites das terras portuguesas na América do Sul, com a aceitação do princípio do “uti possidetis, ita possideatis” (quem possui de fato deve possuir de direito), uma vez que os portugueses que vieram colonizar o Brasil não respeitaram a linha demarcada em Tordesilhas o que deu ao nosso país praticamente o mesmo mapa que temos até os dias de hoje.

Mas deixemos Madri, seu tratado e suas atrações para outra viagem com livros.