sexta-feira, 3 de abril de 2015

Camiñaras con la Civilización.





A inexorável marcha da civilização é uma das coisas que mais chama a minha atenção nas muitas viagens que fiz na América Latina. Note-se que não há um juízo de valor quanto se esta civilização é melhor que aquela ou se esse padrão de desenvolvimento é melhor. Nada disto!

Há apenas a constatação de um processo aparentemente inevitável de culturas se sobrepondo umas às outras – em geral de forma não pacífica – por todos os lugares por onde andei, especialmente pela América espanhola.

De norte a sul, do México à Patagônia, salta aos olhos dos viajantes esta constante superposição de culturas, impérios e civilizações, seja pela dominação econômica, pela cooptação política, pela repressão cultural, pela supremacia bélica ou pelo total holocausto de populações há anos instaladas em um determinado território.

No livro Camiñarás con el Sol, Alfonso Mateo Sagasta nos apresenta uma das facetas deste processo de histórico de culturas e civilizações se transformando ao contar, de forma romanceada, a história de Gonzalo Guerrero, um marinheiro espanhol cuja caravela naufragou nas imediações da Jamaica e seus sobreviventes acabaram sendo capturados e escravizados por guerreiros no Yucatán.

O incidente ocorre no ano de 1516, quando a civilização Maia que dominava aquela região do globo já entrava em decadência e quando a aventura de dominação espanhola no que hoje conhecemos como México era um projeto que levaria alguns anos para se concretizar. Durante o período que permaneceu no cativeiro Guerrero foi aos poucos se ajustando ao modo de vida dos seus captores e passou a compreender e auxiliar a tribo que o escravizava a se fortalecer num ambiente em que as diversas tribos e grupos de guerreiros viviam em permanente estado de confronto.

Logo o protagonista de Mateo Sagasta estava orientando os ameríndios nas táticas militares mais modernas que se adotavam nos exércitos europeus e, por conta dos sucessos obtidos nas muitas disputas e escaramuças que enfrentou, se convertendo em um dos principais líderes militares daqueles índios, garantindo supremacia entre as tribos do seu entorno e transformando seu pequeno exército em um dos principais obstáculos aos avanços dos exércitos de Hernán Cortez nas selvas de Yucatán.

O livro não tem tom de denúncia ou de revisionismo histórico, mas assume um viés pro-ameríndios já que a experiência é narrada – majoritariamente – a partir da perspectiva de um europeu que acaba por assumir e adotar para si a cultura dos locais, a tal ponto que quando teve a oportunidade de juntar-se ao exército espanhol, chance que seu colega de naufrágio e de cativeiro Jerónimo Aguilar logo aceitou, Guerrero preferiu ficar com seus guerreiros maias.

Tão destacada foi sua atuação nas guerras do Yucatán, especialmente aquela em que cruzou o golfo de Honduras para derrotar os espanhóis que tentavam ocupar a região, que quando Gonzalo Guerrero foi finalmente morto, isto vinte anos depois de seu naufrágio, o governador da Guatemala, muito aliviado, correu a informar à Coroa Espanhola do fato.

Mas o processo histórico de dominação e conquista que é pano de fundo para o livro e que nos serve de guia para viagens por toda a América espanhola não se resume à conquista das Américas pelos Europeus.

As mesmas trilhas e caminhos que seguimos nos tours na região mostram-nos a formação dos impérios americanos, como os Incas e os Astecas, que também recorreram às guerras, conquistas, sanções econômicas e outros instrumentos de cooptação para estender seus domínios sobre áreas que, até hoje, nos surpreendem, seja por sua extensão territorial, seja pela complexidade dos recursos necessários para bem gerenciá-los.

Apesar do livro se passar na região Maia, principalmente sul do México e Guatemala, é na cidade do México e suas imediações que melhor eu pude observar ilustrações deste processo de conquista e dominação, principalmente na visita ao Museu Nacional de Antropologia e no passeio pelas maravilhosas ruínas de Teotihuacan, a cidade onde os Deuses foram criados.

Localizado em uma área nobre da cidade do México, em meio ao Parque Chapultepec, o Museu Nacional de Antropologia é formado por um conjunto de quatro prédios – me lembraram prédios do estilo do Niemeyer em Brasília, com muito concreto – em torno de um pátio que permitem ao visitante uma tour que parte do período em que os americanos ainda conviviam com os mamutes e passa por as muitas civilizações e culturas que formam a cultura do país.

Astecas, Maias, Olmecas, Teotihuacanos e Toltecas, além de muitas outras tribos e suas manifestações culturais estão ali expostos numa organização que ao mesmo tempo os distribui geograficamente, mas também tenta mostrar como uma civilização sucedeu a outra, aproveitando de seus desenvolvimentos e superando-as em suas conquistas e avanços, até a chegada dos espanhóis.

Saindo do museu, cortando o trânsito sempre complicado da maior metrópole da América Latina no sentido norte, o visitante se dirige para o que deve ter sido a maior cidade da região durante o primeiro milênio depois de Cristo: Teotihuacan. Construída entre o primeiro e sétimo séculos depois de Cristo, a cidade sagrada é impressionante, mas que isto: é monumental!

Imagine-se em uma avenida larga cercada por prédios imponentes de lado a lado, com uma extensão de mais de dois quilômetros, tendo seu início na cidadela, onde está o Templo de Quetzalcoatl e, na outra extremidade, é coroada pelas majestosas pirâmides do Sol e da Lua.

Cuidando para não perder o fôlego, seja por conta da impressionante beleza do lugar, seja por conta dos efeitos da altitude, suba os muitos degraus da pirâmide do Sol, a mais alta delas, e lá de cima contemple todo o maravilhoso espetáculo que se apresenta e que, sem dúvidas, convida à reflexão.

Com isto em mente, se pergunte como uma civilização, um povo, conseguiu construir tamanha maravilha há mais de 1500 anos atrás! Ou ainda, como e porque uma civilização tão impressionante subitamente desapareceu da face da terra e só mais de 1000 anos depois as ruínas deste impressionante complexo arquitetônico foram descobertas.

Não há como não especular sobre o inevitável processo da ascensão e descenso de povos e culturas. Não tem como não se perguntar se todo o conhecimento que permitiu a existência de Teotihuacan simplesmente se perdeu ou será que os Mexicas e Astecas, grupo de nômades, vindos do norte, que séculos depois transformaram uma área pantanosa onde encontraram uma águia devorando uma cobra em cima de um cacto na capital do maior império das Américas não se aproveitaram desta experiência histórica.

Antes de sair do complexo, dê uma passada no pequeno museu que existe e que abriga algumas peças e informações sobre a cidade – as melhores peças estão no Museu Nacional de Antropologia já visitado – especialmente a bela maquete que dá uma dimensão bem mais objetiva do tamanho e da complexidade dessa sociedade há muito desaparecida.

De volta à Cidade do México, outras muitas evidências deste processo de interação e submissão de culturas e civilizações vão aparecendo a cada olhar, a cada passeio.

Como na visita à Plaza de Armas da cidade, com a curiosa vizinhança entre a Catedral e o antigo Templo Asteca onde Montezuma teria sido assassinado por Cortês, num processo de conquista em que os espanhóis contaram com o decisivo apoio de muitas outras tribos de ameríndios que há anos eram submetidos pelos Astecas e viram na chegada dos europeus a chance de se livrar do jugo de seu inimigo histórico.

Mesmo quando a vitória parece se voltar contra o conquistador, como nas muitas derrotas que Gonzalo Guerrero aplicou sobre seus compatriotas espanhóis, ainda assim o processo de dominação se apresenta, já que para transformar os guerreiros Maia em vencedores, Guerrero teve que treiná-los para adotar táticas e conceitos de guerra que eram tão alienígenas para aquele povo quanto os cavalos que os espanhóis chegaram montados e as armas de fogo que utilizaram.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Os Enigmas de Chartres.



Uma das minhas manias de viagem é a de comprar livros que tratem da história ou de aspectos da vida dos países ou cidades que visito. Esta mania tem me ajudado a descobrir curiosidades e muitas coisas interessantes de tais lugares, como na viagem que fiz à França para comemorar os 70 anos de meu pai.

Numa tarde chuvosa, em que as mulheres preferiram investir nas compras numa dessas Zaras da vida, entrei em uma livraria e acabei por comprar uma edição de bolso do livro “Le Régent, Le Guerrier Libertin” de Patrick Pesnot, jornalista e escritor francês conhecido em suas terras pela autoria de romances históricos “trés documentes”, como explica sua apresentação.

O guerreiro libertino é o primeiro volume da história do Duque Felipe II de Orleans, sobrinho de Luis XIV, o famoso Rei Sol, aquele que nos velhos livros de história era apresentado como o símbolo paradigmático do absolutismo, autor da igualmente famosa e nada modesta frase: “O Estado sou Eu!”

O maior desafio desta minha experiência foi enfrentar uma história escrita em francês tendo como ferramenta o meu francês “achado na rua”, que não sabe sequer diferenciar o passado e o presente do futuro!

No início da minha tarefa, que logo se mostrou hercúlea (o livro tem mais de 400 páginas), recorri ao auxílio de um dicionário, mas como não conseguia avançar, acabei abandonando esta estratégia e me conformando em entender o sentido da história, perdendo a riqueza dos detalhes e dos ferinos comentários que o autor colocava na boca das personagens.

Apesar da minha deficiência no idioma logo ficou claro que a trama narrada por Pesnot se desenvolve em torno do esforço de Felipe, duque de Chartres (ele só vira duque de Orleans quando seu pai, o primeiro duque falece), de desvendar o enigma da sobrevivência em uma corte mesquinha e invejosa, cheia de fofocas e puxa-sacos e de um rei que governava e decidia em função do seu humor e sob forte influência de suas amantes, especialmente, da poderosa M. de Maintenon.

Apesar de sobrinho legítimo do rei, herdeiro das coroas de França e Espanha, filho de um dos homens mais ricos da França e de uma princesa alemã, Felipe logo aprende que em um ambiente como a corte de Versailles desempenhar com sucesso suas tarefas nem sempre é motivo de promoção e reconhecimento.

Na verdade, quanto mais bem sucedidas foram suas campanhas nos campos de batalha mais seus inimigos envenenavam o rei e seus herdeiros, com o argumento de que ele seria uma ameaça à sucessão e que ambicionava tomar para si a coroa e o amor dos seus súditos.

Nisto o livro de Pesnot se mostra extremamente atual! É impressionante notar que trezentos anos depois da morte de Luis XIV a política cortesã continua tendo as mesmas características, com um exército de puxa-sacos distorcendo o julgamento do rei de plantão, fazendo com que seja mais negócio ser um cortesão dócil e inofensivo, do que ser um gestor eficiente e dotado de luz própria.

Como avisava Augusto dos Anjos há mais de cem anos: a mão que afaga é a mesma que apedreja!

Demorou um tempo para que Felipe decifrasse o enigma sobre quem estava por trás dos constantes reveses políticos que ele sofria mas, quando ele estava no fundo do poço, quando sua conduta libertina e sua nem sempre bem disfarçada ambição pela coroa espanhola – sim, ele tinha sua parcela de culpa – tinham servido mais uma vez aos seus adversários para manchar e corromper sua imagem perante o tio-rei, ele se vê bafejado pela sorte, se é que se pode chamar a morte de familiares próximos de sorte.

Entre 1711 e 1712 morreram vítimas de um surto de escarlatina: o Delfim (ou seja, o príncipe herdeiro), pai do Rei de Espanha, primo legítimo de Felipe e um dos seus principais adversários na corte; o filho mais velho do Delfim, que seria o segundo na linha de sucessão real e sua esposa; e, também o neto mais velho do rei Luis XIV. De repente, em menos de um ano, morreram os 3 primeiros nomes na linha de sucessão real e o próximo herdeiro – que seria o futuro Luis XV – tinha apenas 2 anos de idade.

Claro que os adversários de Felipe viram nesta sucessão de adventos fatais o risco a que estariam expostos e trataram de acusá-lo de ter envenenado toda a família real. Diante do absurdo da acusação, quando Luis XIV morre em 1715 deixando como herdeiro seu bisneto com apenas 5 anos de idade, Felipe se torna o Regente e o todo poderoso da França, mostrando a face igualmente enigmática e surpreendente da política.

Apesar de Felipe ser o duque de Chartres, a cidade só aparece na história no título honorifico da personagem principal. A maior parte dela se passa em Versailles, onde Luis XIV mantinha sua corte, no Palácio de Saint Cloud, residência do Duque de Orleans e no Palais Royal, que era a casa da família Orleans na cidade de Paris.

Chartres é uma pequena cidade nas imediações de Paris e é uma das alternativas de caminho para aqueles que saem da capital francesa para o Vale do Loire (a outra, mais usada, passa por Orleans). Com um centro histórico bem preservado, a cidade convida o turista para boas caminhadas em suas ruas de paralelepípedos e para aproveitar da paz e da tranquilidade que é garantia para quem a visita.

Sua principal atração é a catedral consagrada a Nossa Senhora, que foi construída no século XII, tendo sido reconstruída algumas vezes nos seus quase mil anos de existência. O edifício atual é de 1260, com importantes acréscimos realizados durante o século XVI.

 Além de representar o auge da arquitetura gótica francesa, a catedral é visitada anualmente por milhares de turistas interessados nos seus magníficos vitrais, pois na Notre Dame de Chartres está o mais importante conjunto de vitrais do século XIII que pode ser apreciado, em toda sua beleza, durante um passeio pela nave da igreja num fim de uma tarde de outono.

São tantas e tão variadas as histórias contadas por meio dos vitrais que justificam o título de “a Bíblia feita de pedra” com milhares de estátuas e de personagens bíblicos representados tanto nos vitrais como nas fachadas do templo. Ainda que não seja um enigma, não há como decifrar todas suas referências ao Livro Sagrado sem o apoio de um guia ou dos panfletos que ficam à disposição dos turistas.

Depois de ver a catedral o visitante pode voltar a passear pelas ruas do centro da cidade e aproveitar para fazer um lanche rápido antes de seguir sua viagem porque, apesar da beleza da catedral e da tranqüilidade do centro da cidade, só se passa por Chartres a caminho de outro lugar: como no caso do nosso romance, Felipe foi Duque de Chartres até virar Duque de Orleans, mas queria mesmo era governar a Espanha e a França.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Um Retrato e muitas Londres.


Na minha última visita a Londres me peguei pensando que se um dia fosse escrever para o Ler & Viver sobre a capital inglesa teria que fazê-lo em camadas porque a cidade é, de verdade, muitas cidades sobrepostas.

Existe a Londres da idade média, governada por Henrique VIII, suas muitas mulheres e depois por sua filha Elizabeth I. Esta é a Londres de Shakespeare, do Hyde Park aberto ao público, do grande incêndio de 1666, da Catedral de São Paulo e das surdas disputas de poder tanto na corte dos Tudors como dos Stuarts.

A Londres vitoriana, período em que a cidade era sede do mais poderoso império do mundo, o Império onde o sol nunca se põe. A Londres de Sherlock Holmes, do famoso Almirante Nelson e sua estátua na Trafalgar Square, das primeiras estradas de ferro, do surto de cólera que matou milhares e obrigou que fossem construídos o seu sistema de esgotamento sanitário. Apesar de tudo, era a a cidade global que hospedou do filósofo alemão Karl Marx a futura rainha Maria II, de Portugal.

Ou, a moderna Londres, que sobreviveu aos bombardeios alemães na Segunda Guerra, que há 60 anos é governada por outra Elizabeth, que viu nascer o movimento Punk e se transformou em um dos maiores centros culturais do planeta, com museus, teatros, livrarias e suas bandas de rock.

Tinha pensado que isto significaria a possibilidade de muitos livros e muitos textos até que dia desses, passando na livraria do Aeroporto Pinto Martins, em mais uma viagem para Brasília, me deparei com o livro O Retrato – Um romance de obsessão, escrito pelo americano Charlie Lovett, que me pareceu interessante.

Gostei da capa, simpatizei com o enredo e quando o vendedor disse que o livro estava por apenas R$ 36,00, não resisti e comprei-o, mesmo estando com outro na mochila.

O romance sobre obsessão de Lovett não é tanto sobre obsessão e mais sobre paixões. Essencialmente, trata das paixões do viúvo Peter Byerly por sua falecida esposa Amanda e por livros antigos e raros.

O livro começa em 1995 quando Byerly, depois de longos meses de luto e reclusão resolve retomar sua profissão de comerciante de livros raros e ao folhear um desses livros vê cair uma pequena aquarela pintada no século XIX com o retrato de uma mulher. A aquarela retratava sua Amanda ou de alguém muito parecido com ela, que teria vivido mais de 100 anos antes deles dois terem se encontrado.

Impressionado com a pintura e querendo entender como sua esposa poderia ter sido pintada anos antes,  Byerly começa uma investigação para descobrir quem seria A.I, o autor da aquarela. Neste processo acaba se deparando com um livro do final do século XVI que poderia ser a prova definitiva de que Shakespeare foi, de fato, o autor das famosas peças teatrais que converteram o bardo de Stratsford upon Avon no maior escritor da língua inglesa.

Para contar a história, cheia de mistérios e algum suspense, Lovett narra três histórias paralelas que, ao seu modo, retratam as diferentes Londres, coincidentemente nas épocas que eu havia pensado em contar a partir de diferentes livros. 

A primeira história se passa nos últimos anos do Século XX e narra a paixão de Byerly por sua esposa Amanda: como se conheceram, como se amaram e como a súbita morte da jovem esposa levou o principal personagem do romance ao estado de luto e sofrimento que o encontramos no começo da história.

A outra história é a do livro raro que se constituirá no objeto da disputa do desejo de Peter de entrar para a história da literatura como o homem que encontrou o “santo Graal” da literatura inglesa e de outros que esperam ganhar fortunas com a venda da rara publicação e que estariam dispostos a fazer qualquer coisa para tanto, até matar nosso personagem principal.

Essa história começa em pleno século XVI quando um antigo negociador de livros e documentos raros recebe no leito de morte de seu amigo Robert Greene a primeira edição de seu último livro e o oferece a Shakespeare que o utiliza como inspiração para sua peça Conto de Inverno. Daí em diante, acompanhamos a saga do tal livro, que vai passando de mão em mão, até desaparecer para ressurgir 150 anos depois para surpresa de nosso Peter Byerly.

A terceira história é a da aquarela da sósia da amada Amanda, pintada por autor desconhecido no Século XIX e que é também a história do romance proibido entre um nobre casado e uma jovem americana, que estava de passagem por Londres, durante aqueles anos em que a Rainha Vitória dominava o mundo conhecido, e encontra o que seria o amor de sua vida.

Como disse, o romance não é uma obsessão, mas é bom o suficiente para você não querer largar o livro e querer rapidamente chegar ao final. É um livro que nos leva a passear pela Londres do Século XVI, com os pés no Século XX e olhos nas belezas do período vitoriano.

É a sensação que se tem quando ao desembarcar do passeio na London Eye, a enorme e moderna roda gigante às margens do Tâmisa você se depara com o público entrando do novo Shakespeare Globe Theater, uma réplica do teatro onde foram apresentadas as peças Hamlet e Rei Lear e que foi permanentemente encerrado em 1642.

Ou a delicia que é caminhar pelo Kensington Gardens, o parque público que nasceu dos jardins do Palácio de Kensington que foi a morada da futura Rainha Vitória durante toda a sua infância e fazer uma parada para aproveitar o pequeno jardim em homenagem à falecida Princesa Di.

A Londres do hoje nos oferece a agitação moderna do Oxford Circus, uma das áreas mais movimentadas do West End londrino e um dos mais belos exemplos da arquitetura de Jonh Nash, um dos principais arquitetos ingleses do início do Século XIX, que entre outras obras está o igualmente famoso Palácio de Buckinham, para onde Vitória se mudou depois da morte dos tios e que se tornou rainha da Inglaterra.

O livro de Lovett nos leva a passear por muitas das atrações da cidade na perspectiva de um homem que amava a arte, a literatura e a cultura, em lugar dos grandes agitos que a capital inglesa tem para oferecer aos seus visitantes. Assim, seus conhecidos, amigos e suas visitas obrigatoriamente nos levam aos museus da cidade, às operas, livrarias e teatros. É outra forma de ver a cidade, não apenas em termos de seus períodos históricos, mas como uma cidade que acumula séculos de riquezas, erudição e cultura.

 Ao fim, esteja você admirando as luzes que enfeitam a fachada da famosa loja da Harrods numa caminhada depois de visitar o Museu Victoria and Albert, tirando fotos do Big Ben sentado na amurada da Ponte Westminster ou indo para uma caminhada no Hyde Park depois de comer fish’n’chips em um dos muitos pubs da cidade, Londres provoca paixões quase obsessivas, qualquer que seja a lente que se use para fotografá-la.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Istambul: passagem, ponte ou centro de mundos?


 

Antes de Istambul, Constantinopla faz parte do imaginário de qualquer um que goste, mesmo um pouquinho, de história. Quem não estudou que a queda de Constantinopla em 1453 esteve na origem das ousadas viagens dos navegantes ibéricos que, ao procurar o caminho alternativo para as índias, terminaram chegando às praias americanas e brasileiras?

Depois ficávamos sabendo que a cidade foi capital dos impérios Romano do Oriente e do Império Bizantino (chamava-se Bizâncio) e que anos depois da conquista pelos otomanos passou a se chamar Istambul, mas que nem por isso perdeu sua importância geopolítica pois era ali, no Bósforo que o Ocidente e o Oriente se aproximavam e, depois, com as construções de pontes, que Ásia e Europa se uniam ou se separavam.

Foi em Istambul, ponto de encontro de culturas milenares, que Joseph Kanon – autor americano que ficou mais conhecido quando seu livro O Bom Alemão virou filme – resolveu ambientar o seu Passagem de Istambul.

O romance, que se passa logo no final da Segunda Grande Guerra, conta a estória de um empresário americano do setor de tabaco que durante o conflito é cooptado pelos serviços de espionagem americanos para trabalhar transportando documentos confidenciais e fazendo pequenos serviços “off the record” para a embaixada norte-americana e, com o inicio das hostilidades entre a União Soviética e os EUA, continua ajudando seus compatriotas em outros pequenos serviços de natureza similar.

Leon é seu nome e sua mulher, Anna, é uma judia alemã que já no início da estória está internada em uma clínica catatônica, após o traumático afundamento de um dos navios em que ela ajudava a contrabandear para a Palestina um grupo de judeus que procuravam uma vida nova no nascente estado de Israel.

As visitas a Anna na clinica servem para nos apresentar ao passado da personagem principal e explicar suas relações com Mihai, um judeu do Mossad que vai ajudar Leon a sair das várias situações complicadas em que ele se mete quando tenta ajudar seu país a tirar das mãos dos soviéticos um importante militar romeno, que se torna objeto da cobiça dos vários serviços secretos que atuam na cidade turca.

As desventuras de Leon na tentativa de cumprir a missão que lhe foi confiada envolvem assassinatos misteriosos, disputas de competência entre a polícia política do governo turco e a polícia turca, encontros furtivos em festas suntuosas patrocinadas por personagens saídas dos períodos que antecederam a ascensão de Ataturk e permitem ao leitor um interessante passeio pela cidade de Istambul, tanto na sua parte antiga, como na então parte moderna no lado ocidental, com direito a rápidas incursões pelos antigos bairros do lado asiático da cidade.

É claro que a cidade de Istambul em meados dos anos quarenta não se compara com a megalópole em ela que se transformou nas últimas décadas, com mais de 14 milhões de habitantes, largas avenidas expressas, aeroportos, pontes e shopping centers. Mas a parte que o turista e o visitante mais frequentemente busca já estava ali desde então: a Hagia Sofia, a Mesquita Azul, a Mesquita Suleymaniye, a ponte Gálata e a Praça Taksin, que naquela época já era o Times Square da região, com neons e ruas movimentadas.

Como no período logo depois da guerra ter gasolina para os carros era um luxo para poucos, nossas personagens andam muito de bonde ou a pé, o que permite que o autor apresente-nos as ruas, bairros, parques, mercados e outros pontos de interesse da cidade. Apresenta também como esse ponto de encontro de muitos povos e muitas culturas permite a formação de uma população que nem é oriental, nem ocidental. Que é conservadora, mas que convive com a diversidade. Que sem perder as suas raízes e tradições, se esforça para acompanhar os ditames da modernidade ocidental.

A Istambul de hoje ainda tem muito disto. Convivem, lado a lado, a milenar história da cidade que foi o centro de mundos e impérios e a cidade que é, provavelmente, a mais cosmopolita daquela região. Duas cidades que ora parecem convergir ora confrontar: como nos restaurantes onde os garçons que nos servem os bons vinhos produzidos na região, não tomam bebida alcoólica por conta de sua religião; ou, onde o turismo é bem vindo e importante, mas as preferências dos turistas nem sempre são bem compreendidas.

Mas não cabe se intimidar. Mesmo sem falar turco e com poucos moradores da cidade que falam inglês ou outra língua mais frequente para os viajadores ocidentais, os de Istambul não medem esforços para tentar nos entender e se fazer entender. Em um dia de sol os prédios monumentais da cidade histórica, as já mencionadas mesquitas, os jardins e o palácio Topkapi e a impressioante Hagia Sofia (igreja, depois mesquita e agora museu) são de tirar o fôlego.
 
A moderna esplanada entre o museu e a Mesquita Azul é um lugar aprazível onde vale a pena sentar para apreciar a beleza do sol refletindo as suas cores e observar as milhares de pessoas que por ali passeiam, conversam e fotografam. 

A monumental cisterna da cidade, construída durante o período bizantino para garantir sua capacidade de resistir a longos cercos de inimigos, é outra atração imperdível. Deixe se impressionar pelas suas dimensões, pela sua umidade penetrante e pelo belo jogo de luzes que a iluminação das mais de trezentas colunas proporciona ao visitante. Prómimo à entrada, não deixe de notar um marco, do Império Romano, que indicava o “quilômetro zero” de todas as estradas de uma época em que a cidade era o centro do mundo.

Vá aos mercados. O Grande Bazar é uma parafernália de produtos das mais variadas qualidades e preços – um desespero para aqueles que não são muito fãs de shoppings e compras – e passeie pelo o mercado das especiarias, com uma oferta multicolorida de alimentos e odores. Vale a pena ir por curiosidade, mas vale a pena mesmo para quem sabe e gosta de negociar, pois Istambul é um ótimo lugar para compras, especialmente de roupas e tecidos.

Não deixe de tomar os deliciosos sucos de romã que são preparados no meio da rua, bem ali na sua frente. Se não quiser arriscar, a mistura do suco de romã com laranja é também muito gostosa e refrescante. Tem um carrinho vendendo-os dentro do Palácio Topkapi, bem do lado da entrada do harém.

Para fechar sua passagem por Istambul, atravesse o chifre de ouro de barco, para ter uma bela vista das ruinas das muralhas e torres que protegiam a cidade em eras passadas e vá visitar o Palácio Dolmabahçe.

Construído no século XIX pelo Sultão Abdulmacid I, o Dolmabahçe rivaliza com os monumentais palácios de franças e europas, com suas belas escadarias, janelas olhando para o estuário e mobiliário sofisticado. Ademais, o fato de oferecer aos visitantes acessos por terra e por água, prática adotada por quase todas as casas dos ricos e famosos de então, faz do palácio um dos mais belos que já visitei.

Assim como a cidade, o romance de Kanon prende o leitor desde o início e faz com que ele queira se envolver nas investigações e viver com as personagens. Sua estória traz os elementos da Istambul que gostamos visitar, embora o fato de usar nomes de ruas e bairros adotados em meados do século passado dificulte, no primeiro momento, que nos localizemos na cidade que durante anos foi centro do mundo para milhões e que ainda hoje serve de ponte para europeus, asiáticos e todos que queiram experimentar do seu caldeirão cultural.

Vale a passagem, vale a viagem!

domingo, 22 de junho de 2014

O Inferno de Lucca.



Eu tinha prometido a mim mesmo que não escreveria sobre o último livro do Dan Brown, Inferno. Me encontrei com ele nas livrarias de Londres, logo quando foi lançado, ao custo de £15, na promoção!
Por conta das reclamações da Emília, que também queria ler, acabei não comprando a versão em inglês e fui ler uma versão emprestada, em português mesmo.
O livro mais recente do autor tem como personagem central o mesmo professor Langdon, aquele que estuda símbolos e que é um ás em decifrar códigos misteriosos com base em associações capazes de fazer inveja ao famoso Sherlock Holmes.

Desta vez, nosso destemido professor acorda em um hospital em Florença na Itália e se vê envolvido em uma perseguição inexplicável e uma investigação que envolve um cientista maluco que desenvolveu uma arma biológica – um vírus ou algo parecido – com o intuito de construir um mundo melhor diminuindo o número de pessoas que existem sobre a face da terra.
O Inferno que dá título ao livro e que servirá de organizador de todo o mistério que Langdon se empenhará em decifrar, é o Inferno de Dante e a referencia simbólica que é ponto de partida para as investigações do nosso simbologista é um famoso quadro de Sandro Botticelli, que retrata o inferno dantesco, chamado Mapa do Inferno.

O livro segue a receita Brown de capítulos curtos, referências reais, viagens globe-trotters, surpresas e reviravoltas. Mas está longe, em termos de qualidade, do Código da Vinci ou mesmo do Anjos e Demónios, já referido neste blog.
A estória é fraca, demora a prender a atenção do leitor- diria que se o leitor não tiver uma dose de persistência, é grande a chance de não ir até o fim – e o enredo, propriamente dito, é sofrível. Em síntese, talvez não chegue a ser um inferno, mas o livro não saiu do purgatório!

Por conta desta crítica achei difícil relacioná-lo com qualquer das viagens que tinha feito, até porque enquanto o lia a única cidade em que a história ocorre – na verdade menciona – que seria comparável às sensações que ele me proporcionava seria Lucca, na Toscana.
Na estória de Brown, para despistar seus perseguidores, Langdon dá a entender que vai decolar do aeroporto de Lucca, mas acaba saindo de Veneza ganhando preciosos minutos na sua fuga até que seus perseguidores chegam à cidade e descobrem que foram enganados. Ou seja, no livro, ninguém vai lá, a não ser enganado.

Passamos por Lucca depois de termos visitado o maravilhoso complexo do batistério, igreja e campanário de Pisa, ali mesmo onde esta a mais famosa torre da Itália.
Pisa se mostrou uma cidade muito agradável e como o dia estava maravilhoso, com um céu sem nenhuma nuvem e uma luminosidade que conseguia extrair a máxima beleza de prédios e lugares, as ruas, as praças e as atrações turísticas estavam cheias de pessoas que traziam ainda mais beleza e animação para o local.

A pequena estrada pelas montanhas que liga as cidades de Pisa e Lucca é, ela mesma, um ótimo passeio, com curvas sinuosas e paisagens rurais de tirar o fôlego. Tudo isto somado às maravilhas descritas pelo guia de turismo sobre a pequena cidade para onde íamos, era certeza de um excelente passeio e ótima opção para aproveitar a maior parte do dia.
Chegando em Lucca, que decepção!

A cidade tem uma muralha antiquíssima que a circunda, onde os moradores fazem seu cooper matinal e meu pai conseguiu a proeza de subir de carro ao se perder na entrada da cidade. Também tem as tradicionais vielas de um centro medieval, tem igrejas, praças e referências a grandes artistas como acontece em quase todas as cidades da Itália. Mas é só isso!!!
Como o livro de Dan Brown, que possui os mesmos elementos dos sucessos anteriores e não consegue repetir tal façanha, a cidade tem tudo o que o receituário do que uma cidadezinha italiana precisa para ser atraente e interessante para o visitante, mas não tem charme.

As igrejas e praças estavam mal cuidadas, a impressionante San Michele in Foro estava passando por reformas e quase nada dela podia ser apreciado, os bares e restaurantes eram bem fraquinhos, enfim, faltava vida e animação às vielas e praças.
Num esforço de tentar encontrar alguma compensação para o fato de não termos aproveitado mais do maravilhoso clima que encontráramos em Pisa, procuramos um lugar interessante para almoçar no Anfiteatro Romano, onde deveríamos encontrar lojinhas, bares e restaurantes.

Novamente, decepção! O local estava vazio, com quase nenhum movimento e o serviço do restaurante que escolhemos, o único que tinha algum público, era sofrível.
Voltamos para Padova, nossa cidade base nesta temporada italiana com o sentimento – quase arrependimento – de que deveríamos ter apenas passado pela cidade e deixado Pisa para a segunda etapa do dia, quando certamente teríamos melhor proveito.

Mas, assim como não me arrependo de ter ido a Lucca, não me arrependo de ter lido o Inferno de Dan Brown, mas certamente só os recomendaria com reservas.