sábado, 18 de janeiro de 2014

Pontes e vidas...



Sempre olhei com desconfiança para esta súbita aparição de livros de autores árabes (afegãos, iranianos, turcos, iraquianos...) nas prateleiras das livrarias e nos guias dos mais vendidos aqui no Brasil.

Lá no fundo presumi que a introdução desses autores e desta literatura para os consumidores brasileiros seria muito mais consequência do esforço dos invasores ocidentais de mostrar como sua ação naqueles países havia provocado um renascimento da sua literatura e, consequentemente, como a ocupação era um enorme beneficio para seus povos.

Assim desprezei-os nas muitas oportunidades que, passando em uma ou outra livraria, dava de cara com uma dessas estórias romanceadas do estilo de vida muçulmano. Mas enfim ganhei um livro de Khaled Hosseini e, como a cavalo dado não se olham os dentes, enfiei-o em minha mochila e depois de ler tudo o que tinha, acabei encarando O Silêncio das Montanhas.
Devo começar confessando que o livro não é tão ruim quanto eu presumi que fosse – por puro preconceito – mas também não achei essa coisa toda.

O romance começa no Afeganistão, num vilarejo perdido chamado Shadbagh, passa boa parte do tempo em Cabul, mas também viaja para a França, para a Grécia e para os Estados Unidos, narrando um entrecruzar de histórias pessoais, num vai e vem, que se inicia lá pelos anos 1950 e termina em 2012.
Tendo como ponto de partida a separação de dois irmãos ainda pequenos nos confins do Afeganistão, o autor narra trajetórias de vidas paralelas e sobrepostas que, por caminhos tortos e sofridos, vão se encontrando e se perdendo, física e sentimentalmente.

Além dos irmãos e da sua vida na perdida Shadbagh, que dão inicio à narrativa, o autor nos apresenta um motorista de uma rica família de Cabul que, por coincidência é tio das crianças, o casal para quem ele trabalha e seus dramas, os vizinhos, um senhor da guerra do período posterior à expulsão do Talibã que constrói a Nova Shadbagh, um médico grego que vai trabalhar na ajuda humanitária em Cabul depois da ocupação americana e os filhos e herdeiros de um Afeganistão que quer se reencontrar.

O livro caminha num ritmo tranquilo, não monótono, já que a narrativa muda de ritmo para cada personagem que assume esse papel e são muitos os que o fazem, mas não chega a ser excitante.
As histórias são doídas, pessoas que vivem vidas sofridas, mesmo aquelas que não passaram pela provação das guerras ou dos talibãs, sofrem com as escolhas que fizeram, escolhas essas que as distanciaram de seus países, de seus ideais ou as afastaram das pessoas amadas.

São como histórias de pontes que se partiram ou do esforço, nem sempre efetivo, de reconstruí-las. Vidas, relacionamentos e pontes. Vidas que se separam, relacionamentos que se distanciam, promessas que não se cumprem e as tentativas, quase sempre vãs, de recompô-las.
Estava quase chegando ao fim do livro, confesso que com algum esforço, quando consegui ter essa percepção do todo. E devo isto, fundamentalmente, a uma passagem do último capitulo em que duas personagens, tia e sobrinha, se encontram na França, mas precisamente em Avignon, conversando diante da ponte da cidade e combinando uma visita à Pont du Guard, na vizinha Nimes.

Estive em Avignon numa viagem de carnaval, durante um mês de fevereiro que não fazia tanto frio assim. Partindo de carro de Barcelona chegamos à cidade de noite e resolvemos procurar um restaurante para jantar, antes de dormir. A temperatura até que estava suportável mas a noite estava chuvosa e resolvemos entrar no primeiro restaurante que encontramos na Place de L´Horloge e, juro, não trago qualquer lembrança dele.

Não fosse o fato de que quando resolvemos voltar para o hotel, algum espertinho tivesse estacionado o carro bloqueando a saída do nosso, esta noite já teria sido perdida nas lembranças de viagens. Depois de muito xingar o infeliz e de algumas manobras ousadas e bem sucedidas, conseguimos escapar do estacionamento passando por cima de calçadas e passeios. Não foi um bom início, diga-se de passagem, mas tínhamos certeza que melhoraria.

O dia seguinte amanheceu também nublado e com o vento Mistral cruzando as acanhadas ruelas da cidade intramuros, congelando nossas orelhas, narizes, nos obrigando a andar depressa e de cabeça baixa. Para escapar da intempérie, decidimos começar logo o dia pelo Palácio dos Papas.
Avignon foi a residência dos Papas de 1309 até 1377, tendo abrigado 7 Papas neste período. Mas ela entrou para a história quando o Papa Gregório XI tentou reunificar o papado e procurou recuperar o trono de São Pedro em Roma provocando o Grande Cisma do Ocidente. Por conta desta crise, entre 1377 e 1417 a Igreja Católica teve que conviver com dois ou mais papas tentando comandá-la ao mesmo tempo.

Neste período a cidade serviu de residência para os Antipapas Clemente VII e Bento XIII que por ali ficou até 1394, quando teve que fugir para o Reino de Aragão, deixando para trás o imponente edifício em estilo gótico, que hoje abriga um museu bem interessante.
Quando saímos do museu, Avignon premiou nossa persistência com um dia de sol maravilhoso que convidava para uma caminhada. Parecia que havíamos entrado no museu em uma cidade e saído em outra. Havia vida e movimento. Havia cor e alegria, a cidade parecia ter despertado das brumas e mostrava seu encanto aos turistas e habitantes.

Ainda na parte final da visita ao Palácio, do alto de alguma torre de vigilância, já podíamos ver, placidamente deitada sobre as águas escuras do Ródano a ponte da cidade, citada na cantiga infantil Sur la pont d`Avignon.
Incompleta, uma vez que os anos de intempéries e as nem sempre tranquilas águas do Ródano, reduziram-na ao meio da travessia (apenas 4 dos 22 arcos originais permanecem), a ponte continua um belo monumento e inspiração para muitos casais enomorados.

Descemos as escadarias do museu para ver de perto a famosa ponte, que além de bem bonita também tem um pequeno museu que conta sua história, desde sua primeira construção por volta do século X.
No dia seguinte, igualmente ensolarado, seguimos para a segunda parada na região, a cidade de Nimes. Situada na fronteira entre Provence e o Languedoc, Nimes é uma cidadezinha simpática, com menos de 150 mil habitantes, mas bem organizada e arborizada. Seu ponto alto, do ponto de vista turístico, é a famosa Arena de Nimes, um anfiteatro romano do período de Adriano que está totalmente remodelado.

Mas no caminho havia outra ponte a ser visitada: Pont du Gard.
Situada entre Avignon e Nimes, a tal ponte é um trecho do magnifico aqueduto romano, construído no século I a.C. para permitir a travessia da água sobre o Rio Gard com quase 300 metros de extensão a uma altura de 50 metros.

Ela é espetacular!
Toda a área do Rio Gard nas imediações da ponte foi transformada em um parque, com direito a trilhas para caminhadas até a sua parte mais alta, banheiros, lojinhas de souvenires e um pequeno café. Além das inúmeras fotos, obrigatórias em função da beleza do lugar, fizemos todas as trilhas, visitamos o museu e paramos para aproveitar um vinho francês e apreciar a deliciosa vista da ponte, até que o clima começou a virar e decidimos seguir para o nosso destino original.

No livro de Hosseini a Pont du Guard é o lugar onde, depois de uma vida de desencontros, a família dos dois irmãos de pequena Shadbagh marcou para se reunir. O velho aqueduto parece ideal para representar mais uma ponte que tendo servido para ligar cidades e pessoas, como acontece com a ponte de Saint-Bezenet em Avignon ou com as muitas histórias de O Silêncio da Montanha, tenta mas não consegue reuni-las mais.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Amsterdã liberal, não libertina.




Cafés onde se pode fumar maconha sem qualquer preocupação. Ruas cheias de janelas com mulheres que oferecem serviços sexuais para os transeuntes. Tolerância para movimentos revolucionários e libertários de todos os matizes.

No imaginário coletivo a cidade de Amsterdã apresenta-se como uma cidade de total liberdade ou quase libertinagem Mas uma caminhada pelas ruas e pelos canais da bela capital da Holanda, ou melhor, dos Países Baixos, rapidamente nos afasta desta imagem preconcebida.

Claro que tantos os cafés como as janelas do Red Light District estão lá, disponíveis para os que procuram esses prazeres mundanos, mas quem toma um trem, pega um dos barcos que fazem transporte público nos canais interligados ou passeia pela Rembrandtplein, não percebe este clima de libertinagem, ao contrário!

A população e a cidade são sóbrias, tranquilas e respeitadoras dos costumes e das individualidades. Esse aparente paradoxo entre uma sociedade com elevado grau de tolerância para essas liberdades e uma população trabalhadora e pacata podem ser explicadas, entre outras coisas, por um costume tão próprio dos moradores de Amsterdã que tem uma palavra própria em holandês o “gedogen” que pode ser traduzido como algo que é tecnicamente ilegal, mas oficialmente tolerado.

Pelo menos essa é parte da explicação que Russell Shorto, um escritor americano radicado em Amsterdã, apresenta na introdução do seu livro Amsterdam, A history of the World´s Most Liberal City, onde ele conta a história da cidade a partir da formação e desenvolvimento do pensamento liberal na Europa e no mundo. Ou seja, a hipótese central do autor é a de que Amsterdã – por conta de uma série de características e condições históricas particulares – pode ser considerada o berço do pensamento liberal no mundo.

Inicialmente, é claro, o autor precisa deixar claro de que liberalismo ele está falando, já que ser liberal é um conceito cuja compreensão tem variado ao longo do tempo e nas diferentes regiões do mundo. Para Shorto o liberalismo que nasce na Amsterdã do século XVII é aquele baseado na valorização do indivíduo e no respeito ao direito dele exercer livremente suas escolhas particulares, sejam elas de ordem política, econômica, cultural ou religiosa.

No seu esforço em descrever a abrangência do liberalismo de Amsterdã o autor aponta as seguintes contribuições para a cultura ocidental e para “uma ideologia centrada em crenças quanto às liberdades individuais”: a criação do primeiro mercado de ações; uma sociedade focada nas preocupações e confortos dos indivíduos e que é governada por indivíduos agindo de forma conjunta e não baixo o tacão de uma força externa; a tolerância como princípio, seja ela religiosa, étnica ou de qualquer outra natureza; a arte como experimento da individualidade do ser humano e da preocupação em nos entendermos; o conceito de lar – a casa da família – como um espaço privado e aconchegante, em justaposição à corte e as casas do período medieval em que várias famílias eram obrigadas e viver conjuntamente e não eram claros os limites entre o privado e o público.

Apesar de buscar explicações para as condições particulares da história da formação da cidade de Amsterdã que permitiram que ela ocupasse posição de relevância no liberalismo mundial, o autor centra seu argumento na “era de ouro” dos Países Baixos. Assim, parcela maior do livro e da história da cidade que ele conta está dedicada aos anos da influência da cidade sobre a economia mundial durante os 1600´s, desde quando se iniciam os movimentos de independência do Reino de Espanha – na verdade do Sacro Império Romano – passando pela criação da Companhia das Índias Ocidentais (VOC), até a criação da república batava, sob o comando de De Witt.

Mas antes de chegar a este ponto da narrativa o autor descreve como o processo de criar um país a partir de uma área permanentemente inundada com uso de diques, canais e moinhos de vento moldou não só a Holanda que hoje conhecemos, mas este caráter que concilia a necessidade de trabalhar coletivamente, com a importância de respeitar as individualidades.

Este processo é tão presente na história da cidade que seu nome Amsterdã deriva do dique que foi construído como barragem do Rio Amstel (Amstel + Dam) e que hoje é o coração e a praça central da cidade.

O livro também conta uma surpreendente novidade: o primeiro ciclo de expansão da cidade – por volta dos 1300 – se deu devido a uma hóstia milagrosa que transformou Amsterdã num centro de peregrinação da cristandade, até o Sacro Imperador Maximiniano I fez peregrinação à cidade para pedir pela cura de seu filho, graça que acabou por receber, e que levou a construção de um sem número de mosteiros, igrejas e conventos na cidade.

Apesar dessa origem devocional, a cidade, ressaltando seu caráter liberal, aderiu às teses de Erasmo de Roterdã, Martinho Lutero e depois Calvino para se tornar um dos principais centros protestantes do norte da Europa. Não obstante o esforço do Imperador Carlos V e seu filho Felipe II em fazer valer o catolicismo romano e até mesmo de levar a Santa Inquisição para os Países Baixos, a repressão aos protestantes em Amsterdã foi, por assim dizer, para Inglês ver!

Era o famoso “gedogen” em ação. Apesar do protestantismo ser ilegal, desde que a pessoa não abusasse – basicamente mantivessem os cultos religiosos em lugares discretos – o governo olhava para o outro lado e não se metia na vida das pessoas. O problema é que chegou um momento que os tais encontros secretos – que se realizavam fora dos muros da cidade – passaram a reunir, discretamente (!), mais de cinco mil pessoas!!!

Assim, quando o Duque de Alba chegou aos Países Baixos e se instalou em Amsterdã para fazer valer os ditames do Sacro Imperador Romano, invadindo e ocupando as cidades holandesas e perseguindo todos os hereges após a instalação do Santo Ofício, os holandeses, sob o comando do Príncipe de Orange, se rebelaram e estourou a guerra dos 80 anos que culminou com a independência dos Países Baixos e com a primazia de Amsterdã como a capital da federação recém nascida.

É nesta Amsterdã liberal que as ideias de Erasmo de Roterdã vão ser publicadas, debatidas e influenciarão o movimento protestante à Igreja Católica de então. É também ali que René Descarte vai buscar abrigo, apoio e alguém com coragem para editar e publicar o seu revolucionário Discurso sobre o Método (que depois entrará no Index de Livros Proibidos pelo Vaticano) e onde o filósofo inglês John Locke vai buscar asilo, pois era perseguido na Inglaterra. Segundo o autor, na sua temporada pela cidade, incentivado pelos intelectuais liberais da época, ele faz algumas de suas primeiras publicações – sob a influência do pensamento local escreve A Letter Concerning Toleration – para depois se transformar no ideólogo do liberalismo.

Amsterdã é também o destino de milhares de judeus e cristãos novos que fogem da península Ibérica durante os anos mais duros da repressão Católica. Na cidade dos canais – em pleno desenvolvimento econômico e urbano – eles encontram o ambiente de tolerância necessário para se estabelecerem, resgatarem suas práticas religiosas e desenvolver sua aptidão para os negócios.

Entre os muitos filhos de judeus portugueses nascidos em Amsterdã é Bento De Espinoza – mais conhecido pelo seu nome hebreu Baruch Spinoza – que vai encarnar, sempre na opinião de Shorto, o espírito liberal da cidade e se tornar personagem central no seu argumento de como, desde Amsterdã do Século XVII, os ventos do liberalismo sopram e transformam todo o mundo ocidental.

Liberal certamente Amsterdã é. Ainda nos dias presentes a cidade é palco das mais variadas manifestações dos mais variados grupos, setores e propósitos. A famosa foto de John Lennon e Yoko Ono deitados numa cama de hotel (Bed Peace) foi tirada na cidade dos canais. Mas mais que liberal, Amsterdã é uma cidade para o individuo.

Interessante – isto o autor também destaca – como uma cidade que foi rica como ela foi durante quase um século é uma cidade sem prédios monumentais ou obras épicas.

O turista que passeia pelas suas ruas e canais não irá se deparar com nenhum castelo querendo competir com Versalhes ou uma igreja querendo rivalizar com São Pedro. Não há bulevares monumentais ou arcos triunfantes. Mesmo a Dam Square – a praça central da cidade – é bem normalzinha, por assim dizer.

A beleza da cidade está na sua solução urbanística projetada há mais de 300 anos e que até hoje mantem-se funcional. Está também no delicioso contraste entre os canais e as casinhas multicoloridas, de mesmo estilo, cada uma com seu barco à porta ou com flores enfeitando os parapeitos das janelas.

A cidade é plana, totalmente plana, ótima para uma caminhada ou para o passeio de bicicleta, o que permite que os turistas possam transitar por todo o centro sem ter que recorrer a coletivos, taxis ou outras soluções mais onerosas. Amsterdã é um convite para um passeio.

Como não há monumentos para buscar, cada rua, cada nova esquina, cada ponte sobre um canal pode revelar, para o turista, na rua seguinte uma pequena praça, uma feirinha de fim de semana ou um lugar que você se sinta bem, estando com você mesmo.

É claro que muito ficou do período da era dourada do desenvolvimento holandês, em especial no que se refere à arte e principalmente em se tratando de pintura. É bom lembrar, entretanto, que muito da produção dos Países Baixos antes da independência vai ser encontrado em Madri.

Quem busca Rubens, Van Dyck e similares fará melhor indo ao Museu do Prado, mas se você quer Rembrandt, Vermeer e seus contemporâneos, o  Rijksmuseum tem para todos os gostos. Não muito distante, ainda na Museumplein, está o Museu Van Gogh com obras deste espetacular pintor holandês. Quando estive por lá havia uma exposição temporária sobre a noite em Van Gogh com obras de tirar o fôlego.

A cidade tem ainda um sem número de museus para todos os gostos: do sexo, da Heineken, Madame Tussaud´s e o da Casa da Anne Franck – esse eu até me dispus a ir, mas quando cheguei, a fila para entrar era quilométrica. Assim, resolvi seguir a máxima da minha avó Ilay e “dar por visto”.

A visita ficou reservada para uma próxima ida à capital dos Países Baixos, desde que não esteja um dia de sol tão maravilhoso quanto aquele. Porque se a fila estiver igualmente grande, vou preferir seguir caminhando pela cidade, vendo o vai e vem das bicicletas, o movimento das famílias com suas crianças brincando nas praças ou dos jovens namorando no Vondelpark, comendo uma batata frita com maionese comprada em um dos muitos quiosques espalhados pelas ruas e apreciando o delicioso clima da cidade mais liberal do mundo.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Mistério em Colônia!


Aqui estou eu mais uma vez às voltas com Umberto Eco no Aeroporto da Portela. Desta vez não por conta de um livro do autor italiano, mas porque ao procurar um livro para minha última viagem me deparei com um volume que se anunciava o melhor thriller medieval desde O Nome da Rosa!!!

Fã declarado do romance medieval que junta mistério, religião, morte e livros, produzido há cerca de 30 anos, não me contive e comprei o tal deixando outros que pareciam igualmente interessantes para uma próxima oportunidade.

A Oficina dos Livros Proibidos, de Eduardo Roca, é um romance que se passa na Alemanha medieval, mais precisamente na cidade de Colônia e, assim como aquele escrito por Eco, também trata de livros, igreja, mortes e mistérios. Mas devo confessar que a propaganda é um tanto enganosa.

Apesar do bom texto, especialmente na sua ambientação da Colônia no medievo, o romance é longo, com grande número de personagens, mais ou menos importantes, que vão sendo apresentadas à trama paulatinamente o que, para o meu gosto, faz com que o suspense e o mistério demorem demais a aparecer.

Personagem central da história, Lorentz é um ourives apaixonado por livros e por literatura que, por conta de ser canhoto, nunca conseguiu aquilo que realmente sonhava: ser copista e trabalhar em uma oficina especializada em copiar livros. Essa frustração acaba transformando-o, de acordo com o autor, em um precursor de Gutemberg.

A estória se desenrola em torno da vida de Lorentz e sua filha Erika, que em sua pequena casa em um bairro pobre de Colônia, começam a trabalhar na invenção de uma máquina capaz de copiar livros. Lorentz vai, passo a passo, desde a concepção dos tipos, passando pelo desenvolvimento dos tipos móveis, até as soluções que ele encontra para a prensa, a tinta e o uso do papel, por método de tentativa e erro, descobrindo o invento que irá revolucionar a história do mundo cristão e fazer dos livros algo barato (!) e acessível.

Nesta trajetória somos apresentados ao Burgomestre de Colônia (equivalente ao prefeito de então), ao Arcebispo que é, ao mesmo tempo, Príncipe Eleitor do Sacro Império e grande potentado de toda a região, ao rico proprietário da maior oficina de livros da cidade e ao pequeno círculo dos eruditos que pretendem difundir conhecimento e que vão apoiar o ourives na sua invenção.

As coisas caminham bem para Lorentz e sua engenhoca até que uma encomenda anônima para a produção de 200 volumes dos Evangelhos em Alemão – e não em Latim – vai colocar a ele e seus amigos no centro de um turbilhão político e religioso.

É neste momento, quando bíblia traduzida cai nas mãos do Arcebispo e o Burgomestre começa uma violenta investigação para descobrir a sua origem, que o thriller, por assim dizer, toma conta da leitura. Mas para tanto, o leitor já teve que trilhar quase 75% da estória e os menos obstinados talvez já tenham se enfadado das ruas de Colônia e das aberturas de capítulos sempre com referências às condições climáticas da cidade.

Muito diferente da experiência de ler O Nome da Rosa que nos prende desde a primeira página e não nos deixa larga-lo antes de saber quem está por trás dos misteriosos assassinatos que acontecem no mosteiro onde a trama está ambientada. Daí a propaganda enganosa!

Ao contrário do livro de Eduardo Roca, a cidade de Colônia nos prende desde o primeiro momento. Não há como não se impressionar com a magnifica catedral, o Kolner Dom que, de forma altaneira, vigia o Reno desde suas imensas torres e sua gigantesca estrutura.

Assim que você desembarca do trem e sai para a Bahnhofsvorplatz ela está lá, imponente, inescrupulosamente te obrigando a olhar para os céus e se sentir pequeno diante de sua beleza e altivez. Ao subir os degraus que levam para o pátio da Catedral o visitante está no ponto de partida e de chegada de qualquer roteiro na cidade e ela e seu entorno merecem uma visita sem pressa.

A Kolner Dom levou mais de 600 anos para ser construída – tanto assim que na novela de Roca ela ainda está em obras – e é a maior catedral gótica da Europa, capaz de tirar o fôlego de qualquer visitante, seja pelo seu tamanho e imponência, seja pela beleza de suas peças, especialmente o relicário onde estariam os restos mortais dos Três Reis Magos.

Mas Colônia é muito mais que a Dom. 

Tive a sorte de me hospedar nesta cidade bem no inicio do verão por conta da minha participação na COP 17 de mudanças climáticas e depois voltei lá para mais uma visita no final do outono, já começando a fazer frio. Nas duas ocasiões aproveitei para passear pelas ruas apertadas da cidade medieval, almoçar nos restaurantes que ficam no Fischmarkt, bem de frente para o rio, onde, na época em que se passa o thriller ficavam as docas do movimentado porto fluvial da cidade.

O lugar continua movimentado e agora, além do porto, tem um delicioso calçadão por onde se pode gastar boas horas caminhando, apreciando a beleza dos prédios de época, tomando uma Kolsch (cerveja típica de Colônia) num dos bares ou afastando o calor com um sorvete. Ali se pode pegar um barco e fazer um passeio pelo Reno, como também é de lá que se toma o barco para a cidade vizinha de Dusseldorf.

Se preferir continuar em terra firme, a caminhada no sentido oposto ao da catedral te levará ao museu do chocolate, que não é esse balaio todo, mas para os apreciadores da iguaria asteca tem uma lojinha com grande sortimento de chocolates e outras tantas variedades de doces e guloseimas.

Na primeira vez que estive por lá dei a sorte de descobrir que no Heumarkt, uma praça central na cidade antiga, estava acontecendo um festival de vinhos da região. Digo que dei sorte porque só descobri o evento porque peguei o trem errado e tive que saltar na estação da praça para fazer uma baldeação e me vi cercado por toda aquela algazarra.

Como era verão, chegava à praça voltando de Bonn por volta das 19 horas, com dia claro e ficava perambulando por ali, experimentando todas as variedades de vinho, sempre acompanhado de um salsichão alemão, que assim como a bebida, também vem em muitas opções. Dediquei boa parte de minhas noites jantando naquela praça, observando a animação das pessoas que, saindo do trabalho, iam encontrar amigos, familiares ou, assim como eu, apenas ver movimento.

Ali por perto fica a Rathaus, o antigo prédio da prefeitura, o museu da água de Colônia (que como o nome indica foi inventada ali em 1709), além de várias cervejarias tradicionais, as Brauhaus, onde se pode apreciar um joelho de porco com mais uma cerveja, preferencialmente, uma produzida na casa.

Tomando novamente a direção da catedral, passa-se pelo variado comércio da parte central da cidade e, na esplanada da grande igreja, não se pode deixar de visitar o ótimo museu do período do Império Romano, o Romisch-Germanisches Museum.

Colônia era a principal cidade do Império Romano daquelas bandas e seu nome vem deste período. A cidade chamava-se então Colônia Agripina, em homenagem a sua filha mais ilustre, Agripina, que veio a ser a mãe do piromaníaco Imperador Nero. Durante seus anos de poder e glória Agripina protegeu e favoreceu sua terra natal e, consequentemente, são muitas as referências a ela na história da cidade e nas peças do museu.

Também ali perto, por trás da Catedral – passando ao largo do Museu Ludwig, de arte moderna, que fica imediatamente atrás do primeiro – se alcança uma das pontes da cidade, aquela por onde passam os trens que vão para a estação central. Além de ser uma travessia gostosa, dependendo do clima é claro, ela permite belas fotos do skyline da cidade. Para minha surpresa, é a ponte em toda a Europa que eu mais vi ter aqueles cadeados pendurados, representando os votos de casais enamorados de todo o mundo.

Do outro lado do rio, a cidade é mais moderna e mais ampla e por onde se distribuem boa parte dos mais de 1 milhão de moradores de Colônia. Em geral, os hotéis daquele lado são mais novos e também mais baratos. Nas duas vezes que estive por lá, fiquei daquele lado e apesar do bom sistema de transporte público, várias vezes preferi fazer a travessia a pé aproveitando ao máximo minha estada.


Depois, ao ler sobre a cidade e suas atrações, descobri que também para aqueles lados havia coisas a conhecer e lugares para se divertir, mas confesso, que assim como os livros sobre história me atraem nas prateleiras de livrarias, mesmo quando são thrillers não tão bons, as partes antigas das cidades europeias exercem uma atração tal que dificilmente consigo me aventurar pelos outros bairros.

domingo, 20 de outubro de 2013

Ouro, emboabas e as Geraes...


Semana passada seguia no meu voo regular de Fortaleza para Brasília quando duas passageiras que estavam a caminho de Belo Horizonte me pediram sugestões para sua programação nas Alterosas. Além das dicas de praxe – Palácio da Liberdade, Pampulha, Savassi e etc... – sugeri que aproveitassem o fim de semana para conhecer Ouro Preto e as cidades históricas da região.

A antiga Vila Rica, capital das Minas Gerais até 1897 quando Belo Horizonte assumiu este papel, é o mais belo complexo arquitetônico do ciclo do ouro do Brasil.
Suas igrejas esplendorosas, o maravilhoso casario que nos acompanha no interminável sobe e desce das ladeiras da cidade e o conjunto de prédios históricos são a principal evidência da prosperidade e da riqueza que aquela cidade, encravada no meio de lindas serras, viveu durante o século XVIII.

Mas chegar até aquele ponto não foi tarefa fácil nem missão para fracos. É isto que nos conta o interessante livro Minas do Ouro, de Frei Beto, um romance histórico que narra a saga da família Arienim paralelamente com a história das Minas e homenageia os três séculos de fundação de Ouro Preto, Mariana e Sabará, comemorados em 2011.

Antes da derrama e do martírio de Tiradentes, o heróis da família Arienim, muito tiveram que fazer para merecer seu lugar na estória em questão. Fulgêncio, primeiro membro da família a protagonizar a narrativa de Frei Beto é um português que, como muitos outros, vem dar na cidade de Salvador em busca da riqueza fácil e que, depois de muitas decepções e dissabores, decide deixar tudo para tentar a sorte na busca de metais preciosos nos interiores do país.
Depois de várias missões fracassadas seu filho, Prudêncio, troca Salvador por São Vicente vai dar na nascente cidade de São Paulo dos Campos de Piratininga, junto com seu filho único Olegário. Este herda do avô a vontade de desbravar os sertões e um mapa das serras das esmeraldas onde ele esperava encontrar sua fortuna.

Ao descrever a aventura de Olegário e sua família de embrenharem-se pelos sertões o autor nos apresenta os verdadeiros construtores do que viria a ser a principal fonte de riqueza do império português no século XVIII, os destemidos bandeirantes paulistanos.
Homens rudes, sem qualquer educação, forjados na preação dos indígenas que depois eram vendidos como escravos, muitos deles mais bugres que lusitanos, mais ameríndios que europeus, abriram ao custo de muitas perdas e muitos fracassos as trilhas que por volta de 1690 resultaram no achado, nas imediações do pico do Itacolomi, daquela primeira pedra preta que logo depois se descobriria ser ouro.

Ao longo da história da família Arienim aparecem personagens que frequentaram nossos bancos escolares, como Fernão Dias, Anhanguera e Manuel de Borba Gato. Este último personagem destacado porque na ficção de Frei Beto é para ele que Olegário e seu filho Vitorino vão trabalhar na organização das frentes de exploração dos metais preciosos na região.
Foram Fernão Dias e Borba Gato que com seu espirito aventureiro, sua veia empreendedora e depois de se livrar do representante da coroa para as Minas Gerais, o Governador das Esmeraldas Don Rodrigo de Castel Branco, se perderam pelos sertões bravios da região participam das primeiras descobertas e da fundação das vilas e arraiais que vão dar origem as principais cidades da região.

Também direto dos livros da história para o romance de Frei Beto está a famosa Guerra dos Emboabas, uma série de conflitos armados entre paulistanos e portugueses pelo controle das minas e das atividades econômicas na região entre 1707 e 1709, quando a Coroa e governo eram tão distantes dos moradores da região, quando a lei e a fortuna.
Na descrição do autor, a “guerra era, de fato, uma disputa entre o negociante e o minerador. Mediam ferros, de um lado, a gente descalça de Borba Gato, os bandeirantes, a indiada iletrada, os negros cavadores de minas; do outro, reinóis, oficiais de El-Rey, baianos, comerciantes, agricultores, pecuaristas, e escravos mineradores liderados pelo genioso Nunes Viana”.

Os emboabas, apelido pejorativo dado aos portugueses por usarem calçados e roupas enfeitadas (algo como pinto calçudo) derrotaram os paulistas na batalha campal de Cachoeira do Campo, nas proximidades de Ouro Preto, nomearam Nunes Viana governador das Minas, desarmaram e expulsaram os paulistas da região.
Derrota que se tornou definitiva depois que as tropas emboabas comandadas por Bento do Amaral Coutinho, cercaram, capturaram e depois executaram cerca de 300 paulistas no episódio que entrou para a história como o Capão da Traição. O evento também é narrado no romance de Frei Beto que coloca mais um descendente dos Arienim bem no centro dessa confusão.

Hoje quem caminha pelos paralelepípedos da Praça Tiradentes, visita o Palácio dos Governadores, se impressiona com a beleza da Igreja de São Francisco e com a riqueza das peças do museu de arte sacra da Igreja de Nossa Senhora do Pilar ou vai prestar sua homenagem aos mártires da Inconfidência Mineira no prédio da antiga Cadeia e Câmara, que hoje abriga o Museu da Inconfidência, certamente não se lembrará da odisseia que foi trasladar aquele universo europeu para a densa mata atlântica brasileira.
Desse choque entre a cultura europeia e a rudeza dos sertanejos brotou a poesia parnasiana de Tomás Antônio Gonzaga, a arte barroca de Aleijadinho e a deliciosa comida mineira, que pode e deve ser saboreada nos vários e bons restaurantes da cidade na companhia da não menos deliciosa cachaça de Salinas.

A Ouro Preto de hoje é mais que o patrimônio mundial declarado pela UNESCO. É uma cidade cheia de vida, jovem e coalhada de estudantes. Seu carnaval é um dos mais animados das Minas Gerais e nas noites da cidade são inúmeros os bares e botequins com música de qualidade ou festas animadas. Para os realmente jovens (no corpo e no espírito), tem sempre a opção das festinhas nas repúblicas universitárias que costumam varar as madrugadas com muita animação.
Da minha parte, prefiro os passeios diurnos, as visitas às igrejas, museus, às antigas áreas de mineração, um passeio até Mariana e que tais.

Se o tempo permitir, na volta para BH, vale a pena passar por Congonhas do Campo. A esplanada em frente ao Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, com as maravilhosas esculturas em pedra sabão dos 12 profetas de Aleijadinho, nos dá a certeza de que, assim como os argonautas, os bandeirantes e emboabas também foram guiados pelas mãos nem sempre gentis dos deuses das artes e da fortuna.

domingo, 22 de setembro de 2013

Desde 1869, vale perguntar: Que País é esse?


A semana se encerra com o País perplexo e indignado diante da decisão do STF de aceitar os embargos infringentes dos réus do mensalão. Porém, esta indignação não deve esconder o fato de que nosso país sofre com a fragilidade de suas instituições e, paradoxalmente, também se ressente quando as instituições e seus regramentos são pouco flexíveis. O mesmo brasileiro que cobra a pena rígida defende o famoso jeitinho.

Essa contradição nas nossas relações com as instituições não é fato novo nem recente, podemos encontrar exemplos nos mais variados eventos de nossa história: na Colônia, na Corte no Rio, no Império, nas repúblicas e até nas poucas guerras que participamos. Desde sempre esse Brasil sem segurança institucional, assentado em heróis inventados, macunaímas e jeitinhos está presente.
Em 1869, Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, o visconde de Taunay, produziu um dos melhores, talvez, o melhor relato da participação brasileira na Guerra do Paraguai. Seu livro, A Retirada da Laguna, é tão emblemático do momento que estamos vivendo que merece ser lembrado.

A Retirada é, por definição, um épico às avessas! Bem ao feitio de um país que só pode ser entendido se analisado às avessas.
Escrito em prosa de grande qualidade, o livro narra um dos maiores fracassos militares da campanha paraguaia do Brasil. Ainda assim, no meu período nos bancos escolares tal evento foi transformado em feito de grande heroísmo nacional: uma fuga vitoriosa!?

Na campanha retratada por Taunay, como nos eventos recentes, não há heróis, são escassas as cenas de nobreza, de denodo, de caráter ou audácia. Com algum esforço, talvez pudéssemos considerar o guia Francisco Lopes o herói de uma guerra pela sobrevivência por ter conseguido achar o caminho de volta quando todos estavam perdidos.

Desde o início a desorganização, o despreparo, o desconhecimento sobre as terras onde iriam combater e a precária logística apontavam para uma ação militar fadada ao fracasso, sob do comando do Coronel Carlos de Moraes Camisão.

O Coronel assume o comando sob suspeita. Considerado pusilânime e covarde, especialmente depois de sucessivos adiamentos da partida da Coluna, ele espera recuperar sua imagem na campanha. Sempre indeciso e hesitante, o Camisão descrito por Taunay nos leva a perguntar como tal homem pôde ser designado para a tarefa? Que Exército era aquele? Que Império era aquele?

A Coluna, com 1680 homens, saiu da Colônia Militar de Miranda em 11 de janeiro de 1867 chegando a Nioaque 13 dias depois. A pequena vila, com poucas casas, uma igreja e um quartel para quinhentos homens abrigou a tropa por um mês enquanto tentavam estabelecer as linhas de suprimento, já que desde o anúncio da partida a tropa não tinha o suficiente para se alimentar, nem tinha a retaguarda como garantir o seu abastecimento. 

Pouco depois de Nioaque, ao se aproximar de território ocupado pelos paraguaios, ocorre o primeiro encontro com o inimigo. No momento em que os soldados esperam investir sobre os paraguaios, Camisão hesita e não ordena o ataque. Taunay ironiza o comandante ao explicar que a decisão de não atacar se devia aos escrúpulos de Camisão uma vez que “estávamos na Sexta-Feira Santa, e a iniciativa de uma ação sangrenta no dia da morte do Salvador repugnava a um coração religioso como o do nosso chefe”.

Assim, a primeira vitória da Coluna é a conquista do Forte de Bella Vista em 21 de abril. Menos de uma semana depois, um destacamento formado por soldados e índios Guaicurus e Terenas ocupa e incendeia o forte paraguaio Rinconada. 

Com poucos mantimentos, o Coronel resolve avançar Paraguai adentro, chegando à Fazenda da Laguna, onde são cercados pelos adversários. A partir daí a situação começa a se agravar e no dia 8 de maio o exército brasileiro começa a retirada com perdas significativas de armas e homens. 

Depois de cruzar o rio Apa, na Bela Vista brasileira, a coluna sofre duro ataque inimigo com muitos mortos e feridos. Seguindo em fuga, atordoada pela fome e pela pressão do inimigo, que incendeia as matas em volta dos acampamentos dos brasileiros, sofrendo com as condições do caminho, a tropa se vê perdida e sem mantimentos.

Não bastassem as dificuldades, o cólera começa a abater mais e mais soldados e a coluna entra em desespero, até que o guia Lopes consegue se localizar e retoma a marcha em direção à sua fazenda, cruzando o riacho Cambaracê, onde os doentes foram abandonados à própria sorte. No final do dia chegam aos currais da Fazenda Jardim com o Comandante, o Sub-Comandante e Guia também atacados pela doença. 

Na fazenda do Guia Lopes ficaram, sepultados, além do proprietário, o Coronel Camisão, o Tenente Coronel Juvêncio e vários desconhecidos. Nosso único herói morre cumprindo a promessa de levar a coluna ou o que dela restasse de volta ao Brasil e dar abrigo na segurança de sua própria fazenda. Mas os paraguaios continuam por perto. 

Em 3 de junho o grupo chega a Nioaque para encontra-la saqueada, com cadáveres espalhados por todo lado. No dia seguinte há a explosão da igreja da vila e a tropa só consegue se livrar do inimigo depois de transpor o rio Taquarussu. Em 11 de junho, o que restou do contingente brasileiro chega a Porto Canuto, às margens do Rio Aquidauana, encerrando as operações de guerra, com a perda de 698 soldados, além de grande número de índios, mulheres, comerciantes, paisanos e garotos de serviço que os acompanhavam. 

Por conta do trabalho e depois, por lazer, conheci a região onde se desenrolou toda a fuga. Partindo de Campo Grande, capital do Estado, toma-se a rodovia em direção a Sidrolândia e de lá para Nioaque. A cidade que abrigou a coluna por quase um mês ainda guarda algumas referências históricas do movimento em torno de sua praça e da sua igreja matriz. O quartel militar ainda estava lá, claro que moderno e reformado, mas pouco demonstrava da importância que teve para a história do Exercito brasileiro.

De lá segui oeste, rumo ao Paraguai cortando a região de belíssimas paisagens do peripantanal. Entre Nioaque e Porto Murtinho, fronteira com o Paraguai, estão os municípios de Bonito e Jardim muito frequentados pelos que gostam do turismo de aventura ou do contato com a natureza. Nas vizinhanças também está a cidade de Guia Lopes da Laguna, homenagem ao herói da retirada. 

Na região, além dos hotéis, pousadas e restaurantes que fazem de Bonito uma cidadezinha com muitos atrativos, os mergulhos nas águas frias e cristalinas do Rio da Prata, o rapel no abismo Anhumas, as trilhas pelas cachoeiras ou a visita à Lagoa Azul, são passeios imperdíveis aos com disposição para aventura. 

Os realmente aventureiros podem optar por incursões mais longas pelo do pantanal sul matogrossense, fazendo trilhas de grande duração, acampando em fazendas da região. Pessoalmente minha veia aventureira vai até escurecer. Ao cair da noite gosto de voltar para o conforto do hotel, tomar uma cerveja gelada ou uma caipirinha e jantar bem. Isto sem falar do banho para relaxar. 

Os que têm paciência para a pesca devem seguir para Porto Murtinho, com seu peculiar dique, que cerca o centro urbano e o protege das águas volúveis do Rio Paraguai. Ali o rio é muito piscoso e a cidade é um centro para turismo de pesca, recebendo visitantes de todo o país, com oferta de barcos, equipamentos e guias. Quando estive por lá, havia um cassino – se é que poderia receber esse nome – que funcionava em uma das ilhas do lado paraguaio, hoje em dia não sei se ele ainda existe, mas também não acho que seja razão para rodar tantos quilômetros.

Naquela época sugeri aos governantes de então que procurassem uma estratégia de desenvolvimento para a região que juntasse ao potencial do ecoturismo, que estava em fase embrionária de exploração, a importância histórica da área, por conta da famosa Retirada da Laguna. Olhando na internet a divulgação do turismo no estado percebo que muito pouco ou quase nada se fez com esta intenção. Mas para que criar uma atração turística em torno de um fracasso militar?

Quem sabe para dignificar as mais de mil pessoas que morreram na campanha.

Quem sabe para nos perguntarmos mais uma vez: Que guerra foi essa? Que Brasil é esse?