sexta-feira, 18 de abril de 2014

Jesus de Nazaré, da Galileia, Belém e Jerusalém...



Quando viajo, não tenho o costume de ficar prestando atenção nas conversas dos meus vizinhos de poltrona. Entretanto, numa de minhas últimas viagens entre Fortaleza e Brasília não tive como não captar fragmentos da conversa que minhas 3 vizinhas de poltrona levavam. Primeiro porque elas conseguiram conversar ininterruptamente durante as duas horas e meia da viagem e depois, porque não falavam baixo.
 
A temática era sempre em torno de religião, igreja, suas ações missionárias e viagens e não pude deixar de ouvir quando uma delas, narrando empolgadamente uma viagem que fizera a Jerusalém se exaltou na descrição de sua experiência quase gritando: EU VI!!! EU VI!!! EU ACREDITO!!! Descrevia a visita ao Getsêmani e, provavelmente, outros locais santos da cidade.

Claro que não pude deixar de pensar na viagem que eu mesmo fiz à Terra Santa e como minha mãe, por exemplo, ficou um tanto decepcionada com o tratamento dado aos lugares santos para o Cristianismo. Também não pude deixar de comparar a certeza da fé da minha companheira de viagem com os muitos questionamentos sobre o “Jesus Histórico” levantados por Reza Aslan no livro Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré.

Todo livro que trata de discutir a vida de Jesus de Nazaré pautado no “rigor da ciência” ou que se propõe a empreender a tal busca pelo “Jesus histórico”, será, na melhor das hipóteses, controverso. E o livro de Aslan não é diferente. Não a toa que minha sogra Zaína até começou a lê-lo, mas pouco antes de terminar o primeiro capitulo devolveu o exemplar reclamando que estava muito confusa e não queria mais. Minha mãe, outra católica convicta, sequer se dispôs a lê-lo. E não tiro razão das duas. O livro não é viagem para qualquer um.

Aslan se esforça por construir dos poucos fragmentos que dispomos deste período da história dos homens na terra a  imagem do Jesus histórico, o homem e suas condições de vida. E, desde logo alerta que não pretende discutir o outro Jesus, o Cristo, o Salvador. Mas não são todos que, sem grandes inquietações, conseguem separar um do outro, o Nazareno do Cristo.

Desde o início Aslan coloca sob o julgamento judicioso da história uma série de fatos que, por tradição bíblica, todos que fomos educados com auxílio do Novo Testamento, seja em casa, na igreja ou na escola, tínhamos como certo. É um texto instigante e muito interessante, ainda que muito fundamentado em especulações e analogias.

Para ficar em apenas um exemplo dos muitos que o autor apresenta, Aslan contesta a versão bíblica de que Jesus teria nascido em Belém. Para ele, o nazareno – que é assim chamado ao longo do texto sagrado – nasceu mesmo em Nazaré, onde viviam seus pais Maria e José e que não haveria razão para terem ido a Belém, uma vez que: (1) o único Censo que se tem noticia de ter sido realizado no período da ocupação romana em Israel aconteceu vários anos depois do nascimento de Jesus e (2) como o Censo era para arrecadar impostos, não fazia sentido cadastrar as famílias (ou seja, os contribuintes) com base no lugar de onde elas procediam, mas sim, onde elas produziam suas riquezas.

Especula então o autor, que o nascimento do menino Jesus em Belém responde à necessidade de convalidar profecias do Antigo Testamento que afirmavam que o esperado Messias do povo de Israel viria da casa de Davi e nasceria em Belém. Assim, para ele, nem Jesus nasceu em Belém, nem José e Maria fizeram tão sacrificada jornada, tendo permanecido na Galileia por quase toda sua vida.

O ponto central do argumento do livro de Aslan é que Jesus, o Nazareno, alcançou o destaque que alcançou porque conseguiu juntar na sua peregrinação pelas terras de Israel e Síria, a palavra revolucionária que teria aprendido de João Batista no período em que o acompanhou, com a ação prática de atender aos pobres, dando-lhes atenção e curando de seus males.

Para chegar a este ponto Aslan nos apresenta , com cores bastante realistas, a situação que vivia o povo de Israel naqueles anos: submetidos à opressão política do governo de Roma; explorados economicamente pelos Sacerdotes do Templo, em uma aliança com os romanos considerada espúria pelos próprios judeus; e, enfrentando períodos de seca em que a fome grassava.

É neste ambiente que surgem os muitos messias que viriam para libertar o povo de Israel do jugo romano e resgatar trono de Davi. É também o caldo de cultura necessário para começar um movimento político que só se consolidaria depois da morte de Jesus: o dos zelotas ou zelotes. A origem do nome derivaria do zelo com que essas pessoas tratavam as coisas sagradas para o povo de Israel, especialmente o Tempo e a Lei.

Para Aslan, Jesus, tendo visto a exploração e o sofrimento do seu povo no período em que vivia na Galileia, tendo ouvido a mensagem de João Batista e a ela aderido, resolve depois da sua morte nas mãos de Herodes Antipas – não preciso dizer que Aslan contesta a veracidade da história que Salomé teria seduzido o rei para que este entregasse a ela a cabeça de João Batista em uma bandeja – começar, ele mesmo, uma ação missionária e evangelizadora junto ao seu povo.

O autor nos conta que naquele tempo eram comuns os profissionais que, a preços nem sempre módicos, vagavam de vila em vila oferecendo cura aos males físicos e espirituais das populações. Naquela época, quase toda doença tinha uma explicação mística, assim, aliviar os sintomas de doenças e expulsar demônios dos coitados eram fases de um mesmo processo de cura. E Jesus seria um desses profissionais. Com uma singela diferença: ele fazia de graça, bastava que as pessoas ouvissem sua mensagem.

Logo, logo multidões saiam em busca do homem que tratava dos pobres e falava dos problemas que elas enfrentavam em uma linguagem que lhes era próxima e compreensível. Aslan especula que João Batista teria formação erudita, diferente de Jesus que provavelmente era analfabeto. Assim, enquanto João e os sacerdotes e escribas falavam em hebraico, a língua dos eruditos, Jesus falava o aramaico que era a língua do povo e tinha passado por tudo o que aquelas pessoas passavam, ele também, filho da pobreza da Galileia.

Jesus, ainda segundo o autor, teria clara noção dos riscos que corria. Antes dele e de João Batista, muitos tinham ido ao povo com a mensagem da chegada do messias e do reino de Israel – que para Aslan não era um reino dos céus, mas um reino terreno – e foram considerados traidores revolucionários e levados à morte. Em geral, a morte que Roma destinava aos que participavam de qualquer tipo de sedição contra o império era a crucificação.

Por isso, a maior parte do tempo em que passou pregando, Jesus teria evitado os grandes centros urbanos da Galileia até que sua fama superou os limites da província e ele julgou ser a hora de enfrentar aqueles que ele considerava os grandes traidores do povo de Israel, os sacerdotes e outros guardiões do Templo. E aí sua decisão de ir a Jerusalém.

Também as muitas passagens dos Evangelhos sobre a estada de Jesus em Jerusalém, segundo Aslan, é marcada por contradições históricas. Delas destaco uma que achei curiosa.
Para o autor Pôncio Pilatos jamais teria lavado as mãos, como nos conta o texto sagrado. Em um período de grande turbulência na região, Pilatos conseguiu ficar por mais de 10 anos como o preposto de Roma em Jerusalém graças a uma aliança com Caifás, o Sumo Sacerdote, à frente de um governo tirânico e assassino, a tal ponto que a população de Jerusalém mandou carta ao Imperador protestando contra a crueza de seu governo e pedindo seu afastamento.

Para o autor Pilatos sequer se daria ou trabalho de ouvir um judeu – povo que ele desprezava – que estivesse participando de um movimento revolucionário contra Roma. Por muito menos que isto ele havia mandado massacrar centenas de pessoas na entrada do Templo. Para ele nem esse diálogo, nem a tal cena do “ecce homo”, nem a escolha de Barrabás (bar Abbas) teriam ocorrido. Esta passagem, especula, teria sido incorporada ao Novo Testamento depois que o cristianismo virou religião oficial do Império Romano. Como poderia ser esta, a mesma Roma a responsável por mandar matar o Cristo? Mas fácil botar a culpa nos judeus do Sinédrio!

O que o autor não consegue explicar é porque menos de 30 anos depois da crucificação de Jesus, como mais um revolucionário sedicioso, já se espalhava por toda Israel e logo pela Ásia Menor (graças à dinâmica atuação de Paulo) a crença na ressurreição do Cristo e a força da sua mensagem. Porque, de todos os zelotas do período, é sobre este único que 2000 anos depois ainda se fazem cultos, curas, guerras, livros, palestras e seminários? Ele até tenta responder à questão, mas o esforço é insuficiente.

Para meus companheiros de viagem, especialmente para minha mãe, insuficiente é a forma como Cristo e o cristianismo são tratados em Israel. Tentei mostrar a ela que em uma região onde predomina a disputa entre judeus e muçulmanos, as atenções para as questões do cristianismo e para as muitas igrejas de filiação cristã que ocupam o território de Jerusalém não poderiam ser lá muito grandes, mas ela não se satisfez, achou pouco.

A Galileia é, para os cristãos, a região onde mais se encontram referências à passagem de Jesus por Israel. A par da discussão sobre o local do seu nascimento, foi em Nazaré que ele teria crescido e alcançado a vida adulta. Foi lá que Maria o concebeu e, consequentemente, é ali que está a Basílica da Anunciação, construída sobre o local onde, de acordo com a tradição, o anjo Gabriel anunciou à Virgem a vinda do Messias. É uma igreja grande e moderna, que se sobrepõe a várias outras construídas em diferentes períodos da história do cristianismo em Israel.

Além do interesse religioso, chama a atenção, o fato de que morar em grutas ou cavernas era lugar comum na região naqueles tempos. De acordo com as pesquisas arqueológicas eram poucas as casas construídas como tal, em geral as famílias usavam as formações rochosas que existiam por ali como extensão de suas casas para armazenar produtos, guardar animais e, em muitos casos, como a própria casa. Assim, o nascimento de Jesus numa gruta não seria impossível, talvez até provável, fosse em Nazaré ou fosse em Belém.

Ao lado da Basílica está outra igreja – devotada a São José – construída sobre as ruínas de onde se acredita teria sido a oficina de trabalho do Pai de Jesus. Neste ponto, por exemplo, Aslan concorda com o Novo Testamento ao afirmar que se José era um tekton (artesão, carpinteiro, pedreiro, marceneiro e etc) e morador de Nazaré, provavelmente teria trabalhado boa parte da sua vida – quem sabe com a ajuda dos seus filhos – na vizinha cidade de Sepphoris, cidade que Herodes Antipas reconstruiu para transforma-la em sua primeira capital na Galileia.

Hoje as ruínas de Sepphoris formam um museu a céu aberto localizado a poucos quilômetros de Nazaré. Muitos dos peregrinos cristãos que seguem para Israel para um encontro com o Jesus Cristo – não o de Aslan, mas O Jesus que eles acreditam – provavelmente passam sem notar a cidade quando seguem para o Mar da Galileia partindo do aeroporto de Tel-Aviv.

Além de Sepphoris, bem perto de Nazaré está Canaã, a das bodas, onde Jesus teria realizado seu primeiro milagre ao transformar água em vinho, por pedido de sua Mãe. Para os que têm interesse em conhecer a pequena igreja construída no local onde o milagre teria acontecido é bom prestar atenção ao caminho: é muito fácil passar direto e nem perceber onde é o local, pois é muito mal sinalizado. Também é uma visita por desencargo de consciência, não achei uma parada imperdível.

Destino obrigatório para os que visitam Israel do Novo Testamento é o Mar da Galileia. O grande lago de água doce em torno do qual Jesus – o Nazareno e o Cristo – fez a maior parte de sua ação religiosa (ou política, segundo Aslan). Ali, ao redor daquele belo lago, Jesus encontrou seus apóstolos, os pescadores de peixes que ele prometeu tornar pescadores de homens e almas e foi em Cafarnaum, pequena vila de pescadores às margens do Mar da Galileia que fez a base para sua ação missionária.

Uma volta no Mar da Galileia pode começar por Tiberíades, que também foi construída por Herodes Antipas para abrigar sua segunda capital, quando se mudou de Sepphoris. É a maior cidade da área, com a melhor oferta de hotéis e resorts, que por ficar às margens do lago é hoje um balneário para os israelenses. Além dos hotéis a cidade também oferece algumas opções de bons restaurantes, píer e marinas para atividades náuticas e um calçadão às margens do lago. Apesar de tudo, confesso que a cidade não me impressionou muito.

Saindo de Tiberíades, para sua esquerda, contornando o Mar da Galileia o viajante passa por Tagbah, onde teria acontecido o milagre da multiplicação dos pães citado no Novo Testamento, também nas imediações, no topo de um morro, está a Igreja das Beatitudes, construída no local onde Jesus teria proferido o sermão das bem aventuranças. Logo adiante está Cafarnaum.

As ruínas de Cafarnaum são pequenas, mas merecem ser visitadas. Além de permitirem uma ideia de como seria a vida em uma vila de pescadores nos tempos de Jesus, a visita é rápida e bem organizada, com destaque para as ruínas de uma bela sinagoga de arquitetura helenística e a igreja – não tão bela, já que mais parece um disco voador – construída sobre as ruínas do que se acredita ter sido a casa de Simão, o Pedro. O passeio prossegue no sentido sul até chegar ao local no Rio Jordão onde João teria batizado Jesus.

Depois de contornar o Mar da Galileia o viajante pode seguir em direção ao sul do País, acompanhando o curso do Rio Jordão, tendo do outro lado da margem a Cisjordânia e a Jordânia. Ao longo de todo o trajeto irá se surpreendendo com a impressionante capacidade do povo de Israel de produzir frutas e verduras no meio de uma paisagem desértica. São muitas as ilhas de produção que verdejam sobre o branco amarelado do deserto da fronteira oeste do país.

Mais ou menos duas horas de viagem depois se chega às proximidades do Mar Morto e ao entroncamento que seguirá para Jerusalém. Ali, logo a esquerda, está a cidade de Jericó, considerada a mais antiga do mundo ainda habitada, com registro de ocupação humana há mais de 10.000 anos e mais baixa cidade do mundo, pois está a mais de 200 metros abaixo do nível do mar.

Tirando a curiosidade quanto a sua antiguidade, não há muito que ver por lá. Tem um teleférico que leva a um conjunto de igreja e mosteiro incrustado na encosta da Serra de Judá e algumas ruínas de um palácio que, provavelmente, pertenceu a Herodes.

Além disso, só a descoberta que, atualmente, no território da antiga Israel convivem dois países: o Estado de Israel e a Autoridade Palestina. E que, por mais estranho que possa parecer, o carro que alugamos em Tel Aviv não poderia entrar neste outro país! Nem em Belém, nem em qualquer outra cidade administrada pela Autoridade Palestina.

Vinte e poucos quilômetros adiante, depois de voltarmos a estar acima do nível do mar, chegamos a Jerusalém, uma metrópole com avenidas largas, ótimos serviços de transporte urbano, hotéis e shoppings de todos os preços e qualidades, isto sem falar, é claro, na cidade murada, a Jerusalém antiga, nosso principal objeto de interesse. Mas antes, um passeio nos seus arredores: Belém, o Monte das Oliveiras, entre outros.

Nos vários pontos de referência do cristianismo em Jerusalém e suas imediações a mesma sensação: gente demais. As igrejas, seja a da Natividade em Belém, seja a do Santo Sepulcro em Jerusalém – depois de fazer toda a Via Dolorosa – vem a sensação de que há gente demais para o pouco espaço. Isso, pelo menos para mim, comprometeu toda e qualquer possibilidade de alguma experiência transcendental, diferente da minha companheira de vôo que viu e acreditou!

Ademais, nisso dou o braço a torcer às queixas da minha mãe, a falta de um guia com experiência nas ruas da cidade e com conhecimento do Novo Testamento compromete o que se pode aproveitar da visita, uma vez que há pouca informação sobre a relação entre os locais e as passagens bíblicas. É fácil para o turista perder ou não compreender a importância de determinado local ou sua relação com determinada passagem da Bíblia,

Não bastasse isso, depois de 2000 anos de cristianismo, os locais considerados sagrados já foram objeto de inúmeras intervenções. Cada monumento, basílica ou igreja estão construídos sobre, pelo menos, outras duas de períodos anteriores: quase sempre, uma do período bizantino e outra do período das Cruzadas. Isso sem falar das disputas entre as denominações religiosas que fazem com que, em algumas situações, elas divirjam entre si, sobre o lugar onde “realmente aconteceu” tal evento. Com facilidade o visitante fica confuso.

Para os que não foram apenas em busca da Terra Santa Cristã outras atrações estão disponíveis tanto na velha como na nova Jerusalém. Há o famoso Muro das Lamentações, única parte do antigo Templo que sobreviveu a fúria romana quando da repressão à revolta judia no ano 60 d.C., há a mesquita de Omar ou o Domo da Rocha de enorme importância para os muçulmanos, há as muralhas e a interessante história da milenar Jerusalém, construída e destruída um sem número de vezes, isto sem falar nas atrações dos mercados de rua e da agitação de uma cidade que vive entre o presente e o passado.

As noites de quinta feira, que antecedem o shabat, são especialmente animadas e a Porta de Jaffa, principal entrada para a cidade murada de Jerusalém, fica movimentada com eventos e apresentações culturais que animam os visitantes e moradores até altas horas da noite. Mas no dia seguinte, especialmente a partir do horário do almoço, nada funciona, nem mesmo os serviços de transporte público. Assim, é importante atentar para os dias em que se pretende visitar as atrações da cidade.

Por fim, tanto para os que pretendem se aventurar na leitura de Aslan ou numa viagem a Israel, uma consideração: talvez nem seu conhecimento sobre a Bíblia, nem a força da sua fé sejam suficientes para aproveitar ao máximo o que ambos podem lhe proporcionar. Como disse no início, não é uma viagem para qualquer um!

sábado, 15 de março de 2014

Além da vista e das expectativas

Fonte: Blog do Borjão.


A cada dia, mais me surpreendo com as situações inusitadas que viagens e livros me colocam.

Na minha última viagem de Lisboa para Fortaleza acabava de assumir meu lugar na aeronave com um livro que há algum tempo vinha me preparando para ler, quando o meu vizinho de assento – e companheiro de viagem nas próximas sete horas – me perguntou o que achava do livro que estava trazendo.

Ao saber que sequer havia começado a lê-lo, não se fez de rogado e me perguntou se eu não gostaria de ler um de sua autoria. Explicou-me que era um livro pequeno e que antes mesmo de chegarmos ao nosso destino já teria terminado sua leitura, me oferecendo um exemplar de empréstimo.

Apesar de não estar muito disposto a adiar a leitura do livro que havia escolhido, achei que não ficaria bem negar tão simpática oferta e findei aceitando o desafio.

Assim fui apresentado ao criador, Aidano Ayres de Moura, e à criatura: Além da Vista. O livro era realmente pequeno e, cá com meus botões, pensei que poderia começar a leitura, meio que por educação, e depois da refeição, por exemplo, poderia passar para o livro que efetivamente pretendia ler durante a viagem. Seria um atraso, mas não uma perda total.

O livro contava a estória de Antônio, um filho de pescador, de uma pequena vila de pescadores chamada Fortaleza dos Ferreiras que depois de ter saído de casa na juventude para tentar a sorte, retornava à sua terra natal em visita a sua tia, única parente que ainda lhe restava naqueles confins, e descansar, por duas semanas, de sua atribulada vida na marinha mercante.

Fortaleza dos Ferreiras é uma pequena vila de pescadores em um lugar qualquer do Brasil, cercada por lagoas e coqueirais, com uma pequena igreja – em torno da qual se dão os principais eventos da comunidade – uma escola, umas poucas ruas de areia em cima de uma falésia e uma modorrenta atividade de pescadores e jangadas na sua faixa de praia.

O acesso à vila ainda é complicado e apesar dos avanços que começam a aparecer – energia elétrica, agua encanada e outros que tais – o regresso de Antônio à cidade, além do rebuliço natural da volta do filho ausente, permite que o autor volte no tempo e nos conte a interessante estória de Angélica, que queria ser a santinha nas procissões da igreja, do caso de sua mãe com o Padre Anselmo e do surgimento de um lobisomem na vila, que vinha a ser o pai do Abcias, melhor amigo de Antônio e seu companheiro em todas as aventuras na juventude.

Mais surpreso fiquei – mais do que com o inusitado do convite do autor – ao descobri que não conseguia largar o pequeno livro até que o terminasse. E olhe que quando o fiz, ainda faltava quase a metade do tempo do voo para chegarmos ao Pinto Martins.

Contado numa narrativa leve e no mais das vezes engraçada, o texto de Aidano nos transporta para o meio da pequena vila, nos permite sentir a brisa gostosa que sopra naqueles altos de falésias nas noites de lua, nos convida a participar das festas de gente simples, regadas a cachaça e forró e nos lembra da vida calma e bucólica de tantas vilas e cidades pelo litoral brasileiro.

Ainda que não estivesse situada em qualquer estado ou região brasileira, a leitura de Além da Vista me proporcionou uma viagem no tempo, um retorno à minha infância e adolescência, num tempo antes de nos mudarmos para Brasília, quando meus pais compraram e reformaram uma pequena casa de pescador – do Seu Luiz – na Prainha.

Naquele tempo não havia a ponte sobre o Rio Pacoti, não existia Beach Park, o Porto das Dunas, nem uma rodovia duplicada como a que temos hoje. Saíamos de casa, na Rua Joaquim Nabuco e pegávamos a Antônio Sales no rumo da salina dos Diogo. Ali tomávamos a direita na direção das Seis Bocas e de lá, seguindo a estrada, tomávamos o rumo de Messejana.

Messejana ainda hoje é distrito de Fortaleza, mas na época, por conta da sua distância da capital parecia uma pequena cidade do interior com centro e vida próprios. No caminho também passávamos pela pracinha da igreja do Eusébio, ainda um distrito, e seguíamos para Aquiraz, cortando o centro histórico da cidade e, finalmente, pegando a estrada da Prainha. 

Era uma viagem. Íamos na sexta feira para passar o fim de semana ou de temporada quando das férias.

A Prainha era ainda um pequeno núcleo de pescadores. É bem verdade que no inicio dos anos setenta algumas casas de praia de gente de Fortaleza já haviam sido construídas na frente da praia, mas eram poucas e no geral prevaleciam as pequenas casas de pescadores, muitas ainda de taipa, portas e janelas pequenas, algumas rebocadas e caiadas, mas todas com aquela simplicidade característica das comunidades tradicionais de pescadores.

No centro da vila, onde hoje é um centro de rendeiras e artesanato, ficava um enorme - pelo menos assim me parecia - coqueiral onde jogávamos futebol de pés descalços a tarde inteira e no outro dia tínhámos que pedir ajuda à Rosalba ou à Inha para tirar os bichos-de-pé que nos atacavam como uma praga.

Quando não estávamos nadando ou jogando bola com os meninos da vizinhança, investíamos nossas manhãs na irresponsável aventura de atravessar o Rio Catu para procurar por balas de metralhadora dos aviões da Força Aérea que fazia da outra margem do rio de campo de treino de artilharia para seus pilotos.

Rezava a lenda que uma vez, alguns filhos de pescadores da cidade tinham resgatado uma bomba e que ela acabou explodindo dentro de casa enquanto tentavam desmontá-la. Nunca consegui confirmar a veracidade da estória, mas certamente dava mais emoção à busca.

Nas últimas vezes que fui por lá, já na adolescência quando vinha de férias de Brasília, passeava com meus amigos em um buggy BRM vermelho que o meu tio Dudu nos emprestava. Com quinze-dezesseis anos éramos os donos das praias e das dunas, tentando impressionar as meninas e nos aventurando em manobras automotivas radicais.

À noite, nas sextas feiras, tinha um forró n’O Leôncio – que da última vez que estive por lá ainda resistia bravamente aos avanços do turismo e as pressões da urbanização da sede do distrito – que era restaurante na maior parte do tempo e também servia de eventual clube de forró.

Apesar de não ser encarapitada em falésias ou formações similares – como é o caso de Pipa no Rio Grande do Norte ou Trancoso na Bahia – a Prainha da minha infância tinha tanta semelhança com a Fortaleza dos Ferreiras de Aidano que foi impossível não acompanhar as peripécias de Antônio, Angélica e Abcias nas lagoas, dunas e praias de sua terra natal sem me lembrar desse período da minha vida.

Também não tinha como pensar na Prainha daqueles tempos sem lembrar das estórias que os pescadores contavam, das assombração nas noites de lua ou das fofocas e dos causos que dos vizinhos. Eram tempos de lobisomens, gabirus e outras feras que ameaçavam as tranquilas noites de praia, enquanto os adultos bebiam, conversavam e jogavam um carteado.

Hoje essa Prainha não existe mais! Pelo menos não aqui perto de Fortaleza, nem em Pipa, nem em Trancoso. Talvez em praias mais distantes e menos acessíveis ainda se consiga encontrar esse clima de encantamento a que nos remete as viagens fantásticas da Fortaleza dos Ferreiras, mas não mais em Aquiraz.

O turista que vai para aqueles lados hoje, ainda se impressionará com a vista maravilhosa da APA da Foz do Rio Pacoti, mas muito provavelmente ficará em Porto das Dunas em algum lugar nas proximidades do Beach Park – para onde levará seus filhos para grande diversão – ou se hospedará em um dos caros condomínios que estão ocupando cada metro de duna, cada frente de praia, entre o rio e a Prainha.

Mesmo aqueles que se aventurarem além dos limites do Porto das Dunas, que passarem pela Praia do Japão, avançarem além das barracas de praia e chegarem ao centro da Prainha irão ver muito pouco do que agora conto.

O distrito se estruturou, o comércio cresceu, os hotéis e pousadas chegaram, novas casas foram construídas e muito pouco ficou da rústica vila de pescadores.

Claro que logo cedo pelas manhãs, lá nas proximidades da foz do Catu, os pescadores estarão chegando com suas jangadas e vendendo seu pescado ali mesmo na praia, como faziam nos anos setenta e seus avôs fizeram antes disto. 

Mas dificilmente os visitantes conseguirão ver além disso, muito aquém da vista que o texto de Aidano proporcionou.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Pontes e vidas...



Sempre olhei com desconfiança para esta súbita aparição de livros de autores árabes (afegãos, iranianos, turcos, iraquianos...) nas prateleiras das livrarias e nos guias dos mais vendidos aqui no Brasil.

Lá no fundo presumi que a introdução desses autores e desta literatura para os consumidores brasileiros seria muito mais consequência do esforço dos invasores ocidentais de mostrar como sua ação naqueles países havia provocado um renascimento da sua literatura e, consequentemente, como a ocupação era um enorme beneficio para seus povos.

Assim desprezei-os nas muitas oportunidades que, passando em uma ou outra livraria, dava de cara com uma dessas estórias romanceadas do estilo de vida muçulmano. Mas enfim ganhei um livro de Khaled Hosseini e, como a cavalo dado não se olham os dentes, enfiei-o em minha mochila e depois de ler tudo o que tinha, acabei encarando O Silêncio das Montanhas.
Devo começar confessando que o livro não é tão ruim quanto eu presumi que fosse – por puro preconceito – mas também não achei essa coisa toda.

O romance começa no Afeganistão, num vilarejo perdido chamado Shadbagh, passa boa parte do tempo em Cabul, mas também viaja para a França, para a Grécia e para os Estados Unidos, narrando um entrecruzar de histórias pessoais, num vai e vem, que se inicia lá pelos anos 1950 e termina em 2012.
Tendo como ponto de partida a separação de dois irmãos ainda pequenos nos confins do Afeganistão, o autor narra trajetórias de vidas paralelas e sobrepostas que, por caminhos tortos e sofridos, vão se encontrando e se perdendo, física e sentimentalmente.

Além dos irmãos e da sua vida na perdida Shadbagh, que dão inicio à narrativa, o autor nos apresenta um motorista de uma rica família de Cabul que, por coincidência é tio das crianças, o casal para quem ele trabalha e seus dramas, os vizinhos, um senhor da guerra do período posterior à expulsão do Talibã que constrói a Nova Shadbagh, um médico grego que vai trabalhar na ajuda humanitária em Cabul depois da ocupação americana e os filhos e herdeiros de um Afeganistão que quer se reencontrar.

O livro caminha num ritmo tranquilo, não monótono, já que a narrativa muda de ritmo para cada personagem que assume esse papel e são muitos os que o fazem, mas não chega a ser excitante.
As histórias são doídas, pessoas que vivem vidas sofridas, mesmo aquelas que não passaram pela provação das guerras ou dos talibãs, sofrem com as escolhas que fizeram, escolhas essas que as distanciaram de seus países, de seus ideais ou as afastaram das pessoas amadas.

São como histórias de pontes que se partiram ou do esforço, nem sempre efetivo, de reconstruí-las. Vidas, relacionamentos e pontes. Vidas que se separam, relacionamentos que se distanciam, promessas que não se cumprem e as tentativas, quase sempre vãs, de recompô-las.
Estava quase chegando ao fim do livro, confesso que com algum esforço, quando consegui ter essa percepção do todo. E devo isto, fundamentalmente, a uma passagem do último capitulo em que duas personagens, tia e sobrinha, se encontram na França, mas precisamente em Avignon, conversando diante da ponte da cidade e combinando uma visita à Pont du Guard, na vizinha Nimes.

Estive em Avignon numa viagem de carnaval, durante um mês de fevereiro que não fazia tanto frio assim. Partindo de carro de Barcelona chegamos à cidade de noite e resolvemos procurar um restaurante para jantar, antes de dormir. A temperatura até que estava suportável mas a noite estava chuvosa e resolvemos entrar no primeiro restaurante que encontramos na Place de L´Horloge e, juro, não trago qualquer lembrança dele.

Não fosse o fato de que quando resolvemos voltar para o hotel, algum espertinho tivesse estacionado o carro bloqueando a saída do nosso, esta noite já teria sido perdida nas lembranças de viagens. Depois de muito xingar o infeliz e de algumas manobras ousadas e bem sucedidas, conseguimos escapar do estacionamento passando por cima de calçadas e passeios. Não foi um bom início, diga-se de passagem, mas tínhamos certeza que melhoraria.

O dia seguinte amanheceu também nublado e com o vento Mistral cruzando as acanhadas ruelas da cidade intramuros, congelando nossas orelhas, narizes, nos obrigando a andar depressa e de cabeça baixa. Para escapar da intempérie, decidimos começar logo o dia pelo Palácio dos Papas.
Avignon foi a residência dos Papas de 1309 até 1377, tendo abrigado 7 Papas neste período. Mas ela entrou para a história quando o Papa Gregório XI tentou reunificar o papado e procurou recuperar o trono de São Pedro em Roma provocando o Grande Cisma do Ocidente. Por conta desta crise, entre 1377 e 1417 a Igreja Católica teve que conviver com dois ou mais papas tentando comandá-la ao mesmo tempo.

Neste período a cidade serviu de residência para os Antipapas Clemente VII e Bento XIII que por ali ficou até 1394, quando teve que fugir para o Reino de Aragão, deixando para trás o imponente edifício em estilo gótico, que hoje abriga um museu bem interessante.
Quando saímos do museu, Avignon premiou nossa persistência com um dia de sol maravilhoso que convidava para uma caminhada. Parecia que havíamos entrado no museu em uma cidade e saído em outra. Havia vida e movimento. Havia cor e alegria, a cidade parecia ter despertado das brumas e mostrava seu encanto aos turistas e habitantes.

Ainda na parte final da visita ao Palácio, do alto de alguma torre de vigilância, já podíamos ver, placidamente deitada sobre as águas escuras do Ródano a ponte da cidade, citada na cantiga infantil Sur la pont d`Avignon.
Incompleta, uma vez que os anos de intempéries e as nem sempre tranquilas águas do Ródano, reduziram-na ao meio da travessia (apenas 4 dos 22 arcos originais permanecem), a ponte continua um belo monumento e inspiração para muitos casais enomorados.

Descemos as escadarias do museu para ver de perto a famosa ponte, que além de bem bonita também tem um pequeno museu que conta sua história, desde sua primeira construção por volta do século X.
No dia seguinte, igualmente ensolarado, seguimos para a segunda parada na região, a cidade de Nimes. Situada na fronteira entre Provence e o Languedoc, Nimes é uma cidadezinha simpática, com menos de 150 mil habitantes, mas bem organizada e arborizada. Seu ponto alto, do ponto de vista turístico, é a famosa Arena de Nimes, um anfiteatro romano do período de Adriano que está totalmente remodelado.

Mas no caminho havia outra ponte a ser visitada: Pont du Gard.
Situada entre Avignon e Nimes, a tal ponte é um trecho do magnifico aqueduto romano, construído no século I a.C. para permitir a travessia da água sobre o Rio Gard com quase 300 metros de extensão a uma altura de 50 metros.

Ela é espetacular!
Toda a área do Rio Gard nas imediações da ponte foi transformada em um parque, com direito a trilhas para caminhadas até a sua parte mais alta, banheiros, lojinhas de souvenires e um pequeno café. Além das inúmeras fotos, obrigatórias em função da beleza do lugar, fizemos todas as trilhas, visitamos o museu e paramos para aproveitar um vinho francês e apreciar a deliciosa vista da ponte, até que o clima começou a virar e decidimos seguir para o nosso destino original.

No livro de Hosseini a Pont du Guard é o lugar onde, depois de uma vida de desencontros, a família dos dois irmãos de pequena Shadbagh marcou para se reunir. O velho aqueduto parece ideal para representar mais uma ponte que tendo servido para ligar cidades e pessoas, como acontece com a ponte de Saint-Bezenet em Avignon ou com as muitas histórias de O Silêncio da Montanha, tenta mas não consegue reuni-las mais.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Amsterdã liberal, não libertina.




Cafés onde se pode fumar maconha sem qualquer preocupação. Ruas cheias de janelas com mulheres que oferecem serviços sexuais para os transeuntes. Tolerância para movimentos revolucionários e libertários de todos os matizes.

No imaginário coletivo a cidade de Amsterdã apresenta-se como uma cidade de total liberdade ou quase libertinagem Mas uma caminhada pelas ruas e pelos canais da bela capital da Holanda, ou melhor, dos Países Baixos, rapidamente nos afasta desta imagem preconcebida.

Claro que tantos os cafés como as janelas do Red Light District estão lá, disponíveis para os que procuram esses prazeres mundanos, mas quem toma um trem, pega um dos barcos que fazem transporte público nos canais interligados ou passeia pela Rembrandtplein, não percebe este clima de libertinagem, ao contrário!

A população e a cidade são sóbrias, tranquilas e respeitadoras dos costumes e das individualidades. Esse aparente paradoxo entre uma sociedade com elevado grau de tolerância para essas liberdades e uma população trabalhadora e pacata podem ser explicadas, entre outras coisas, por um costume tão próprio dos moradores de Amsterdã que tem uma palavra própria em holandês o “gedogen” que pode ser traduzido como algo que é tecnicamente ilegal, mas oficialmente tolerado.

Pelo menos essa é parte da explicação que Russell Shorto, um escritor americano radicado em Amsterdã, apresenta na introdução do seu livro Amsterdam, A history of the World´s Most Liberal City, onde ele conta a história da cidade a partir da formação e desenvolvimento do pensamento liberal na Europa e no mundo. Ou seja, a hipótese central do autor é a de que Amsterdã – por conta de uma série de características e condições históricas particulares – pode ser considerada o berço do pensamento liberal no mundo.

Inicialmente, é claro, o autor precisa deixar claro de que liberalismo ele está falando, já que ser liberal é um conceito cuja compreensão tem variado ao longo do tempo e nas diferentes regiões do mundo. Para Shorto o liberalismo que nasce na Amsterdã do século XVII é aquele baseado na valorização do indivíduo e no respeito ao direito dele exercer livremente suas escolhas particulares, sejam elas de ordem política, econômica, cultural ou religiosa.

No seu esforço em descrever a abrangência do liberalismo de Amsterdã o autor aponta as seguintes contribuições para a cultura ocidental e para “uma ideologia centrada em crenças quanto às liberdades individuais”: a criação do primeiro mercado de ações; uma sociedade focada nas preocupações e confortos dos indivíduos e que é governada por indivíduos agindo de forma conjunta e não baixo o tacão de uma força externa; a tolerância como princípio, seja ela religiosa, étnica ou de qualquer outra natureza; a arte como experimento da individualidade do ser humano e da preocupação em nos entendermos; o conceito de lar – a casa da família – como um espaço privado e aconchegante, em justaposição à corte e as casas do período medieval em que várias famílias eram obrigadas e viver conjuntamente e não eram claros os limites entre o privado e o público.

Apesar de buscar explicações para as condições particulares da história da formação da cidade de Amsterdã que permitiram que ela ocupasse posição de relevância no liberalismo mundial, o autor centra seu argumento na “era de ouro” dos Países Baixos. Assim, parcela maior do livro e da história da cidade que ele conta está dedicada aos anos da influência da cidade sobre a economia mundial durante os 1600´s, desde quando se iniciam os movimentos de independência do Reino de Espanha – na verdade do Sacro Império Romano – passando pela criação da Companhia das Índias Ocidentais (VOC), até a criação da república batava, sob o comando de De Witt.

Mas antes de chegar a este ponto da narrativa o autor descreve como o processo de criar um país a partir de uma área permanentemente inundada com uso de diques, canais e moinhos de vento moldou não só a Holanda que hoje conhecemos, mas este caráter que concilia a necessidade de trabalhar coletivamente, com a importância de respeitar as individualidades.

Este processo é tão presente na história da cidade que seu nome Amsterdã deriva do dique que foi construído como barragem do Rio Amstel (Amstel + Dam) e que hoje é o coração e a praça central da cidade.

O livro também conta uma surpreendente novidade: o primeiro ciclo de expansão da cidade – por volta dos 1300 – se deu devido a uma hóstia milagrosa que transformou Amsterdã num centro de peregrinação da cristandade, até o Sacro Imperador Maximiniano I fez peregrinação à cidade para pedir pela cura de seu filho, graça que acabou por receber, e que levou a construção de um sem número de mosteiros, igrejas e conventos na cidade.

Apesar dessa origem devocional, a cidade, ressaltando seu caráter liberal, aderiu às teses de Erasmo de Roterdã, Martinho Lutero e depois Calvino para se tornar um dos principais centros protestantes do norte da Europa. Não obstante o esforço do Imperador Carlos V e seu filho Felipe II em fazer valer o catolicismo romano e até mesmo de levar a Santa Inquisição para os Países Baixos, a repressão aos protestantes em Amsterdã foi, por assim dizer, para Inglês ver!

Era o famoso “gedogen” em ação. Apesar do protestantismo ser ilegal, desde que a pessoa não abusasse – basicamente mantivessem os cultos religiosos em lugares discretos – o governo olhava para o outro lado e não se metia na vida das pessoas. O problema é que chegou um momento que os tais encontros secretos – que se realizavam fora dos muros da cidade – passaram a reunir, discretamente (!), mais de cinco mil pessoas!!!

Assim, quando o Duque de Alba chegou aos Países Baixos e se instalou em Amsterdã para fazer valer os ditames do Sacro Imperador Romano, invadindo e ocupando as cidades holandesas e perseguindo todos os hereges após a instalação do Santo Ofício, os holandeses, sob o comando do Príncipe de Orange, se rebelaram e estourou a guerra dos 80 anos que culminou com a independência dos Países Baixos e com a primazia de Amsterdã como a capital da federação recém nascida.

É nesta Amsterdã liberal que as ideias de Erasmo de Roterdã vão ser publicadas, debatidas e influenciarão o movimento protestante à Igreja Católica de então. É também ali que René Descarte vai buscar abrigo, apoio e alguém com coragem para editar e publicar o seu revolucionário Discurso sobre o Método (que depois entrará no Index de Livros Proibidos pelo Vaticano) e onde o filósofo inglês John Locke vai buscar asilo, pois era perseguido na Inglaterra. Segundo o autor, na sua temporada pela cidade, incentivado pelos intelectuais liberais da época, ele faz algumas de suas primeiras publicações – sob a influência do pensamento local escreve A Letter Concerning Toleration – para depois se transformar no ideólogo do liberalismo.

Amsterdã é também o destino de milhares de judeus e cristãos novos que fogem da península Ibérica durante os anos mais duros da repressão Católica. Na cidade dos canais – em pleno desenvolvimento econômico e urbano – eles encontram o ambiente de tolerância necessário para se estabelecerem, resgatarem suas práticas religiosas e desenvolver sua aptidão para os negócios.

Entre os muitos filhos de judeus portugueses nascidos em Amsterdã é Bento De Espinoza – mais conhecido pelo seu nome hebreu Baruch Spinoza – que vai encarnar, sempre na opinião de Shorto, o espírito liberal da cidade e se tornar personagem central no seu argumento de como, desde Amsterdã do Século XVII, os ventos do liberalismo sopram e transformam todo o mundo ocidental.

Liberal certamente Amsterdã é. Ainda nos dias presentes a cidade é palco das mais variadas manifestações dos mais variados grupos, setores e propósitos. A famosa foto de John Lennon e Yoko Ono deitados numa cama de hotel (Bed Peace) foi tirada na cidade dos canais. Mas mais que liberal, Amsterdã é uma cidade para o individuo.

Interessante – isto o autor também destaca – como uma cidade que foi rica como ela foi durante quase um século é uma cidade sem prédios monumentais ou obras épicas.

O turista que passeia pelas suas ruas e canais não irá se deparar com nenhum castelo querendo competir com Versalhes ou uma igreja querendo rivalizar com São Pedro. Não há bulevares monumentais ou arcos triunfantes. Mesmo a Dam Square – a praça central da cidade – é bem normalzinha, por assim dizer.

A beleza da cidade está na sua solução urbanística projetada há mais de 300 anos e que até hoje mantem-se funcional. Está também no delicioso contraste entre os canais e as casinhas multicoloridas, de mesmo estilo, cada uma com seu barco à porta ou com flores enfeitando os parapeitos das janelas.

A cidade é plana, totalmente plana, ótima para uma caminhada ou para o passeio de bicicleta, o que permite que os turistas possam transitar por todo o centro sem ter que recorrer a coletivos, taxis ou outras soluções mais onerosas. Amsterdã é um convite para um passeio.

Como não há monumentos para buscar, cada rua, cada nova esquina, cada ponte sobre um canal pode revelar, para o turista, na rua seguinte uma pequena praça, uma feirinha de fim de semana ou um lugar que você se sinta bem, estando com você mesmo.

É claro que muito ficou do período da era dourada do desenvolvimento holandês, em especial no que se refere à arte e principalmente em se tratando de pintura. É bom lembrar, entretanto, que muito da produção dos Países Baixos antes da independência vai ser encontrado em Madri.

Quem busca Rubens, Van Dyck e similares fará melhor indo ao Museu do Prado, mas se você quer Rembrandt, Vermeer e seus contemporâneos, o  Rijksmuseum tem para todos os gostos. Não muito distante, ainda na Museumplein, está o Museu Van Gogh com obras deste espetacular pintor holandês. Quando estive por lá havia uma exposição temporária sobre a noite em Van Gogh com obras de tirar o fôlego.

A cidade tem ainda um sem número de museus para todos os gostos: do sexo, da Heineken, Madame Tussaud´s e o da Casa da Anne Franck – esse eu até me dispus a ir, mas quando cheguei, a fila para entrar era quilométrica. Assim, resolvi seguir a máxima da minha avó Ilay e “dar por visto”.

A visita ficou reservada para uma próxima ida à capital dos Países Baixos, desde que não esteja um dia de sol tão maravilhoso quanto aquele. Porque se a fila estiver igualmente grande, vou preferir seguir caminhando pela cidade, vendo o vai e vem das bicicletas, o movimento das famílias com suas crianças brincando nas praças ou dos jovens namorando no Vondelpark, comendo uma batata frita com maionese comprada em um dos muitos quiosques espalhados pelas ruas e apreciando o delicioso clima da cidade mais liberal do mundo.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Mistério em Colônia!


Aqui estou eu mais uma vez às voltas com Umberto Eco no Aeroporto da Portela. Desta vez não por conta de um livro do autor italiano, mas porque ao procurar um livro para minha última viagem me deparei com um volume que se anunciava o melhor thriller medieval desde O Nome da Rosa!!!

Fã declarado do romance medieval que junta mistério, religião, morte e livros, produzido há cerca de 30 anos, não me contive e comprei o tal deixando outros que pareciam igualmente interessantes para uma próxima oportunidade.

A Oficina dos Livros Proibidos, de Eduardo Roca, é um romance que se passa na Alemanha medieval, mais precisamente na cidade de Colônia e, assim como aquele escrito por Eco, também trata de livros, igreja, mortes e mistérios. Mas devo confessar que a propaganda é um tanto enganosa.

Apesar do bom texto, especialmente na sua ambientação da Colônia no medievo, o romance é longo, com grande número de personagens, mais ou menos importantes, que vão sendo apresentadas à trama paulatinamente o que, para o meu gosto, faz com que o suspense e o mistério demorem demais a aparecer.

Personagem central da história, Lorentz é um ourives apaixonado por livros e por literatura que, por conta de ser canhoto, nunca conseguiu aquilo que realmente sonhava: ser copista e trabalhar em uma oficina especializada em copiar livros. Essa frustração acaba transformando-o, de acordo com o autor, em um precursor de Gutemberg.

A estória se desenrola em torno da vida de Lorentz e sua filha Erika, que em sua pequena casa em um bairro pobre de Colônia, começam a trabalhar na invenção de uma máquina capaz de copiar livros. Lorentz vai, passo a passo, desde a concepção dos tipos, passando pelo desenvolvimento dos tipos móveis, até as soluções que ele encontra para a prensa, a tinta e o uso do papel, por método de tentativa e erro, descobrindo o invento que irá revolucionar a história do mundo cristão e fazer dos livros algo barato (!) e acessível.

Nesta trajetória somos apresentados ao Burgomestre de Colônia (equivalente ao prefeito de então), ao Arcebispo que é, ao mesmo tempo, Príncipe Eleitor do Sacro Império e grande potentado de toda a região, ao rico proprietário da maior oficina de livros da cidade e ao pequeno círculo dos eruditos que pretendem difundir conhecimento e que vão apoiar o ourives na sua invenção.

As coisas caminham bem para Lorentz e sua engenhoca até que uma encomenda anônima para a produção de 200 volumes dos Evangelhos em Alemão – e não em Latim – vai colocar a ele e seus amigos no centro de um turbilhão político e religioso.

É neste momento, quando bíblia traduzida cai nas mãos do Arcebispo e o Burgomestre começa uma violenta investigação para descobrir a sua origem, que o thriller, por assim dizer, toma conta da leitura. Mas para tanto, o leitor já teve que trilhar quase 75% da estória e os menos obstinados talvez já tenham se enfadado das ruas de Colônia e das aberturas de capítulos sempre com referências às condições climáticas da cidade.

Muito diferente da experiência de ler O Nome da Rosa que nos prende desde a primeira página e não nos deixa larga-lo antes de saber quem está por trás dos misteriosos assassinatos que acontecem no mosteiro onde a trama está ambientada. Daí a propaganda enganosa!

Ao contrário do livro de Eduardo Roca, a cidade de Colônia nos prende desde o primeiro momento. Não há como não se impressionar com a magnifica catedral, o Kolner Dom que, de forma altaneira, vigia o Reno desde suas imensas torres e sua gigantesca estrutura.

Assim que você desembarca do trem e sai para a Bahnhofsvorplatz ela está lá, imponente, inescrupulosamente te obrigando a olhar para os céus e se sentir pequeno diante de sua beleza e altivez. Ao subir os degraus que levam para o pátio da Catedral o visitante está no ponto de partida e de chegada de qualquer roteiro na cidade e ela e seu entorno merecem uma visita sem pressa.

A Kolner Dom levou mais de 600 anos para ser construída – tanto assim que na novela de Roca ela ainda está em obras – e é a maior catedral gótica da Europa, capaz de tirar o fôlego de qualquer visitante, seja pelo seu tamanho e imponência, seja pela beleza de suas peças, especialmente o relicário onde estariam os restos mortais dos Três Reis Magos.

Mas Colônia é muito mais que a Dom. 

Tive a sorte de me hospedar nesta cidade bem no inicio do verão por conta da minha participação na COP 17 de mudanças climáticas e depois voltei lá para mais uma visita no final do outono, já começando a fazer frio. Nas duas ocasiões aproveitei para passear pelas ruas apertadas da cidade medieval, almoçar nos restaurantes que ficam no Fischmarkt, bem de frente para o rio, onde, na época em que se passa o thriller ficavam as docas do movimentado porto fluvial da cidade.

O lugar continua movimentado e agora, além do porto, tem um delicioso calçadão por onde se pode gastar boas horas caminhando, apreciando a beleza dos prédios de época, tomando uma Kolsch (cerveja típica de Colônia) num dos bares ou afastando o calor com um sorvete. Ali se pode pegar um barco e fazer um passeio pelo Reno, como também é de lá que se toma o barco para a cidade vizinha de Dusseldorf.

Se preferir continuar em terra firme, a caminhada no sentido oposto ao da catedral te levará ao museu do chocolate, que não é esse balaio todo, mas para os apreciadores da iguaria asteca tem uma lojinha com grande sortimento de chocolates e outras tantas variedades de doces e guloseimas.

Na primeira vez que estive por lá dei a sorte de descobrir que no Heumarkt, uma praça central na cidade antiga, estava acontecendo um festival de vinhos da região. Digo que dei sorte porque só descobri o evento porque peguei o trem errado e tive que saltar na estação da praça para fazer uma baldeação e me vi cercado por toda aquela algazarra.

Como era verão, chegava à praça voltando de Bonn por volta das 19 horas, com dia claro e ficava perambulando por ali, experimentando todas as variedades de vinho, sempre acompanhado de um salsichão alemão, que assim como a bebida, também vem em muitas opções. Dediquei boa parte de minhas noites jantando naquela praça, observando a animação das pessoas que, saindo do trabalho, iam encontrar amigos, familiares ou, assim como eu, apenas ver movimento.

Ali por perto fica a Rathaus, o antigo prédio da prefeitura, o museu da água de Colônia (que como o nome indica foi inventada ali em 1709), além de várias cervejarias tradicionais, as Brauhaus, onde se pode apreciar um joelho de porco com mais uma cerveja, preferencialmente, uma produzida na casa.

Tomando novamente a direção da catedral, passa-se pelo variado comércio da parte central da cidade e, na esplanada da grande igreja, não se pode deixar de visitar o ótimo museu do período do Império Romano, o Romisch-Germanisches Museum.

Colônia era a principal cidade do Império Romano daquelas bandas e seu nome vem deste período. A cidade chamava-se então Colônia Agripina, em homenagem a sua filha mais ilustre, Agripina, que veio a ser a mãe do piromaníaco Imperador Nero. Durante seus anos de poder e glória Agripina protegeu e favoreceu sua terra natal e, consequentemente, são muitas as referências a ela na história da cidade e nas peças do museu.

Também ali perto, por trás da Catedral – passando ao largo do Museu Ludwig, de arte moderna, que fica imediatamente atrás do primeiro – se alcança uma das pontes da cidade, aquela por onde passam os trens que vão para a estação central. Além de ser uma travessia gostosa, dependendo do clima é claro, ela permite belas fotos do skyline da cidade. Para minha surpresa, é a ponte em toda a Europa que eu mais vi ter aqueles cadeados pendurados, representando os votos de casais enamorados de todo o mundo.

Do outro lado do rio, a cidade é mais moderna e mais ampla e por onde se distribuem boa parte dos mais de 1 milhão de moradores de Colônia. Em geral, os hotéis daquele lado são mais novos e também mais baratos. Nas duas vezes que estive por lá, fiquei daquele lado e apesar do bom sistema de transporte público, várias vezes preferi fazer a travessia a pé aproveitando ao máximo minha estada.


Depois, ao ler sobre a cidade e suas atrações, descobri que também para aqueles lados havia coisas a conhecer e lugares para se divertir, mas confesso, que assim como os livros sobre história me atraem nas prateleiras de livrarias, mesmo quando são thrillers não tão bons, as partes antigas das cidades europeias exercem uma atração tal que dificilmente consigo me aventurar pelos outros bairros.