quinta-feira, 21 de abril de 2016

Vichy: Capital de uma França Dividida.



Não sei se por conta dos 70 anos do fim da Segunda Grande Guerra ou por mera coincidência, mas nos últimos meses inúmeros têm sido os livros – romances, diários, relatos – tratando sobre eventos e curiosidades da guerra que matou milhões de pessoas e transformou radicalmente o mundo em que vivemos.

Outro dia comecei a ler O Rouxinol, romance histórico da inglesa Kristin Hannah que conta a história de duas irmãs que por suas condições e circunstâncias acabam participando de maneiras bem distintas da guerra na França.

Enquanto a irmã mais velha, Vianne, que no começo do conflito já era casada e tinha filhos, precisa se ajustar à realidade da ocupação alemã, sua irmã mais nova, Isabelle, com pouco mais de 19 anos na época, se rebela e vai participar ativamente do movimento de resistência francesa.

O romance, que se passa entre a Paris ocupada, a pequena cidade ficcional de Carriveau no vale do Loire e a fronteira da França com a Espanha, aproveita o dilema vivido pelas duas irmãs Rossignol para apresentar o dilema que quase toda a população francesa teve que enfrentar durante a Segunda Guerra, obrigada a conviver, compactuar e, em muitos casos, colaborar com os ocupantes nazistas. Mas ao tempo que colaborava, se revoltava, resistia e sabotava as tropas nazistas.

Assim no país, assim entre as irmãs. Além de perder o marido para a guerra, que virou prisioneiro logo nos primeiros meses do combate, Vianne tem os quartos da casa em que vive com sua filha confiscados pelo exército alemão e durante toda ocupação é obrigada a conviver e servir os oficiais alemães que ficam ali hospedados.

Sua irmã, ao contrário, depois de expulsa de Paris pelo pai, chega a Carriveau para viver com a irmã, mas logo se mostra incapaz de conviver com aquela situação de humilhante dominação e finda por aderir ao movimento de resistência francesa, se tornando importante agente do movimento, ajudando pilotos aliados que caem atrás das linhas alemãs a escapar do país pela fronteira espanhola.

Claro que as diferentes escolhas colocam as irmãs em posições antagônicas no palco da guerra e, em certo sentido, permite que o leitor especule sobre o sentimento de “coisa mal resolvida” do período em que parcela da população francesa, sob a batuta do governo colaboracionista de Vichy e do Marechal Petáin, conviveu, transacionou, lucrou e compactuou com o nazismo nas suas piores manifestações.

Talvez por isto que o romance, embora pudesse proporcionar uma interessante viagem entre Paris e os Pirineus, me leve para a antiga capital do governo colaboracionista, uma pequena e pacata estância terapêutica, com suas águas minerais curativas, localizada na parte central da França: Vichy.

Frequentada por suas qualidades terapêuticas e medicinais desde tempos imemoriais, as fontes de águas curativas de Vichy tiveram seu auge durante o período de Napoleão III, na segunda metade do século XIX, quando reis, príncipes e a nobreza de boa parte da Europa vinham à cidade-balneário para tratamentos, festas e, principalmente, para verem e serem vistos.

Depois da Primeira Grande Guerra, a cidade ficou esquecida até que, depois da invasão alemã em 1940 e do acordo firmado por Petáin com Hitler, Vichy foi elevada à categoria de capital do governo colaboracionista, enquanto que na Inglaterra se proclamava o governo da França Livre.

Estive em Vichy em novembro de 2014 para comemorar o aniversário de 70 anos do meu pai. Naquele momento eu estava em Paris, minha irmã Lília morando em Genebra e a minha outra irmã, a Ana, estava em Poitiers fazendo seu mestrado. Precisávamos encontrar um lugar para festejar que fosse equidistante para todos nós e a escolha recaiu sobre Vichy.

Vichy é uma “pequena e pacata cidade” no maciço central da França, com ruas arborizadas que ganham um colorido todo especial nos meses de outono. Às margens do Rio Allier há um parque público, com direito a calçadão e parquinhos para as crianças brincarem. Nos dias de sol no outono ambos ficam apinhados de jovens famílias que aproveitam os últimos dias de sol e algum calor antes da chegada do inverno.

São muito poucas as referências do período em que a cidade foi capital da França. É verdade que no parque defronte ao Cassino e à Ópera, onde estão algumas das fontes de águas termais mais antigas, há uma placa em que o governo da França reconhece o lastimável papel que desempenhou no triste evento que entrou para a história como o massacre do Velódromo de Inverno, quando milhares de judeus franceses foram entregues pelo Governo de Vichy aos campos de concentração alemães.

Depois de alguma pesquisa ainda encontrei um livro que fala dos prédios da cidade que abrigaram ministérios, embaixadas e outros órgãos governamentais durante o período da ocupação, mas é só isto. A sensação é que ainda há um sentimento local e nacional de vergonha por ter participado de uma ridícula farsa, um governo fantoche e subalterno.

Em “O Rouxinol” há uma tentativa, por parte da autora, de mostrar – não diria defender – as difíceis escolhas a que foram expostas as pessoas que ficaram na área ocupada pelos nazistas e que, para poderem sobreviver, de uma forma ou de outra precisaram conviver com a nova realidade, trabalhando com e para os alemães, tentando levar uma vida “normal” nos mais de quatro anos que grande parte da França ficou sob o tacão do nazismo.

Ao fim, o leitor fica com a sensação de que a irmã que fica e que “colabora” acaba sendo tão brava e tão sobrevivente quanto aquela que se converte em heroína da resistência francesa. É como se o livro dissesse que não há uma forma apenas de resistir a qualquer tipo de opressão.

Para nós, que estivemos em Vichy setenta anos depois que a cidade deixou de ser capital de uma França dividida, o que valeu mesmo foi o excelente jantar no restaurante Maison Decoret, onde também estávamos hospedados, quando comemoramos o aniversário do Dr. Paulo e reafirmamos nossa convicção, que é mensagem do livro de Kristin Hannah, que qualquer que seja a adversidade, é na família que encontramos a força para seguir vivendo.

Pena que o Carlos não pôde ir.

domingo, 24 de janeiro de 2016

O Espírito da Borgonha



Livros, viagens e vinhos formam uma combinação quase imbatível!

Assim, quando comprei o livro “A História do Romanée-Conti e a Trama para Destruir o Melhor Vinho do Mundo”, do jornalista americano Maximillian Porter, já desconfiava que ele poderia render uma página para o Ler & Viver, mas não tinha certeza.

A tal trama para destruir os vinhedos da Romanée-Conti (DRC), estrela maior da produção de vinhos da região de Borgonha, no leste da França, tem início quando em 2010 um ex-presidiário oriundo da região de Champagne tentou envenenar as vinhas do Domaine como forma de extorquir seus proprietários e com isto obter um resgate valioso. 
 
A trama policial não rendeu um romance de primeira grandeza. Situo a narrativa da investigação francesa a léguas de distância das sofisticadas conclusões de um Poirot ou da ação cerebral de um Holmes, que nos fazem investir em noites de insônia para chegar o mais depressa possível ao criminoso e depois ficar lamentando porque o livro acabou tão rapidamente. 
 
Mas o livro tem suas qualidades para quem viaja na leitura. Pois, narrar da tentativa de extorsão permitiu ao autor contar a história da vinicultura na Borgonha, desde o período do império Romano, passando pela chegada dos monges beneditinos na região na baixa idade média, pela história da compra da vinícola pelo Príncipe Conti, primo-irmão do Rei Luis XV da França e adversário político da famosa Madame Pompadour, com quem disputou a compra dos já famosos vinhedos da Côte D’Or, até chegar à família Vilaine, atual proprietária do DRC e protagonista do evento policialesco narrado no livro.

Assim, apesar de um romance policial de qualidade sofrível, o livro vale pelas interessantes informações que traz sobre os vinhos da região e do mundo, informações e explicações sobre a história da vinicultura na França e especialmente na região de Borgonha; explicações sobre as denominações de origem controlada, sobre o funcionamento do mercado de vinhos ou sobre como os vinhedos e os vignerons franceses sobreviveram às as duas grandes guerras deste século XX.

Coisas que são interessantes para quem aprecia o vinho ou que podem ser usadas para animar uma conversa entre amigos quando o papo no restaurante já começa a perder ritmo. Tipo: saber o que representa a classificação “Gran Cru”, coisa que eu até então ignorava; ou, a curiosa história do “Julgamento de Paris”, em meados dos anos 70, quando os cabernet e os chardonnay californianos venceram seus rivais de Bordeaux (os tintos) e da Borgonha (os brancos) em uma prova de degustação com a participação de renomados conhecedores do vinho, a maior parte deles franceses!!

Mas o bom mesmo do livro é voltar à Dijon e à Borgonha! São as referências à cidade, à Beaune, à Autun e às muitas pequenas vilas pelas quais se vai apreciando a maravilhosa paisagem das pequenas fazendas, dos vinhedos e de uma vida que corre, pelo menos na aparência, de uma forma tranquila e pacata.

Dijon, a principal cidade da Cotê D’Or e da região, foi sede de Reino, de Ducado e é uma das cidades mais charmosas que conheci. O centro histórico da cidade, patrimônio da UNESCO é bem grande e oferece um sem número de atrações para quem está de passagem ou para quem pretende gastar alguns dias aproveitando as delícias da região.

Lá chegamos no começo da noite e nos hospedamos no Hotel Wilson que, inicialmente, causou uma má impressão porque parecia uma casa de taipa, de tão baixa que era a edificação. Depois descobrimos que o hotel era muito antigo e o que havia subido era o nível da rua, ou seja, o prédio não era baixo a calçada é que era alta e, ao contrário do que temíamos, era agradável, aconchegante e muito bem localizado.

À noite Dijon é linda! Os principais monumentos recebem uma iluminação especial que destaca seus traços mais imponentes e atrai a atenção do visitante para os pontos altos da cidade, a começar pela belíssima Place de La Liberátion com seu arco de colunas, que fica de frente para o antigo palácio ducal que hoje abriga o Museu de Belas Artes.

De lá, as corujas – símbolo da cidade – formam uma trilha com setas de bronze que orientam os turistas em um passeio por todo o centro histórico, não deixando que você perca nenhuma das principais atrações da cidade, recheada de belas igrejas e interessantes prédios e museus. Mas à noite, com frio, o bom mesmo é ir para o Marché des Halles, que nesta hora estará fechado, e escolher um dos vários restaurantes que ficam à sua volta para apreciar a comida da região e, é claro, os vinhos.

À luz do dia a cidade é ainda mais bonita e cheia de vida. As ruas do centro ficam cheias de pessoas e de animação. Mesmo nos dias mais frios, as lojas, os cafés, os restaurantes, os museus e as esquinas da Rue da La Liberté e de seu entorno estavam ocupados, sem estarem lotados. As pessoas tomavam a cidade para si e isto fazia que houvesse este clima de tranquila segurança, que faz com que se queira passear por todos os lugares, entrar em cada beco, sentar em cada pracinha e observar a vida acontecendo.

Mas a Borgonha é mais que Dijon. A estrada que liga Dijon a Beaune, a capital dos vinhos, passa pelos principais vinhedos da região e deve ser de uma beleza cinematográfica no período da safra. Em novembro, quando por passamos por lá, as videiras já estavam descansando, esperando a chegada da primavera para voltar a produzir, assim o campo está praticamente sem movimento. 

Mas os campos verdes, as pequenas propriedades rurais com suas vacarias, seus cavalos e suas outras criações, as variedades de cores do fim do outono, saindo de um verde escuro, passando por várias tonalidades de verde, laranja, amarelo, marrom e vermelho, dão a quem passeia pela região a impressão de que seria possível, para qualquer um, pintar um belíssimo quadro ou tirar aquela foto premiada.

Sentado em uma antiga cerca de pedras do período romano, apreciando um delicioso Pinot Noir enquanto o sol da tarde explorava todas as possibilidades das cores na paisagem dos campos nas imediações de Autun, não há como não concordar com Porter quando ao final do seu livro diz “que a vida é boa, não importa que mal possa haver no mundo, existe a Borgonha, existe o vinho, existe luz, existe o amor”.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Arbeit macht frei...





Arbeit macht frei... O trabalho liberta!

A frase inscrita no portão do campo nazista em Dachau, na Baviera, poderia até ser entendida como um exemplo da fina ironia do Terceiro Reich, não fosse a sombria verdade sobre aquele que se converteu no protótipo para uma dos mais atrozes instrumentos da máquina de guerra alemã durante a Segunda Guerra Mundial: os campos de concentração.

Não fosse, ademais, o fato que naquele campo, e apenas nele, mais de 30 mil vidas teriam sido ceifadas e outras centenas de milhares tiveram seus corpos torturados e suas almas mutiladas.

Hoje, o campo de concentração de Dachau é um museu aberto ao público de todas as nações e um passeio de fácil acesso, especialmente para aqueles que estão passando uns dias na belíssima cidade de Munique, distando cerca de 20 quilômetros da capital da Baviera.

Dachau, a cidade que lhe empresta o nome, é uma pequena e simpática urbe, como muitas típicas da região, com seus vinte e poucos mil habitantes, com casinhas alinhadas, ruas agradáveis de paralelepípedo, uma igreja protestante reconstruída depois da segunda guerra e uma tranqüilidade que, para alguns, pode ser até entediante.

Além do campo de concentração, a outra atração raramente visitada pelos turistas que para ali se deslocam, é o Palácio da cidade. Primeiro palácio de verão da dinastia Wittlesbach, Duques da Baviera, o palácio foi originalmente construído entre 1508 e 1579. Durante o Século XVIII o Palácio passou por sua primeira grande reforma e mais adiante, já no Século XIX, durante seu reinado, o Rei Max Joseph I demoliu 3 das 4 alas do palácio, de modo que para o visitante de hoje, o Palácio é uma belo edifício do Século XIX, com um café exclusivo, que proporciona uma muito bela vista da cidade e dos seus arredores.

O campo de concentração, assim, é a principal atração e motivação para os turistas que visitam Dachau. Estivemos lá em um lindo dia de outono. O céu estava de um azul de cinema e a temperatura era mais que agradável para um passeio ao ar livre. Mesmo assim, era impossível não sentir a atmosfera opressora do ambiente, a começar das grades de ferro dos portões, passando pelas celas em que muitos ficaram presos por anos a fio ou dos relatos de passagens mais horrorosas e torturas praticadas contra aquelas pessoas de uniforme listrado, coisas absolutamente inconcebíveis...

Por conta do seu caráter de protótipo, foi no campo de concentração de Dachau muitas das técnicas de tortura foram inicialmente testadas, como também, foram diversos os experimentos realizados com seres humanos, desde os mais simples, como para testar quanto tempo uma pessoa conseguiria sobreviver em água em temperaturas congelantes, até testes com drogas e tratamentos experimentais os mais horríveis. Isso sem falar da visita aos fornos onde milhares de corpos foram queimados ou nas salas de banho com chuveiros de gás venenoso.

A mim, pareceu-me impossível circular pelas dependências do campo de concentração sem sentir pesar sobre mim a tragédia de muitas gerações. Angústia pelo sofrimento das pessoas que foram brutalizadas naquelas dependências, despidas da mais elementar condição de humanidade, mas igualmente deprimido por aquelas pessoas que foram capazes de cometer tamanhas atrocidades, pessoas que, provavelmente, 10 anos antes você as encontraria em um café no centro de Munique lendo o jornal ou saindo do trabalho em uma indústria depois de mais um dia para tomar uma cerveja no caminho para suas famílias. Homens e mulheres respeitáveis que durante anos sujeitaram às piores condições homens e mulheres igualmente respeitáveis, apenas porque eram judeus, ciganos, negros, gays ou opositores do regime.

Essa atmosfera de opressão, em menor medida, contamina o livro A Costureira de Dachau escrito pela inglesa Mary Chamberlain. O livro conta a história de Ada Vaughan, uma jovem londrina, de origem humilde, muito bonita e exímia costureira, que no auge dos seus 19 anos se apaixona por um homem mais velho, um charmoso conde austro-húngaro e, contrariando seus pais e sua patroa de um ateliê de costura, resolve passar um fim de semana com seu novo amado em Paris. Às vésperas do início da guerra!

O idílio amoroso dos primeiros dias do romance logo se transforma em clima pesado e sofrido quando a guerra estoura e no esforço de fugir de volta para a Inglaterra via Bélgica, Ada finda abandonada pelo seu querido Stanislau na cidade de Namur logo quando os exércitos alemães iniciam o cerco à cidade. Desamparada e em desespero, Ada consegue abrigo em um convento da cidade e disfarçada como na pele da Irmã Clara é transferida, junto com as outras freiras de origem inglesa, para trabalhar em um asilo para idosos no centro de Munique.

Neste asilo ela conhece Herr Weiss, um velho e tarado professor que abusa da Irmã Clara e, em troca de favores sexuais consegue que a moça vá trabalhar como costureira para a mulher do comandante do campo de concentração de Dachau. É nesta casa, em regime de quase escravidão, que Ada∕Clara vai passar a maior parte dos cinco anos da guerra, sofrendo com a perda de seu bebê e sendo vítima de abusos e maus tratos, tanto dos donos da casa como do nobre professor Weiss, que vez ou outra vem visitá-la.

Nem mesmo o fim da guerra, sua libertação do casa do comandante do campo de concentração e do seu retorno para a Inglaterra, fazem com que o clima do livro se torne menos soturno ou menos triste. A recepção quando da sua chegada a Londres é pior que ela podia imaginar e a vida na capital inglesa depois da guerra é sofrida e especialmente difícil para uma mulher sozinha.

Mesmo que a história flua bem e a leitura seja agradável, o sofrimento e as agruras de Ada são nossa companhia durante praticamente toda a leitura do livro, desde o seu abandono em Namur até a última página. Os breves momentos da história que proporcionam o afastamento dos terrores da guerra e de suas seqüelas, logo se dissipam e o clima soturno e opressor da dura realidade retorna. 

Mais ou menos como na visita ao campo de concentração, o livro nos deixa com um sentimento de que existem momentos em que a humanidade é tão paradoxalmente desumana que não há como compreendê-la, traduzi-la ou aceitá-la.

O sexismo, o racismo, a nossa incapacidade de aceitar e respeitar o diferente, o outro, o alterno é tão presente, tão comum que não há como visitar ou ler sobre Dachau e não pensar no Charlie Hebdo, na Boate Bataclan, nas torres gêmeas, nas chacinas de jovens nas favelas brasileiras ou na aterrorizante imagem de assistir a um ser humano (???) assassinar outro com uma pedrada na cabeça enquanto ele dormia em uma cidade qualquer desse nosso Brasil, só porque morava na rua.


Às vezes a vida, não o trabalho, liberta o que há de pior em nós!!!!!

domingo, 20 de setembro de 2015

Catarina, Mecenas da Rússia...


A Nevskiy Prospect é a principal artéria da cidade de São Petersburgo na Rússia. Partindo de uma das esquinas do parque em frente ao Almirantado, vizinha à praça do Hermitage com seu imponente obelisco, a avenida corre numa diagonal até alcançar a Estação Moscou, de onde partem trens que ligam a Veneza do Norte à capital Russa.

Para os que esperam um bulevar, ao estilo Haussmanniano, tal qual uma versão russa da Champs Elisee de Paris, se decepcionarão. A avenida, projetada por Pedro, o Grande, cerca de um século antes das idéias do Barão Haussmann influenciar as urbes de todo o mundo, está mais para uma versão local da Broadway novaiorquina, claro que sem contar com o Time Square.

Isto em nada desmerece a avenida que, se o clima ajudar, deve ser aproveitada com uma caminhada sem pressa, apreciando cada uma de suas esquinas e canais. Ademais dos palacetes da rica nobreza russa, dos imponentes prédios comerciais e de muitas agências bancárias e casas de câmbio, várias das principais igrejas de São Petesburgo estão alinhadas com a avenida, a começar pela imponente Catedral de Nossa Senhora de Kazan, com sua pretensão de replicar na Rússia Czarista o estilo da Catedral de São Pedro em Roma.

De frente para a Catedral, do outro lado da avenida, às margens do canal Griboedov, está o interessante prédio da Companhia Singer, construído em estilo art nouveau, com uma excelente livraria (para russos, é claro!) e seu famoso café. Lançando o olhar mais adiante, seguindo as calmas águas do canal à sua frente vê-se, colorida e imponente, a Catedral do Sangue Derramado, mandada construir por Alexandre III no exato local onde um atentado promovido por anarquistas russos levou a morte de seu pai, o Tzar Alexandre II, no ano de 1881.

Seguindo mais adiante, passando por bancos, restaurantes, barzinhos bem simpáticos, pelo Palácio Stroganov (sim, eles mesmos, que inventaram o famoso estrogonofe) e mais igrejas, alcança-se uma aprazível pracinha, bem arborizada, a Ploshchad Ostrovskogo, também conhecida como Jardins de Catarina, por abrigar uma estátua de Catarina, a Grande.

Ao redor da praça estão outros dois importantes marcos da avenida: o prédio principal da Biblioteca Nacional da Rússia, a mais antiga biblioteca oficial do país, com cerca de 33 milhões de títulos, incluindo o mais antigo manuscrito em idioma russo, de 1057, e o Teatro Alexandrinsky, o mais antigo teatro nacional russo, fundado em 1756.

Sentando em um banco da praça me pus a pensar quão surpreendente saber ser esta a única estátua na cidade de São Petersburgo – em local público – a homenagear a princesa alemã que ascendeu ao trono russo depois de um golpe de Estado e que governou o país por mais de trinta anos, transformando, modernizando o Império Russo, deixando marcas indeléveis na cidade de São Petesburgo e seus arredores.

Silvia Miguens, no seu livro, Catarina, a Grande, deixa que Figchen, nos conte sua trajetória de vida. De uma criança herdeira da pequena nobreza alemã, nascida com o nome de Sofia Augusta Anhalt-Zerbst, Princesa de Holstein, que sofria de graves problemas de coluna que a obrigaram a usar um espartilho horroroso até a adolescência, viveu uma infância relativamente tranqüila nas terras de sua família e se tornou “Sua Majestade, Catarina II, imperatriz única e soberana de todas as Rússias” quando contava com 33 anos de idade.

Os livros de história nos contam a trajetória de Figchen-Catarina como a da mulher poderosa, que conspirou com amigos e amantes para derrubar e depois matar seu marido: o politicamente fraco e inconstante Pedro III. Muitos não acreditam que ela tivesse conhecimento desta parte do plano mas, coincidentemente, o assassino de Pedro foi o irmão Orlov mais novo. O golpe de Estado, dado quando o reinado de Pedro contava com menos de seis meses, a levou a assumir o trono da Rússia, formar uma aliança com a grande nobreza do país e com base nela governar por quase 35 anos, transformando seu país em uma das potências mundiais no final do século XVIII.

Já o livro de Silvia Miguens é narrado na primeira pessoa, como se fossem as memórias da Imperatriz, apresentando ao leitor como Figchen percebia e enfrentava as muitas situações desafiadoras que se colocaram ao longo de toda sua vida.

Ao descrever sua relação com Pedro Ulrico, o futuro Czar, Figchen é muito sincera ao reconhecer que “amava o tio George (sua paixão de adolescência), amava seus jogos, as suas idéias e a sua vitalidade. Mas também amava a possibilidade de reinar sobre o que ouvira serem vinte milhões de súditos. Sem dúvidas, com tio George era amor e com Pedro Ulrico não havia amor possível, via-se bem que se tratava apenas de um pacto”. E mesmo reconhecendo tal, não refreou sua ambição de governar a Rússia, ou melhor, usando as palavras que a autora pôs em sua boca, em uma conversa com sua mãe Catarina teria dito: “Não. Não quero governá-la; quero ser a Rússia. Devo ser a Rússia, a verdadeira mãe-pátria do povo russo”.

O marido mostrou-se não apenas inapetente nas artes do amor e da conquista, mas também e principalmente, despreparado para governar, fazendo com que os grupos de oposição a ele se fortalecessem dentro da própria Corte. Ainda assim, geraram Paulo, o herdeiro do casal, que logo foi tirado de seu convívio para viver com a sogra, a Tzarina Isabel. Prática que Catarina repetiria com os herdeiros de seu filho, apesar das queixas que tivera da sogra.

O fato de ter cumprindo as expectativas da Corte, gerando o Tzarevich, não afastou o futuro Tzar de suas amantes e seus brinquedos, muito menos a Czarina de seus favoritos, como o Príncipe Potenkim, que a ajudou a expandir a fronteira sul da Rússia, conquistando vastos territórios aos Otomanos e colonizando as estepes sul da Ucrânia; Stanislau Poniatowsky, que ela ajudou a se tornar rei da Polônia; ou como Gregory Orlov, provável pai de um dos filhos ilegítimos de Catarina e que, ou morreram ao nascer, ou foram enviados para serem criados por famílias da pequena nobreza russa, distantes de São Petersburgo.

Também no campo político logo ficaram claras as disputas entre a imperatriz, o Tzar e sua favorita, que procurava de todas as formas assumir o papel de rainha e tentava manter Catarina afastada das coisas do Império. Seu afastamento da corte, alojada no Peterhof, nas imediações de São Petersburgo, não apenas ajudou a esconder mais uma gravidez não planejada, como permitiu que ela conspirasse com os nobres leais – especialmente os irmãos Orlov – que em 9 de julho de 1762 desencadearam o golpe de Estado que a levou ao trono e mandou Pedro III para a prisão e depois para a morte.

O governo de Catarina navegou entre o conservadorismo de medidas que davam cada vez mais poder à nobreza russa, os boiardos, que exploravam brutalmente os camponeses e servos em toda a Rússia, e o iluminismo que florescia por toda a Europa, onde Catarina mantinha correspondências e amizade com figuras como Voltaire, Diderot e Montesquieu. Catarina personificava o despotismo esclarecido da Rússia e governou com base nesses princípios.

Para nós que visitamos São Petersburgo, a marca de Catarina está evidente em, pelo menos, duas das principais atrações da cidade: o Museu do Hermitage e o Palácio de Catarina, em Tsarkoe Selo, a cerca de 50 Km do centro da cidade.

Foi Catarina, amante das artes e dos intelectuais, que patrocinou a transformação do Palácio de Inverno dos Tzares no hoje mundialmente famoso museu do Hermitage, quando em 1764 financiou a aquisição de mais de duzentas obras de artistas flamengos e alemães, que formaram o núcleo original de sua coleção. Nos anos seguintes a Tzarina orientou a seus embaixadores por toda a Europa a comprar as coleções de nobres falidos ou de herdeiros que não viam valor nas peças, fazendo que o acervo do museu crescesse ano a ano.

Hoje, o Hermitage apresenta um acervo comparável com os existentes em museus como o Louvre, o Met ou o Prado. Porém, o museu de São Petersburgo supera todos eles por conta da beleza do prédio. São salões e mais salões que impressionam tanto pelas obras expostas, como pela suntuosidade de suas colunatas, escadarias, janelas e pisos. A profusão de dourados da Capela Imperial, a beleza da sala do trono, que é de tirar o fôlego, ou as escadarias construídas por Rastrelli, ainda no reinado da Tzarina Ana Ivanovna, por si só justificariam a visita ao museu.

Dizem que para apreciar toda a riqueza do Hermitage o visitante levaria uma década, ou mais!!! Felizmente para nós visitantes, que temos apenas poucas horas para dar conta desta imensidão, saber da impossibilidade de ver tudo, facilita que nos conformemos em escolher os pontos altos em exposição, pegar um mapa (mesmo assim correndo sério risco de se perder na imensidão do museu) e apreciar toda a beleza à sua volta.

Já o Palácio de Catarina, em Tsarkoe Selo, não oferece ao visitante uma coleção de arte como a do Hermitage. Localizado nas imediações de São Petersburgo, chegar lá por meio de trem ou ônibus é viável, mas considerando as dificuldades de entender o alfabeto russo e de se comunicar no idioma, já que são poucos os russos que falam inglês, o melhor mesmo é tomar uma excursão. Várias delas são oferecidas todos os dias na própria Nevskiy Prospect, nas imediações do Gostiny Dvor, o mais antigo shopping Center da cidade, construído na segunda metade do Século XVIII. Por segurança, talvez seja melhor contratar o pacote no hotel, mesmo.

Chegando lá, prepare-se para se assombrar com a beleza do Palácio de Catarina. Sua fachada de um azul delicado, esconde um palácio com uma arquitetura suntuosa, que une traços do barroco italiano com a tradição russa. Abusa-se do dourado e, segundo a opinião da guia Russa, que falava um espanhol fluente, a Galeria Dourada do Palácio supera em beleza a galeria dos espelhos do Versalhes. Se não a supera, concorre de igual para igual e o quarto de âmbar, este sim, é difícil de descrever.

Com todas as paredes cobertas com placas da resina fossilizada, o quarto explode em uma mistura de tons de amarelo, laranja, dourado, vermelhos e marrons que deixa o visitante boquiaberto. Apesar de desmontado, dado por desaparecido e parcialmente destruído durante a Segunda Grande Guerra, o impressionante esforço do povo russo, especialmente do povo de São Petersburgo, conseguiu devolver ao mundo, há menos de dez anos, este maravilhoso patrimônio da arte russa. É imperdível

Na saída, antes de tomar o caminho de volta para o centro da cidade, vale a pena apreciar os belos jardins que contornam o Palácio de Catarina ou, se o horário permitir, dar uma esticadinha para conhecer o Pavlosvky, o palácio construído por seu filho Paulo, nos terrenos que Catarina destinou para o seu sucessor quando do nascimento do seu primeiro neto. O palácio não tem a ostentação dos dois anteriores, pelo contrário, é pequeno e sóbrio quando comparado ao de Catarina ou ao Palácio de Inverno, mas tem belos jardins e, de fato, é um dos poucos palácios que conheço que dá a impressão que famílias normais ali viviam.

Ao chegar de volta ao centro, você pode até estar satisfeito com os passeios, mas assim como os mais de trinta anos de governo de Catarina, a Grande, transformaram a Rússia muito além da sua contribuição como mecenas das artes e da arquitetura, São Petersburgo também tem muito mais que o Hermitage e Tsarkoe Selo.

Mas não adianta tentar apreender tudo isto de um só golpe. No caminho de volta para o seu hotel, provavelmente mais uma vez passando pela Nevskiy Prospect, aproveite o gostoso fim de tarde para parar em um dos muitos cafés da avenida, tome uma vodka gelada e aprecie a beleza das cores da Veneza do Norte. Amanhã tem muito mais Rússia para visitar.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O escritor que roubava livros ou...


Era sexta de manhã, eu estava tomando café com meus pais em Brasília, quando meu pai me passou o livro do Miguel Sousa Tavares que trouxera de viagem recente a Lisboa.
O livro chamava-se Não se encontra o que se procura e ele, ao me passar o volume, foi logo alertando: - Ainda não li este livro que trouxe de Portugal, mas sua mãe já leu e disse que parece muito com as coisas que você tem escrito no seu blog. (nada modestos, nem ele nem ela!!)
Eu já tinha lido o Rio das Flores e o maravilhoso Equador, ambos do mesmo autor, e olhando para aquela capa em tonalidades de azul aceitei sem pestanejar a oferta, ainda mais porque estava a caminho do aeroporto para encarar as duas horas e meia que separam a capital federal de Fortaleza e tinha terminado o livro que trouxera.
Não se encontra o que se procura não é um romance, não é uma biografia, é, talvez, um diário, sem o rigor que se espera de um diário. São lembranças, notas, críticas, percepções, pequenas histórias, relatos de viagens e comentários dispersos por meio do qual Miguel Sousa Tavares se revela para o leitor, mesmo que não fosse este seu objetivo original. Mas quem sabe, seja objetivo de todo escritor.
Quando comecei a leitura tive a impressão que o autor se propunha a fazer pequenos relatos de suas viagens, boa parte delas relacionadas às suas atividades profissionais – participação em feiras literárias, lançamentos de livros, palestras e etc. – e não pude deixar de pensar que o Miguel Tavares tinha me roubado o livro que minha irmã Lília tanto me estimula a publicar.
Logo na apresentação do livro está lá: “Eu quero viver para escrever, viajar para escrever, olhar para escrever, estar vivo para escrever. Quero a África, a Ásia, as Américas devorando-me a cabeça”. Não sou de recorrer a citações literais neste blog, mas não podia ser mais parecido com o que eu sinto quando sento em frente ao laptop nas tarde-noites de domingo...
Mas não ficou só aí.
Na medida em que comecei a viajar com o livro, passando por tantos lugares já idos, pela sua admiração por Brasília, sua paixão pelo Brasil, suas excursões por África, seu amor por sua terra natal e a quase onipresença de sua mãe nas viagens e memórias, comecei a pensar que havia escolhido erradamente o título para este texto. Em lugar de brincar como título da menina que roubava livros deveria brincar com o do seu conterrâneo, emprestando o título da obra de Saramago: O Homem Duplicado.
Parecia que estava lendo as memórias que eu pretendia escrever quando chegasse aos meus 60 ou 70... 
Como não pensar nisso quando a primeira viagem que Miguel Tavares fez para fora de Portugal foi para a Espanha com sua mãe e está lá, nas suas memórias, como estará nas minhas, a experiência de ser apresentado ao El Greco e seu Enterro do Conde de Orgaz na visita a Toledo.
Ali no capitulo seguinte ou logo depois, nas criticas que faz à nova lei do divórcio aprovada em Portugal fico sabendo das duas separações e três casamentos (!), sem preocupar com a interveniência da Igreja. Como também ao contar a sua viagem para Veneza, para onde já fui, descubro que são três os filhos, sendo o mais velho e o mais novo, os homens e a filha a do meio. Mais exclamações!!!
E as viagens?!?!
Depois de Toledo, do sucesso como jornalista e escritor, e depois que descobriu a paixão pela caça e pelo off-road (aqui nada nos une) um desfiar de ir e vir em aviões...
O Brasil é destaque, ao longo de todo o livro, com muitas idas e vindas: Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Paraty, Búzios, Tiradentes, Congonhas do Campo, Ouro Preto, Brasília (com direito a um capítulo sobre a cidade), São Paulo (com almoço no Figueira), Palmas, até um off road entre o Ceará e o Rio Grande do Norte estão nas memórias que Tavares me antecipa. Mas não são só essas!
Visitar o Parque Kruger na África do Sul sofrendo ao ter que dirigir na mão inglesa e a necessária passada por Nelspruit, (onde quase atropelei uma bomba de gasolina); admirar-se com o encontro de mundos e povos da indecifrável Istambul (tomando um suco de romã); perambular por Roma, achar um restaurante sem turistas e se deliciar com a cidade que a cada esquina te surpreende. 
Tudo está nas minhas memórias e nas dele.
Aproveitar a Espanha, percorrendo os corredores do Prado ou os andares do Rainha Sofia; se embasbacar com a beleza estonteante da Alhambra, tendo o cume da Sierra Nevada a velar por Granada; ou, estando em Barcelona, olhar criticamente à obra demencial (na versão de Tavares) de Gaudí: a interminável Catedral da Sagrada Família (que parece que agora foi dada por finalizada!).
Isto sem mencionar a viagem para a costa da Croácia que abre o livro e que eu tinha planejado para este ano, mas que acho que vai ficar para 2016. E que certamente estará nas memórias que Tavares vêm antecipando, me roubando o livro.
Mesmo nas referências portuguesas, tantas dele e tão poucas as minhas, me reencontro com Viana do Castelo e suas belas ruas calçadas; com Évora e o almoço no Fialho, tomando um Marquês de Montemor; da passagem por Vila Nova de Gaia, ao retornar a Lisboa do Alentejo ou a vista do Estádio do Dragão logo na entrada do Porto. Também lá estive.
Isto, sem falar na enorme dívida que tenho com minhas memórias de até agora não ter me obrigado a ir ao Algarve, visitar Sagres e as terras que ele, Tavares, tanto ama e que é uma constante ao longo do livro. 
Tudo isto parece com o que terei que escrever no futuro.
Não sei se outras pessoas que vierem a ler este livro experimentarão o mesmo, mas se este é um blog sobre livros e viagens, achei que poderia compartilhar com vocês a surpresa de viajar na minha história, lendo a história de outra pessoa.
Mas acho que é, essencialmente, para isso que uns escrevem e outros leem.

Pelo menos é assim para mim.