quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

América Dividida


O mundo inteiro assistiu, estarrecido, à malograda tentativa de alguns partidários do Presidente Trump de invadir o prédio do Capitólio, em Washington, para tentar evitar a homologação da eleição de Joe Biden como o 46º presidente norte americano.

Insuflados pelo discurso presidencial, cheio de sugestivas insinuações quanto à ilegalidade do processo eleitoral em que foi derrotado, os partidários de Trump marcharam pela Pennsylvania Avenue em direção à sede do parlamento onde, depois de atos de vandalismo e violência generalizada, foram expulsos, sem conseguir seus objetivos e deixando para trás quatro mortos.

A inusitada condução da sucessão presidencial contrasta, em tudo, com o clima de respeito e com o ambiente pacífico que quase sempre marcaram a vida na capital norte americana.

Em abril de 2019 ali estive para participar de um evento promovido pelo Banco Mundial para apresentar a bem sucedida experiência de gestão do saneamento rural patrocinada pelo Governo do Estado do Ceará e pela CAGECE, o SISAR.

Como cheguei na cidade na noite do sábado que antecedia à abertura do evento, depois de um longo voo com conexões em São Paulo e no Panamá, aproveitei o domingo livre para turistar em suas áreas centrais. Havia muito tempo desde a última vez que ali estivera e, aproveitando o lindo dia que fazia, fui rever a Washington monumental.

Embora fosse uma boa caminhada, como era um domingo livre, decidi ir do meu hotel em Georgetown até a Casa Branca caminhando. Apesar do sol e de praticamente nenhuma nuvem no céu, o dia estava agradável e corria um vento frio que vinha do Potomac o que me obrigava a evitar os locais mais sombreados.

Depois de passear pelas belas ruas do bairro, com suas casinhas coloridas, atravessei a ponte em direção à Pennsylvania Avenue e de lá alcancei a Casa Branca pela Praça Lafayette, onde alguns gatos pingados protestavam contra o governo sobre temas variados sob o olhar vigilante dos policiais que guardavam aquela parte da residência presidencial.

Depois de acompanhar o movimento e tentar tirar algumas boas fotos do local, contornei o prédio da residência presidencial, atravessei a elipse e cheguei ao obelisco que homenageia George Washington.

O mês de abril é o período em que as cerejeiras florescem e, naquele ano, as inúmeras cerejeiras que ornamentam as calçadas e ruas que ligam os quase 4 km que separam o Capitólio ao Lincoln Memorial, produziam um espetáculo à parte, contrastando o rosa de suas flores com o azul irretocável do céu.

As primeiras cerejeiras chegaram à capital americana como um presente do governo japonês, depois da Segunda Guerra, e nas imediações do Lincoln Memorial há um jardim japonês e uma referência à data em que as primeiras árvores chegaram em solo americano.

Era domingo, mas os monumentos não estavam muito cheios e, consequentemente, o passeio rendeu. Optei por começa-lo tomando à esquerda e pegar o rumo do prédio que abriga as duas casas legislativas americanas. No caminho, aproveitei para apreciar a arquitetura dos prédios do Smithsonian e entrei no Castelo de tijolos vermelhos, onde fiz uma rápida pausa da caminhada e um lanche rápido.

De lá, como colecionador de moedas, fiz uma visita ao Bureau of Engraving and Printing para atualizar a coleção de quarters americanos e segui para os memoriais em homenagem a Jefferson, Lincoln, Luther King, Roosevelt e aos milhares de americanos que deram sua vida nos muitos conflitos armados que aquele país se envolveu.

Não há como fazer este circuito e não se impressionar com o respeito com que os americanos tratam suas instituições, sua história e seus heróis, conhecidos e desconhecidos. O que faz com que os eventos de janeiro de 2021 sejam ainda mais surpreendentes.

Como se aproximava o fim do dia, tomei o caminho de volta a Georgetown pois tinha combinado com alguns companheiros do evento do Banco Mundial de tomar um vinho em um bar às margens do Potomac, curtindo uma boa música e apreciando o por de sol, que naquela tarde foi espetacular.

No trajeto, nas proximidades do hotel, parei em uma pequena livraria e por menos de 10 dólares comprei um livro que tratava de um dos personagens homenageados nos monumentos e até hoje reverenciado por sua decisiva participação na Independência dos EUA: Thomas Jefferson.

Friends Divided, de autoria do ganhador do Prêmio Pulitzer Gordon S. Wood, é uma dupla biografia, tendo como eixo orientador a fundação da República Norte Americana e as relações pessoais e políticas de dois dos principais “Fouding Fathers”: Jefferson e John Adams.

Enquanto Jefferson ganhou notoriedade como o autor da Declaração de Independência assinada em 4 de julho de 1776, Adams foi quem concebeu as principais instituições da nascente república democrática e orientou a redação da  maior parte das constituições das províncias que se transformavam em estados.

Oriundos de experiências de vida muito distintas - enquanto Adams era um advogado de famílias pobre no Norte, Jefferson era rico proprietário de terras e de escravos no Sul - os dois se tornaram amigos durante as temporadas passadas na Filadélfia, construindo a nova nação, enquanto Washington combatia os ingleses nas Guerras da Independência.

As divergências políticas que nasceram neste processo levaram ao afastamento dos amigos, justificando o título do livro de Wood e evidenciando como a nação americana fora resultado, desde o nascedouro, da possibilidade que antagonistas no pensamento e adversários na política fossem capazes de construir a nação que, 200 anos depois, seria a principal potência mundial.

O respeito mútuo e a moderação, que normalmente a velhice é capaz de trazer, fez com que ao final da vida, Adams e Jefferson se reconciliassem e voltassem a se corresponder como bons e velhos amigos, isto depois de terem sido o segundo e o terceiro presidentes dos EUA.

Lembrando os ensinamentos do livro de Wood e voltando à Washington do Século XXI, é impossível não nos perguntarmos qual foi o momento em que os EUA e, a meu ver, quase todo o mundo, perdeu a crença no diálogo, no entendimento e na capacidade das instituições democráticas de nos ajudar a construir um mundo melhor, onde a busca da felicidade seja direito inalienável de todos.







domingo, 2 de setembro de 2018

Uma vez fui a Lima, outra vez fui a Lima...



Contava meu pai que o finado Augusto Morcego, companheiro de boemia do Lustosa da Costa, fazia troça do escancarado amor de meu tio por Sobral declamando uma infame quadrinha em que, em tom de reclamação e ironia dizia: “Uma vez fui a Sobral, outra vez fui a Sobral... Nunca mais vou a Sobral!”

Sem querer comparar a capital peruana com a princesinha do Norte, aqui neste mesmo blog escrevi sobre Lima em tons não muito lisonjeiros, reclamando do excesso de cinza da cidade. Pareceu-me então, uma cidade propícia à depressão e à melancolia, algo distante do desejado para viagens e passeios. Assim, voltei de lá com a sensação de que nunca mais regressaria.

Mas, como dizem por aí, nunca é muito tempo. Estimulado pela Mita e pela companhia dos filhos cearenses, me vi obrigado a regressar a Lima em uma escala necessária para chegar aos nossos objetivos, Cusco e Machu Picchu.

A experiência se assemelhou a quando, por conta da escola dos filhos, a gente é obrigado a voltar a ler e falar sobre aqueles livros chatos, de autores de referência, que enfrentamos nos bancos escolares para nunca mais encontrá-los ao longo da vida. 

Vinte anos depois, livros que pareceram entediantes e intermináveis, como Os Sertões do Euclides da Cunha ou O Alienista de Machado de Assis, ganham uma nova cor, uma nova perspectiva, quando por fim se descobre a fina ironia machadiana, que o frescor da juventude e a ignorância que a acompanha não permitiam identificar, ou ainda, o deleite de encontrar na precisão jornalística d’ Os Sertões, os cenários, as diferentes visões de mundo e uma beleza que, em geral, só anos vividos permitem.

E,assim como acontece com os livros, aconteceu com Lima.

Ao contrário da Lima cinza e melancólica, encontrei um cenário de luz e movimento. Uma cidade limpa e organizada, ainda que o trânsito continuasse caótico e enervante, com sua zona central redescoberta. A Plaza de Armas, a Catedral e seu entorno, uma charmosa rua com casas restauradas do período Colonial, o Jiron Ancash, e o Parque de La Muralla, que resgata ruínas da antiga cidade, de quando Lima era capital o Vice Reinado do Peru, tudo convida a passear e se perder nas ruas do centro.

Miraflores e San Isidro, que ainda abrigam boa parte da nova nobreza limenha, estão cada vez mais interessantes. Além da série de parques que acompanha o Malecón de La Reserva, se debruçando sobre a estonteante beleza do Pacífico e do tradicional shopping Larcomar, os bairros abrigam um sem número de restaurantes laureados que fazem da cozinha peruana uma referência internacional e obrigam o visitante a experimentar uma culinária que vai além dos tradicionais piscos e ceviches, embora, para mim, ambos permaneçam na lista de favoritos.

Mas ainda há mais para Lima. Com novos bairros boêmios, sítios arqueológicos e museus temáticos, a cidade se oferece para o turista com muitas facetas. Sem falar no píer onde está o Rosa Náutica, que tem um dos fins de tarde mais belos da vizinhança e, na companhia adequada, com um vinho branco ou um pisco sour, é lugar mais que apropriado para descontrair e jogar conversa fora, especialmente para aqueles que têm tempo para isso.

Por sinal, esta é uma das vantagens de ir mais de uma vez a um lugar. Na primeira, a gente é consumido por uma avidez da experiência, uma necessidade de ver tudo e de fazer tudo. Quando se vai outra vez, é possível melhor aproveitar o que o lugar tem para oferecer. Sua pressa e sua calmaria, seus pontos turísticos e seus pontos de encontro. Os restaurantes recomendados e aqueles que só os locais sabem existir. O novo não é mais a novidade, mas a vivência. Não é mais uma questão de ver e de estar, mas uma questão de sentir.
Assim como os livros, da primeira vez o desafio é terminar, consumir, contar que a missão foi cumprida. Na segunda, é possível sentir, viajar nas páginas, nas personagens, na história e traduzir isso para a vida. Ao contrário do que ameaçava Augusto Morcego, na próxima vez que voltar, descobrirei mais uma vez Sobral, Lima ou, quem sabe, a mim mesmo.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Vichy: Capital de uma França Dividida.



Não sei se por conta dos 70 anos do fim da Segunda Grande Guerra ou por mera coincidência, mas nos últimos meses inúmeros têm sido os livros – romances, diários, relatos – tratando sobre eventos e curiosidades da guerra que matou milhões de pessoas e transformou radicalmente o mundo em que vivemos.

Outro dia comecei a ler O Rouxinol, romance histórico da inglesa Kristin Hannah que conta a história de duas irmãs que por suas condições e circunstâncias acabam participando de maneiras bem distintas da guerra na França.

Enquanto a irmã mais velha, Vianne, que no começo do conflito já era casada e tinha filhos, precisa se ajustar à realidade da ocupação alemã, sua irmã mais nova, Isabelle, com pouco mais de 19 anos na época, se rebela e vai participar ativamente do movimento de resistência francesa.

O romance, que se passa entre a Paris ocupada, a pequena cidade ficcional de Carriveau no vale do Loire e a fronteira da França com a Espanha, aproveita o dilema vivido pelas duas irmãs Rossignol para apresentar o dilema que quase toda a população francesa teve que enfrentar durante a Segunda Guerra, obrigada a conviver, compactuar e, em muitos casos, colaborar com os ocupantes nazistas. Mas ao tempo que colaborava, se revoltava, resistia e sabotava as tropas nazistas.

Assim no país, assim entre as irmãs. Além de perder o marido para a guerra, que virou prisioneiro logo nos primeiros meses do combate, Vianne tem os quartos da casa em que vive com sua filha confiscados pelo exército alemão e durante toda ocupação é obrigada a conviver e servir os oficiais alemães que ficam ali hospedados.

Sua irmã, ao contrário, depois de expulsa de Paris pelo pai, chega a Carriveau para viver com a irmã, mas logo se mostra incapaz de conviver com aquela situação de humilhante dominação e finda por aderir ao movimento de resistência francesa, se tornando importante agente do movimento, ajudando pilotos aliados que caem atrás das linhas alemãs a escapar do país pela fronteira espanhola.

Claro que as diferentes escolhas colocam as irmãs em posições antagônicas no palco da guerra e, em certo sentido, permite que o leitor especule sobre o sentimento de “coisa mal resolvida” do período em que parcela da população francesa, sob a batuta do governo colaboracionista de Vichy e do Marechal Petáin, conviveu, transacionou, lucrou e compactuou com o nazismo nas suas piores manifestações.

Talvez por isto que o romance, embora pudesse proporcionar uma interessante viagem entre Paris e os Pirineus, me leve para a antiga capital do governo colaboracionista, uma pequena e pacata estância terapêutica, com suas águas minerais curativas, localizada na parte central da França: Vichy.

Frequentada por suas qualidades terapêuticas e medicinais desde tempos imemoriais, as fontes de águas curativas de Vichy tiveram seu auge durante o período de Napoleão III, na segunda metade do século XIX, quando reis, príncipes e a nobreza de boa parte da Europa vinham à cidade-balneário para tratamentos, festas e, principalmente, para verem e serem vistos.

Depois da Primeira Grande Guerra, a cidade ficou esquecida até que, depois da invasão alemã em 1940 e do acordo firmado por Petáin com Hitler, Vichy foi elevada à categoria de capital do governo colaboracionista, enquanto que na Inglaterra se proclamava o governo da França Livre.

Estive em Vichy em novembro de 2014 para comemorar o aniversário de 70 anos do meu pai. Naquele momento eu estava em Paris, minha irmã Lília morando em Genebra e a minha outra irmã, a Ana, estava em Poitiers fazendo seu mestrado. Precisávamos encontrar um lugar para festejar que fosse equidistante para todos nós e a escolha recaiu sobre Vichy.

Vichy é uma “pequena e pacata cidade” no maciço central da França, com ruas arborizadas que ganham um colorido todo especial nos meses de outono. Às margens do Rio Allier há um parque público, com direito a calçadão e parquinhos para as crianças brincarem. Nos dias de sol no outono ambos ficam apinhados de jovens famílias que aproveitam os últimos dias de sol e algum calor antes da chegada do inverno.

São muito poucas as referências do período em que a cidade foi capital da França. É verdade que no parque defronte ao Cassino e à Ópera, onde estão algumas das fontes de águas termais mais antigas, há uma placa em que o governo da França reconhece o lastimável papel que desempenhou no triste evento que entrou para a história como o massacre do Velódromo de Inverno, quando milhares de judeus franceses foram entregues pelo Governo de Vichy aos campos de concentração alemães.

Depois de alguma pesquisa ainda encontrei um livro que fala dos prédios da cidade que abrigaram ministérios, embaixadas e outros órgãos governamentais durante o período da ocupação, mas é só isto. A sensação é que ainda há um sentimento local e nacional de vergonha por ter participado de uma ridícula farsa, um governo fantoche e subalterno.

Em “O Rouxinol” há uma tentativa, por parte da autora, de mostrar – não diria defender – as difíceis escolhas a que foram expostas as pessoas que ficaram na área ocupada pelos nazistas e que, para poderem sobreviver, de uma forma ou de outra precisaram conviver com a nova realidade, trabalhando com e para os alemães, tentando levar uma vida “normal” nos mais de quatro anos que grande parte da França ficou sob o tacão do nazismo.

Ao fim, o leitor fica com a sensação de que a irmã que fica e que “colabora” acaba sendo tão brava e tão sobrevivente quanto aquela que se converte em heroína da resistência francesa. É como se o livro dissesse que não há uma forma apenas de resistir a qualquer tipo de opressão.

Para nós, que estivemos em Vichy setenta anos depois que a cidade deixou de ser capital de uma França dividida, o que valeu mesmo foi o excelente jantar no restaurante Maison Decoret, onde também estávamos hospedados, quando comemoramos o aniversário do Dr. Paulo e reafirmamos nossa convicção, que é mensagem do livro de Kristin Hannah, que qualquer que seja a adversidade, é na família que encontramos a força para seguir vivendo.

Pena que o Carlos não pôde ir.

domingo, 24 de janeiro de 2016

O Espírito da Borgonha



Livros, viagens e vinhos formam uma combinação quase imbatível!

Assim, quando comprei o livro “A História do Romanée-Conti e a Trama para Destruir o Melhor Vinho do Mundo”, do jornalista americano Maximillian Porter, já desconfiava que ele poderia render uma página para o Ler & Viver, mas não tinha certeza.

A tal trama para destruir os vinhedos da Romanée-Conti (DRC), estrela maior da produção de vinhos da região de Borgonha, no leste da França, tem início quando em 2010 um ex-presidiário oriundo da região de Champagne tentou envenenar as vinhas do Domaine como forma de extorquir seus proprietários e com isto obter um resgate valioso. 
 
A trama policial não rendeu um romance de primeira grandeza. Situo a narrativa da investigação francesa a léguas de distância das sofisticadas conclusões de um Poirot ou da ação cerebral de um Holmes, que nos fazem investir em noites de insônia para chegar o mais depressa possível ao criminoso e depois ficar lamentando porque o livro acabou tão rapidamente. 
 
Mas o livro tem suas qualidades para quem viaja na leitura. Pois, narrar da tentativa de extorsão permitiu ao autor contar a história da vinicultura na Borgonha, desde o período do império Romano, passando pela chegada dos monges beneditinos na região na baixa idade média, pela história da compra da vinícola pelo Príncipe Conti, primo-irmão do Rei Luis XV da França e adversário político da famosa Madame Pompadour, com quem disputou a compra dos já famosos vinhedos da Côte D’Or, até chegar à família Vilaine, atual proprietária do DRC e protagonista do evento policialesco narrado no livro.

Assim, apesar de um romance policial de qualidade sofrível, o livro vale pelas interessantes informações que traz sobre os vinhos da região e do mundo, informações e explicações sobre a história da vinicultura na França e especialmente na região de Borgonha; explicações sobre as denominações de origem controlada, sobre o funcionamento do mercado de vinhos ou sobre como os vinhedos e os vignerons franceses sobreviveram às as duas grandes guerras deste século XX.

Coisas que são interessantes para quem aprecia o vinho ou que podem ser usadas para animar uma conversa entre amigos quando o papo no restaurante já começa a perder ritmo. Tipo: saber o que representa a classificação “Gran Cru”, coisa que eu até então ignorava; ou, a curiosa história do “Julgamento de Paris”, em meados dos anos 70, quando os cabernet e os chardonnay californianos venceram seus rivais de Bordeaux (os tintos) e da Borgonha (os brancos) em uma prova de degustação com a participação de renomados conhecedores do vinho, a maior parte deles franceses!!

Mas o bom mesmo do livro é voltar à Dijon e à Borgonha! São as referências à cidade, à Beaune, à Autun e às muitas pequenas vilas pelas quais se vai apreciando a maravilhosa paisagem das pequenas fazendas, dos vinhedos e de uma vida que corre, pelo menos na aparência, de uma forma tranquila e pacata.

Dijon, a principal cidade da Cotê D’Or e da região, foi sede de Reino, de Ducado e é uma das cidades mais charmosas que conheci. O centro histórico da cidade, patrimônio da UNESCO é bem grande e oferece um sem número de atrações para quem está de passagem ou para quem pretende gastar alguns dias aproveitando as delícias da região.

Lá chegamos no começo da noite e nos hospedamos no Hotel Wilson que, inicialmente, causou uma má impressão porque parecia uma casa de taipa, de tão baixa que era a edificação. Depois descobrimos que o hotel era muito antigo e o que havia subido era o nível da rua, ou seja, o prédio não era baixo a calçada é que era alta e, ao contrário do que temíamos, era agradável, aconchegante e muito bem localizado.

À noite Dijon é linda! Os principais monumentos recebem uma iluminação especial que destaca seus traços mais imponentes e atrai a atenção do visitante para os pontos altos da cidade, a começar pela belíssima Place de La Liberátion com seu arco de colunas, que fica de frente para o antigo palácio ducal que hoje abriga o Museu de Belas Artes.

De lá, as corujas – símbolo da cidade – formam uma trilha com setas de bronze que orientam os turistas em um passeio por todo o centro histórico, não deixando que você perca nenhuma das principais atrações da cidade, recheada de belas igrejas e interessantes prédios e museus. Mas à noite, com frio, o bom mesmo é ir para o Marché des Halles, que nesta hora estará fechado, e escolher um dos vários restaurantes que ficam à sua volta para apreciar a comida da região e, é claro, os vinhos.

À luz do dia a cidade é ainda mais bonita e cheia de vida. As ruas do centro ficam cheias de pessoas e de animação. Mesmo nos dias mais frios, as lojas, os cafés, os restaurantes, os museus e as esquinas da Rue da La Liberté e de seu entorno estavam ocupados, sem estarem lotados. As pessoas tomavam a cidade para si e isto fazia que houvesse este clima de tranquila segurança, que faz com que se queira passear por todos os lugares, entrar em cada beco, sentar em cada pracinha e observar a vida acontecendo.

Mas a Borgonha é mais que Dijon. A estrada que liga Dijon a Beaune, a capital dos vinhos, passa pelos principais vinhedos da região e deve ser de uma beleza cinematográfica no período da safra. Em novembro, quando por passamos por lá, as videiras já estavam descansando, esperando a chegada da primavera para voltar a produzir, assim o campo está praticamente sem movimento. 

Mas os campos verdes, as pequenas propriedades rurais com suas vacarias, seus cavalos e suas outras criações, as variedades de cores do fim do outono, saindo de um verde escuro, passando por várias tonalidades de verde, laranja, amarelo, marrom e vermelho, dão a quem passeia pela região a impressão de que seria possível, para qualquer um, pintar um belíssimo quadro ou tirar aquela foto premiada.

Sentado em uma antiga cerca de pedras do período romano, apreciando um delicioso Pinot Noir enquanto o sol da tarde explorava todas as possibilidades das cores na paisagem dos campos nas imediações de Autun, não há como não concordar com Porter quando ao final do seu livro diz “que a vida é boa, não importa que mal possa haver no mundo, existe a Borgonha, existe o vinho, existe luz, existe o amor”.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Arbeit macht frei...





Arbeit macht frei... O trabalho liberta!

A frase inscrita no portão do campo nazista em Dachau, na Baviera, poderia até ser entendida como um exemplo da fina ironia do Terceiro Reich, não fosse a sombria verdade sobre aquele que se converteu no protótipo para uma dos mais atrozes instrumentos da máquina de guerra alemã durante a Segunda Guerra Mundial: os campos de concentração.

Não fosse, ademais, o fato que naquele campo, e apenas nele, mais de 30 mil vidas teriam sido ceifadas e outras centenas de milhares tiveram seus corpos torturados e suas almas mutiladas.

Hoje, o campo de concentração de Dachau é um museu aberto ao público de todas as nações e um passeio de fácil acesso, especialmente para aqueles que estão passando uns dias na belíssima cidade de Munique, distando cerca de 20 quilômetros da capital da Baviera.

Dachau, a cidade que lhe empresta o nome, é uma pequena e simpática urbe, como muitas típicas da região, com seus vinte e poucos mil habitantes, com casinhas alinhadas, ruas agradáveis de paralelepípedo, uma igreja protestante reconstruída depois da segunda guerra e uma tranqüilidade que, para alguns, pode ser até entediante.

Além do campo de concentração, a outra atração raramente visitada pelos turistas que para ali se deslocam, é o Palácio da cidade. Primeiro palácio de verão da dinastia Wittlesbach, Duques da Baviera, o palácio foi originalmente construído entre 1508 e 1579. Durante o Século XVIII o Palácio passou por sua primeira grande reforma e mais adiante, já no Século XIX, durante seu reinado, o Rei Max Joseph I demoliu 3 das 4 alas do palácio, de modo que para o visitante de hoje, o Palácio é uma belo edifício do Século XIX, com um café exclusivo, que proporciona uma muito bela vista da cidade e dos seus arredores.

O campo de concentração, assim, é a principal atração e motivação para os turistas que visitam Dachau. Estivemos lá em um lindo dia de outono. O céu estava de um azul de cinema e a temperatura era mais que agradável para um passeio ao ar livre. Mesmo assim, era impossível não sentir a atmosfera opressora do ambiente, a começar das grades de ferro dos portões, passando pelas celas em que muitos ficaram presos por anos a fio ou dos relatos de passagens mais horrorosas e torturas praticadas contra aquelas pessoas de uniforme listrado, coisas absolutamente inconcebíveis...

Por conta do seu caráter de protótipo, foi no campo de concentração de Dachau muitas das técnicas de tortura foram inicialmente testadas, como também, foram diversos os experimentos realizados com seres humanos, desde os mais simples, como para testar quanto tempo uma pessoa conseguiria sobreviver em água em temperaturas congelantes, até testes com drogas e tratamentos experimentais os mais horríveis. Isso sem falar da visita aos fornos onde milhares de corpos foram queimados ou nas salas de banho com chuveiros de gás venenoso.

A mim, pareceu-me impossível circular pelas dependências do campo de concentração sem sentir pesar sobre mim a tragédia de muitas gerações. Angústia pelo sofrimento das pessoas que foram brutalizadas naquelas dependências, despidas da mais elementar condição de humanidade, mas igualmente deprimido por aquelas pessoas que foram capazes de cometer tamanhas atrocidades, pessoas que, provavelmente, 10 anos antes você as encontraria em um café no centro de Munique lendo o jornal ou saindo do trabalho em uma indústria depois de mais um dia para tomar uma cerveja no caminho para suas famílias. Homens e mulheres respeitáveis que durante anos sujeitaram às piores condições homens e mulheres igualmente respeitáveis, apenas porque eram judeus, ciganos, negros, gays ou opositores do regime.

Essa atmosfera de opressão, em menor medida, contamina o livro A Costureira de Dachau escrito pela inglesa Mary Chamberlain. O livro conta a história de Ada Vaughan, uma jovem londrina, de origem humilde, muito bonita e exímia costureira, que no auge dos seus 19 anos se apaixona por um homem mais velho, um charmoso conde austro-húngaro e, contrariando seus pais e sua patroa de um ateliê de costura, resolve passar um fim de semana com seu novo amado em Paris. Às vésperas do início da guerra!

O idílio amoroso dos primeiros dias do romance logo se transforma em clima pesado e sofrido quando a guerra estoura e no esforço de fugir de volta para a Inglaterra via Bélgica, Ada finda abandonada pelo seu querido Stanislau na cidade de Namur logo quando os exércitos alemães iniciam o cerco à cidade. Desamparada e em desespero, Ada consegue abrigo em um convento da cidade e disfarçada como na pele da Irmã Clara é transferida, junto com as outras freiras de origem inglesa, para trabalhar em um asilo para idosos no centro de Munique.

Neste asilo ela conhece Herr Weiss, um velho e tarado professor que abusa da Irmã Clara e, em troca de favores sexuais consegue que a moça vá trabalhar como costureira para a mulher do comandante do campo de concentração de Dachau. É nesta casa, em regime de quase escravidão, que Ada∕Clara vai passar a maior parte dos cinco anos da guerra, sofrendo com a perda de seu bebê e sendo vítima de abusos e maus tratos, tanto dos donos da casa como do nobre professor Weiss, que vez ou outra vem visitá-la.

Nem mesmo o fim da guerra, sua libertação do casa do comandante do campo de concentração e do seu retorno para a Inglaterra, fazem com que o clima do livro se torne menos soturno ou menos triste. A recepção quando da sua chegada a Londres é pior que ela podia imaginar e a vida na capital inglesa depois da guerra é sofrida e especialmente difícil para uma mulher sozinha.

Mesmo que a história flua bem e a leitura seja agradável, o sofrimento e as agruras de Ada são nossa companhia durante praticamente toda a leitura do livro, desde o seu abandono em Namur até a última página. Os breves momentos da história que proporcionam o afastamento dos terrores da guerra e de suas seqüelas, logo se dissipam e o clima soturno e opressor da dura realidade retorna. 

Mais ou menos como na visita ao campo de concentração, o livro nos deixa com um sentimento de que existem momentos em que a humanidade é tão paradoxalmente desumana que não há como compreendê-la, traduzi-la ou aceitá-la.

O sexismo, o racismo, a nossa incapacidade de aceitar e respeitar o diferente, o outro, o alterno é tão presente, tão comum que não há como visitar ou ler sobre Dachau e não pensar no Charlie Hebdo, na Boate Bataclan, nas torres gêmeas, nas chacinas de jovens nas favelas brasileiras ou na aterrorizante imagem de assistir a um ser humano (???) assassinar outro com uma pedrada na cabeça enquanto ele dormia em uma cidade qualquer desse nosso Brasil, só porque morava na rua.


Às vezes a vida, não o trabalho, liberta o que há de pior em nós!!!!!