domingo, 4 de abril de 2021

Catarina, Governante da França.


Reputa-se a Mao Tsé Tung a afirmação de que “a política é uma guerra sem derramamento de sangue, e a guerra uma política com derramamento de sangue”, mas acredito que poucos viveram esta situação quanto Catarina de Medice. Isso, considerando a história narrada por Leonie Freida, no livro, Catarina de Medice, A Rainha que Mudou a França.

Oriunda da rica família que controlou Florença durante décadas, Catarina chegou à França em função de um arranjo político. O Rei daquele país tinha grandes interesses nas porções setentrionais da atual Itália, terras que também eram cobiçadas pelo Rei da Espanha e pelo Sacro Imperador, e para fortalecer os argumentos de suas pretensões territoriais achou por bem casar seu segundo filho com uma descendente da família da Toscana.

A jovem Catarina chegou à Corte Francesa ainda adolescente e, apesar da boa acolhida de seu sogro, logo se descobriu vítima de preconceitos, tanto por sua origem plebeia, como por ser italiana. Para piorar, o jovem príncipe com quem se casara nutria uma paixão, que manteria até sua morte, por uma mulher mais velha e mais experiente que ela, a viúva Diana de Poitier.

Como estratégia de sobrevivência Catarina se empenha em cair nas boas graças do sogro e, quando o Delfin, o herdeiro natural ao trono, falece, se vê ainda mais ameaçada pelas intrigas e disputas da Corte, agora que era potencial rainha da França. Até chegam a cogitar a anulação de seu casamento, pois sua família tinha caído em desgraça na politica florentina e vários anos tinham se passado e nada dela gerar herdeiros.

Mas Catarina não era facilmente derrotada. Tamanho seu empenho, que chegou a se esconder no quarto do marido para assisti-lo em plena ação com sua amada e entender o que eles dois estavam fazendo de errado. Se esta foi a razão ou não, o que se sabe é que depois da pesquisa, certamente muito dolorida, o casal real não parou mais de procriar, com Catarina dando ao seu amado Henrique II, dez filhos.

Catarina não tinha 40 anos quando, em um acidente em um torneio de Cavaleiros no pátio do Palácio, seu marido teve o olho trespassado por uma lança e a ferida, depois de infeccionar, acabou matando o Rei da França, deixando como sucessor seu adoentado filho mais velho, Francisco II, que na época contava com pouco mais de 15 anos.

É neste momento que Catarina sai das sombras. De imediato, expulsa da Corte a rival Poitier e seu grupo e, torna-se governante da França, reinando em nome de seu filho, se equilibrando entre os interesses das duas principais famílias da Corte: os Burbons, primos dos Valois, príncipes de sangue; e os Guise, nobres menores, mas com uma ambição e um apetite que, por meio de casamentos e arranjos, procuravam ampliar seus poderes e fortunas, ameaçando a continuidade da Casa de Valois.

A saúde frágil dos filhos fez com que Catarina tivesse não apenas um filho rei da França, mas três. Em sucessão, Francisco II, Carlos IX e Henrique III reinaram sobre a França, tendo a mãe como a principal conselheira e, no mais das vezes como a governante de fato.

Com sua habilidade política, em uma época que os partidos se contavam em função do número de soldados e armas que conseguiam arregimentar, Catarina assistiu sua amada França se dividir entre católicos e protestante, em uma sucessão de guerras religiosas que praticamente destruíram o país.

Os governos de Catarina, comandando a política do país entre um filho e outro, de palácio em palácio, nos levam por viagens por uma das regiões mais bonitas da França: o Vale do Loire. Pois era por aquelas paisagens que a Rainha e sua Corte passavam boa parte dos seus dias.

Nas vésperas de comemorar os 70 anos de meu pai, que foi festejado em Vichy, fizemos um maravilhoso passeio pelo Loire, partindo de Chartes em direção a Poitier, terra da rival de Catarina. A cidade, onde minha irmã estava morando por conta do mestrado, tem um centro histórico bonitinho e acolhedor. Com ruas pavimentadas em calçamentos de pedras bem polidas, igrejas góticas e romanas, o prédio da prefeitura no centro da praça, tendo à sua volta uma dúzia de lojinhas, restaurantes e bares nos arredores, servindo de excelente ponto para uma pausa na viagem.

Mas o ponto alto do passeio no Loire, que deve ser feito de carro e sem se preocupar com mapas, são os maravilhosos castelos que acompanham o curso do famoso rio. Blois, Amboise, Tours, possuem belos castelos e palácios que, durante o período de Catarina, foram testemunhas de encontros, Estados Gerais, conspirações, cercos e das intrigas que movimentaram a politica francesa do Século XVI.

Dentre eles e imperdível para o viajante está o Castelo de Chennonceau. Orginalmente o castelo era de propriedade de Diana de Poitier, um presente do apaixonado Henrique II. Quando o rei morreu e sua amante foi expulsa da Corte, Catarina tomou para si o castelo. Reformou-o, ampliou-o, construiu o maravilhoso salão de festas que se estende por toda a extensão da ponte que une das duas margens do Rio Cher, com suas impressionantes janelas e seu piso em mármores pretos e brancos.

Os aposentos da rainha também estão preservados, mas o observador atento não deixará de notar, provavelmente para desgosto de Catarina, que aqui e ali ainda se encontra a insígnia adotada pelo falecido marido durante o seu reinado, representando um H e um D entrelaçados, não permitindo Catarina apagar o amor que seu falecido nutria pela viúva de Poitier.

Em Blois o magnifico castelo abriga um interior bonito e suntuoso, valendo a pena visitar os aposentos da nossa heroína. Relativamente perto dali, está o impressionante castelo de Chambord, cuja escadaria helicoidal foi desenhada pelo próprio Da Vinci. O castelo foi construído por Francisco I, sogro de Catarina, para funcionar como seu pavilhão de caça, sendo pouco utilizado pela corte. A obra só foi concluída anos depois por Luis XIV, que o utilizou com maior frequência.

Há também os espetaculares jardins do Chateau de Villandry. O castelo em si não é lá essas coisas, mas os jardins são impressionantes e, se o dia estiver bonito, merece uma tarde inteira para aproveitar o ar puro e apreciar suas belas formas geométricas coloridas, formadas por centenas de flores e árvores.

Em Amboise, além do palácio debruçado sobre o Loire, alvo de sucessivas reformas que lhe deram uma arquitetura variada e eclética, aprende-se que o grande Leonardo da Vinci viveu ali seus últimos anos e que a curta distância de caminhada existe um interessante museu, com a reprodução dos diversos inventos e inovações pensadas pelo gênio da renascença.

É também esta cidade que dá nome a um dos eventos que marcam o início das hostilidades entre católicos e protestantes no período de Catarina. A chamada Conjuração de Amboise, uma tentativa de golpe, comandada pelos huguenotes para sequestrar Francisco II do controle dos Guise.

Entre os nomes que ainda tentavam manter o diálogo, o Almirante Coligny, vai despontando como o mais importante líder militar da facção protestante. Respeitado e temido por Catarina, querido pelo Rei, o Almirante foi, durante algum tempo, um dos principais mediadores dos muitos dos acordos, tratados e éditos patrocinados por Catarina na tentativa de apaziguar a tensão entre os dois partidos. Amante dos acordos, entretanto, ela não hesitaria em usar a força.

Isto porque, se o diálogo e os casamentos arranjados sempre foram prioridade na política de Catarina, ela nunca deixou de entender, como bem disse o líder comunista chinês, que política e guerra eram dois lados de uma mesma moeda. Assim, anos depois, sentindo que o recrudescimento do movimento protestante poderia ameaçar o trono de seus filhos, ela decide assassinar os principais líderes oposicionistas num evento que, para sempre, iria manchar seu nome na história.

Era 24 de agosto e, em mais uma tentativa de conciliar os interesses de católicos e protestantes, Cataria arranjou o casamento entre sua filha Margot e seu primo, o protestante Henrique II de Navarra, que por sua condição de potencial herdeiro ao trono francês, no caso da dinastia Valois não deixar sucessor, tinha importante papel de liderança no movimento religioso que abalava a nação.

Apesar da enorme desconfiança, milhares de protestantes se descolocaram a Paris, principal centro do conservadorismo católico, para as festividades. Temendo a força política e militar de Coligny, sem o conhecimento do Rei Carlos IX, Catarina ordenou o seu assassinato. Depois de uma primeira tentativa fracassada, que a obrigou expor ao filho o plano, centenas de católicos liderados pelo Duque de Guise, invadiram o palácio onde o almirante convalescia e o assassinaram, atirando o pobre homem pela janela e introduzindo no vocabulário mundial a palavra defenestrar (fenêtre é janela em Francês).

 O assassinato do principal líder militar dos huguenotes despertou a fúria dos católicos parisiense e nas horas e dias que se seguiram à Noite de São Bartolomeu, milhares de protestantes foram assassinados, não apenas na capital francesa, mas em diversas cidades do país. Catarina iria, para todo o sempre, carregar a responsabilidade por este massacre.

Por outro lado, foi este movimento que a manteve no controle da política francesa, garantiu que quando seu segundo filho-rei morreu, a sucessão de Henrique III estivesse assegurada e que ela continuasse como a principal força da Corte até perto da sua morte, em janeiro de 1589.

Depois de quase 30 anos como governante de França, a morte, aos 70 anos de idade, poupou Catarina de saber que seu favorito, Henrique III, seria assassinado, poucos meses depois, não deixando sucessor. O huguenote Henrique II de Navarra, seu genro, casado com a Rainha Margot, iria sucedê-lo como Henrique IV e a casa Bourbon iria reinar a França por mais 200 anos, até que os ventos da Revolução Francesa iriam levar seus descendentes para a Guilhotina.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Às Margens do Lago Michigan








Quem acompanha as eleições presidenciais americanas tenta decifrar este longo processo e complicado processo que envolve as primárias partidárias, as convenções e um processo eleitoral diferente do nosso em que democratas e republicanos disputam os votos dos estados em um colégio eleitoral, numa disputa que eventualmente pode eleger o candidato que recebeu menos votos populares.

Também fica sabendo da importância que alguns estados têm para a disputa seja por terem muitos delegados – como a Califórnia – seja por serem o fiel da balança quando as eleições são mais disputadas, como o caso de Ohio, a Flórida e, mais recentemente, a Geórgia. Mas nem sempre foi assim.

É o que nos conta James Chace no muito interessante livro 1912, Wilson, Roosevelt, Taft and Debs, the election that changed the Country (não achei versão em português), que como fica claro, trata da sucessão presidencial americana há mais de um século atrás, portanto antes da primeira guerra mundial e antes da limitação de no máximo uma reeleição a que os atuais presidentes se submetem.

Depois de exercer seu mandato como presidente até 1908, Theodore Roosevelt (não confundir com o da Segunda Grande Guerra, que era sobrinho dele) resolve apoiar a eleição de Wiliam Howard Taft, seu colega de partido e homem de confiança no Governo para sucedê-lo.

Em uma eleição sem maiores surpresas já que havia mais de 20 anos que um republicano não perdia uma eleição presidencial para os democratas, Taft ganha o pleito, assume o seu mandato, enquanto Roosevelt com seu espírito aventureiro vai explorar as florestas da África.

Entretanto, como costuma acontecer nas relações de sucessão, na medida em que Taft começa a imprimir sua marca na administração federal, os amigos e aliados do ex-presidente começam a se sentir incomodados e passam a estimular o seu retorno à cena política. Inicialmente Roosevelt resiste à ideia, mas aos poucos vai sendo convencido e se convencendo de que ele é “o cara” e que seu agora ex-amigo deveria abrir mão da candidatura reeleição e apoia-lo no pleito de 1912.

Claro que paralelamente a esta movimentação outros partidos e outros candidatos começam também suas movimentações, ainda que num primeiro momento sem grandes expectativas já que os republicanos mantinham essa serie histórica vitoriosa. Da parte dos Democratas, o governador do estado de Nova Jersey, Woodrow Wilson, começa a se organizar e a buscar dentro do seu partido os apoios necessários para sua candidatura, enquanto o partido socialista, bafejado pelos movimentos operários e o fortalecimento dos sindicatos se acha no auge político dentro dos Estados Unidos e se organiza em torno da candidatura de Eugene Debs.

O cenário para um grande racha dentro do Partido Republicano esta armado e o palco para o desfecho foi a cidade de Chicago, as margens do Lago Michigan.

A cidade dos ventos (Windy City) é a mais populosa do Estado de Illinois (terceira do País) com cerca de 2,7 milhões de habitantes e é uma cidade relativamente nova, já que só adquiriu esse status em 1837, depois que o governo americano expulsou os índios que viviam ali nas imediações do Rio Checagou (como chamavam os franceses) e apoiou o povoado que na época contava com cerca de 4 mil habitantes.

A partir daí Chicago se expandiu como centro de logística – na terminologia de hoje – uma vez que ao associar a navegação dos Grandes Lagos, com canais construídos interligando-os, e as estradas de ferro que dali partiam converteu-se em hub do desenvolvimento para todo o meio oeste americano, especialmente na sua porção mais ao norte, processo que chega ao seu auge durante a Guerra da Secessão Americana quando a cidade vira um dos principais polos de sustentação ao exército da União.

Em 1871 a cidade sofreu enorme abalo por conta do Grande Incêndio que devastou todas as ruas de sua área central e deixou de pé apenas a Chicago Water Tower (antiga caixa d´água da cidade), que hoje ainda podem ser visitados como testemunho do desastre e da capacidade de se reerguer dos seus cidadãos.

Hoje a cidade é uma das principais metrópoles americanas com muitas de suas principais atrações aparecendo nos filmes que são produzidos nas suas ruas: quem não se lembra da maravilhosa cena de “Os Intocáveis” em que o Elliot Ness tenta salvar a criança no carrinho de bebê que desce perigosamente as escadarias da Chicago Union Station enquanto troca tiros com os gansters de Al Capone ou das muitas imagens da famosa Sears Tower (hoje Willis Tower) que por muitos anos foi o prédio mais alto do mundo?

Estive por duas ocasiões em Chicago: na primeira vez, durante o inverno, junto com minha família, os filhos ainda pequenos, para visitar meu irmão e passar o Natal. Devo reconhecer que pouco aproveitei da cidade, fazia um frio medonho e a neve cobria toda a cidade, nos obrigando a correr de lugar fechado em lugar fechado. Divertido mesmo era, todo o dia pela manha, tirar a neve que cobria os carros a ponto de não conseguirmos reconhecer qual era o nosso e qual o dos vizinhos. Mas mesmo assim, foi divertido, especialmente porque era a primeira vez que os meninos viam neve em tanta quantidade.

Na segunda vez o clima era, literalmente, outro. Estava em viagem a trabalho e chegamos em plena primavera. Os dias ainda eram longos e pegamos dias de temperatura muito amena. Aí sim foi possível apreciar a beleza da cidade: em um passeio de barco ao longo do Chicago River, que parece um cânion formado por arranha-céus, apreciando a famosa arquitetura da cidade; na visita ao Navy Pier para tomar uma bud ou numa inevitável esticada nas lojas, bares e restaurantes da Magnificent Mile; ou ainda, nos passeios pelo Millenium Park, na visita ao Soldier Field ou por qualquer dos muitos parques que ficam naquela região.

Nesses dias primaveris era possível provar todos os sabores da cidade, com uma animada vida cultural, boa parte dela acontecendo gratuitamente nos vários espaços públicos existentes e apreciar as pessoas, especialmente os jovens, que se divertiam às margens do Lago Michigan em seus parques e praias lacustres.

Na minha imaginação, o agradável clima e a tranquilidade política que reinava da cidade, depois da reeleição de Barack Obama, contrastava com o calorento verão de 1912 quando aconteceu a famosa convenção republicana que, segundo James Chace, iria transformar para sempre a politica norte americana.

Já nos dias que antecederam o evento, os panfletos anunciavam que às três da tarde da quinta feira seguinte Theodore Roosevelt “andaria sobre as águas do Lago Michigan” se preparando para apresentar sua candidatura de oposição à do Presidente Taft, em clima de beligerância.

Analistas políticos previam que a convenção de Chicago seria uma combinação do Grande Incêndio, com o massacre da Noite de São Bartolomeu, a batalha de Boyne, a vida de Jesse James e a noite dos grandes ventos. Um cataclismo que anunciado para os republicanos e para a política nacional.

Apesar de gozar do apoio popular e da preferência do eleitorado republicano, o controle da máquina partidária falou mais alto e Ted Roosevelt acabou sendo derrotado. Em meio a denúncias de corrupção e manipulação da convenção, o derrotado não aceita o resultado, abandona o Partido Republicano e é aclamado candidato a Presidente na convenção do, até então, inexpressivo Partido Progressista, que também acontecia em Chicago!

O livro de Chace é muito gostoso de ler, especialmente para aqueles que, como eu, militam ou se interessam por politica. O texto, além de acessível, traz informações e análises que permitem ao leitor compreender as características da política americana no primeiro quartel do século passado e entender como o caráter dos políticos, suas idiossincrasias, podem ser decisivas em momentos de transformação histórica.

Todos conhecem o resultado das eleições de 1912: Wilson 42%, Roosevelt 28%, Taft 22% e Debs cerca de 6%. Depois de décadas fora do poder, a divisão entre republicanos e progressistas, somados à surpreendente votação dos socialistas (quase 1 milhão de votos, mais que o dobro de 4 anos antes, a maior votação de um socialista nos Estados Unidos até os dias de hoje!!!), garantiram a vitória dos democratas e colocaram Wilson na presidência da República.

Os ventos que sopraram às margens do Lago Michigan em 1912 acabaram o domínio político do Partido Republicano nas eleições presidenciais americanas e desde então os dois partidos passaram a se revezar no poder, com os republicanos elegendo Hoover, Eisenhower, Ronald Reagan, Trump e os Bush e os democratas elegendo nomes como FDR, Kennedy, Bill Clinton, Barak Obama e Joe Biden.

Como o livro é de 2004 o autor talvez nem imaginasse que os ventos de Chicago haviam transformado tão radicalmente a política americana que em 2008 o povo daquele país iria eleger pela primeira vez um presidente afro-americano, do Partido Democrata, que fez carreira política na cidade de Chicago e se notabilizou como Senador da República pelo Estado de Illinois: Obama.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

América Dividida


O mundo inteiro assistiu, estarrecido, à malograda tentativa de alguns partidários do Presidente Trump de invadir o prédio do Capitólio, em Washington, para tentar evitar a homologação da eleição de Joe Biden como o 46º presidente norte americano.

Insuflados pelo discurso presidencial, cheio de sugestivas insinuações quanto à ilegalidade do processo eleitoral em que foi derrotado, os partidários de Trump marcharam pela Pennsylvania Avenue em direção à sede do parlamento onde, depois de atos de vandalismo e violência generalizada, foram expulsos, sem conseguir seus objetivos e deixando para trás quatro mortos.

A inusitada condução da sucessão presidencial contrasta, em tudo, com o clima de respeito e com o ambiente pacífico que quase sempre marcaram a vida na capital norte americana.

Em abril de 2019 ali estive para participar de um evento promovido pelo Banco Mundial para apresentar a bem sucedida experiência de gestão do saneamento rural patrocinada pelo Governo do Estado do Ceará e pela CAGECE, o SISAR.

Como cheguei na cidade na noite do sábado que antecedia à abertura do evento, depois de um longo voo com conexões em São Paulo e no Panamá, aproveitei o domingo livre para turistar em suas áreas centrais. Havia muito tempo desde a última vez que ali estivera e, aproveitando o lindo dia que fazia, fui rever a Washington monumental.

Embora fosse uma boa caminhada, como era um domingo livre, decidi ir do meu hotel em Georgetown até a Casa Branca caminhando. Apesar do sol e de praticamente nenhuma nuvem no céu, o dia estava agradável e corria um vento frio que vinha do Potomac o que me obrigava a evitar os locais mais sombreados.

Depois de passear pelas belas ruas do bairro, com suas casinhas coloridas, atravessei a ponte em direção à Pennsylvania Avenue e de lá alcancei a Casa Branca pela Praça Lafayette, onde alguns gatos pingados protestavam contra o governo sobre temas variados sob o olhar vigilante dos policiais que guardavam aquela parte da residência presidencial.

Depois de acompanhar o movimento e tentar tirar algumas boas fotos do local, contornei o prédio da residência presidencial, atravessei a elipse e cheguei ao obelisco que homenageia George Washington.

O mês de abril é o período em que as cerejeiras florescem e, naquele ano, as inúmeras cerejeiras que ornamentam as calçadas e ruas que ligam os quase 4 km que separam o Capitólio ao Lincoln Memorial, produziam um espetáculo à parte, contrastando o rosa de suas flores com o azul irretocável do céu.

As primeiras cerejeiras chegaram à capital americana como um presente do governo japonês, depois da Segunda Guerra, e nas imediações do Lincoln Memorial há um jardim japonês e uma referência à data em que as primeiras árvores chegaram em solo americano.

Era domingo, mas os monumentos não estavam muito cheios e, consequentemente, o passeio rendeu. Optei por começa-lo tomando à esquerda e pegar o rumo do prédio que abriga as duas casas legislativas americanas. No caminho, aproveitei para apreciar a arquitetura dos prédios do Smithsonian e entrei no Castelo de tijolos vermelhos, onde fiz uma rápida pausa da caminhada e um lanche rápido.

De lá, como colecionador de moedas, fiz uma visita ao Bureau of Engraving and Printing para atualizar a coleção de quarters americanos e segui para os memoriais em homenagem a Jefferson, Lincoln, Luther King, Roosevelt e aos milhares de americanos que deram sua vida nos muitos conflitos armados que aquele país se envolveu.

Não há como fazer este circuito e não se impressionar com o respeito com que os americanos tratam suas instituições, sua história e seus heróis, conhecidos e desconhecidos. O que faz com que os eventos de janeiro de 2021 sejam ainda mais surpreendentes.

Como se aproximava o fim do dia, tomei o caminho de volta a Georgetown pois tinha combinado com alguns companheiros do evento do Banco Mundial de tomar um vinho em um bar às margens do Potomac, curtindo uma boa música e apreciando o por de sol, que naquela tarde foi espetacular.

No trajeto, nas proximidades do hotel, parei em uma pequena livraria e por menos de 10 dólares comprei um livro que tratava de um dos personagens homenageados nos monumentos e até hoje reverenciado por sua decisiva participação na Independência dos EUA: Thomas Jefferson.

Friends Divided, de autoria do ganhador do Prêmio Pulitzer Gordon S. Wood, é uma dupla biografia, tendo como eixo orientador a fundação da República Norte Americana e as relações pessoais e políticas de dois dos principais “Fouding Fathers”: Jefferson e John Adams.

Enquanto Jefferson ganhou notoriedade como o autor da Declaração de Independência assinada em 4 de julho de 1776, Adams foi quem concebeu as principais instituições da nascente república democrática e orientou a redação da  maior parte das constituições das províncias que se transformavam em estados.

Oriundos de experiências de vida muito distintas - enquanto Adams era um advogado de famílias pobre no Norte, Jefferson era rico proprietário de terras e de escravos no Sul - os dois se tornaram amigos durante as temporadas passadas na Filadélfia, construindo a nova nação, enquanto Washington combatia os ingleses nas Guerras da Independência.

As divergências políticas que nasceram neste processo levaram ao afastamento dos amigos, justificando o título do livro de Wood e evidenciando como a nação americana fora resultado, desde o nascedouro, da possibilidade que antagonistas no pensamento e adversários na política fossem capazes de construir a nação que, 200 anos depois, seria a principal potência mundial.

O respeito mútuo e a moderação, que normalmente a velhice é capaz de trazer, fez com que ao final da vida, Adams e Jefferson se reconciliassem e voltassem a se corresponder como bons e velhos amigos, isto depois de terem sido o segundo e o terceiro presidentes dos EUA.

Lembrando os ensinamentos do livro de Wood e voltando à Washington do Século XXI, é impossível não nos perguntarmos qual foi o momento em que os EUA e, a meu ver, quase todo o mundo, perdeu a crença no diálogo, no entendimento e na capacidade das instituições democráticas de nos ajudar a construir um mundo melhor, onde a busca da felicidade seja direito inalienável de todos.







domingo, 2 de setembro de 2018

Uma vez fui a Lima, outra vez fui a Lima...



Contava meu pai que o finado Augusto Morcego, companheiro de boemia do Lustosa da Costa, fazia troça do escancarado amor de meu tio por Sobral declamando uma infame quadrinha em que, em tom de reclamação e ironia dizia: “Uma vez fui a Sobral, outra vez fui a Sobral... Nunca mais vou a Sobral!”

Sem querer comparar a capital peruana com a princesinha do Norte, aqui neste mesmo blog escrevi sobre Lima em tons não muito lisonjeiros, reclamando do excesso de cinza da cidade. Pareceu-me então, uma cidade propícia à depressão e à melancolia, algo distante do desejado para viagens e passeios. Assim, voltei de lá com a sensação de que nunca mais regressaria.

Mas, como dizem por aí, nunca é muito tempo. Estimulado pela Mita e pela companhia dos filhos cearenses, me vi obrigado a regressar a Lima em uma escala necessária para chegar aos nossos objetivos, Cusco e Machu Picchu.

A experiência se assemelhou a quando, por conta da escola dos filhos, a gente é obrigado a voltar a ler e falar sobre aqueles livros chatos, de autores de referência, que enfrentamos nos bancos escolares para nunca mais encontrá-los ao longo da vida. 

Vinte anos depois, livros que pareceram entediantes e intermináveis, como Os Sertões do Euclides da Cunha ou O Alienista de Machado de Assis, ganham uma nova cor, uma nova perspectiva, quando por fim se descobre a fina ironia machadiana, que o frescor da juventude e a ignorância que a acompanha não permitiam identificar, ou ainda, o deleite de encontrar na precisão jornalística d’ Os Sertões, os cenários, as diferentes visões de mundo e uma beleza que, em geral, só anos vividos permitem.

E,assim como acontece com os livros, aconteceu com Lima.

Ao contrário da Lima cinza e melancólica, encontrei um cenário de luz e movimento. Uma cidade limpa e organizada, ainda que o trânsito continuasse caótico e enervante, com sua zona central redescoberta. A Plaza de Armas, a Catedral e seu entorno, uma charmosa rua com casas restauradas do período Colonial, o Jiron Ancash, e o Parque de La Muralla, que resgata ruínas da antiga cidade, de quando Lima era capital o Vice Reinado do Peru, tudo convida a passear e se perder nas ruas do centro.

Miraflores e San Isidro, que ainda abrigam boa parte da nova nobreza limenha, estão cada vez mais interessantes. Além da série de parques que acompanha o Malecón de La Reserva, se debruçando sobre a estonteante beleza do Pacífico e do tradicional shopping Larcomar, os bairros abrigam um sem número de restaurantes laureados que fazem da cozinha peruana uma referência internacional e obrigam o visitante a experimentar uma culinária que vai além dos tradicionais piscos e ceviches, embora, para mim, ambos permaneçam na lista de favoritos.

Mas ainda há mais para Lima. Com novos bairros boêmios, sítios arqueológicos e museus temáticos, a cidade se oferece para o turista com muitas facetas. Sem falar no píer onde está o Rosa Náutica, que tem um dos fins de tarde mais belos da vizinhança e, na companhia adequada, com um vinho branco ou um pisco sour, é lugar mais que apropriado para descontrair e jogar conversa fora, especialmente para aqueles que têm tempo para isso.

Por sinal, esta é uma das vantagens de ir mais de uma vez a um lugar. Na primeira, a gente é consumido por uma avidez da experiência, uma necessidade de ver tudo e de fazer tudo. Quando se vai outra vez, é possível melhor aproveitar o que o lugar tem para oferecer. Sua pressa e sua calmaria, seus pontos turísticos e seus pontos de encontro. Os restaurantes recomendados e aqueles que só os locais sabem existir. O novo não é mais a novidade, mas a vivência. Não é mais uma questão de ver e de estar, mas uma questão de sentir.
Assim como os livros, da primeira vez o desafio é terminar, consumir, contar que a missão foi cumprida. Na segunda, é possível sentir, viajar nas páginas, nas personagens, na história e traduzir isso para a vida. Ao contrário do que ameaçava Augusto Morcego, na próxima vez que voltar, descobrirei mais uma vez Sobral, Lima ou, quem sabe, a mim mesmo.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Vichy: Capital de uma França Dividida.



Não sei se por conta dos 70 anos do fim da Segunda Grande Guerra ou por mera coincidência, mas nos últimos meses inúmeros têm sido os livros – romances, diários, relatos – tratando sobre eventos e curiosidades da guerra que matou milhões de pessoas e transformou radicalmente o mundo em que vivemos.

Outro dia comecei a ler O Rouxinol, romance histórico da inglesa Kristin Hannah que conta a história de duas irmãs que por suas condições e circunstâncias acabam participando de maneiras bem distintas da guerra na França.

Enquanto a irmã mais velha, Vianne, que no começo do conflito já era casada e tinha filhos, precisa se ajustar à realidade da ocupação alemã, sua irmã mais nova, Isabelle, com pouco mais de 19 anos na época, se rebela e vai participar ativamente do movimento de resistência francesa.

O romance, que se passa entre a Paris ocupada, a pequena cidade ficcional de Carriveau no vale do Loire e a fronteira da França com a Espanha, aproveita o dilema vivido pelas duas irmãs Rossignol para apresentar o dilema que quase toda a população francesa teve que enfrentar durante a Segunda Guerra, obrigada a conviver, compactuar e, em muitos casos, colaborar com os ocupantes nazistas. Mas ao tempo que colaborava, se revoltava, resistia e sabotava as tropas nazistas.

Assim no país, assim entre as irmãs. Além de perder o marido para a guerra, que virou prisioneiro logo nos primeiros meses do combate, Vianne tem os quartos da casa em que vive com sua filha confiscados pelo exército alemão e durante toda ocupação é obrigada a conviver e servir os oficiais alemães que ficam ali hospedados.

Sua irmã, ao contrário, depois de expulsa de Paris pelo pai, chega a Carriveau para viver com a irmã, mas logo se mostra incapaz de conviver com aquela situação de humilhante dominação e finda por aderir ao movimento de resistência francesa, se tornando importante agente do movimento, ajudando pilotos aliados que caem atrás das linhas alemãs a escapar do país pela fronteira espanhola.

Claro que as diferentes escolhas colocam as irmãs em posições antagônicas no palco da guerra e, em certo sentido, permite que o leitor especule sobre o sentimento de “coisa mal resolvida” do período em que parcela da população francesa, sob a batuta do governo colaboracionista de Vichy e do Marechal Petáin, conviveu, transacionou, lucrou e compactuou com o nazismo nas suas piores manifestações.

Talvez por isto que o romance, embora pudesse proporcionar uma interessante viagem entre Paris e os Pirineus, me leve para a antiga capital do governo colaboracionista, uma pequena e pacata estância terapêutica, com suas águas minerais curativas, localizada na parte central da França: Vichy.

Frequentada por suas qualidades terapêuticas e medicinais desde tempos imemoriais, as fontes de águas curativas de Vichy tiveram seu auge durante o período de Napoleão III, na segunda metade do século XIX, quando reis, príncipes e a nobreza de boa parte da Europa vinham à cidade-balneário para tratamentos, festas e, principalmente, para verem e serem vistos.

Depois da Primeira Grande Guerra, a cidade ficou esquecida até que, depois da invasão alemã em 1940 e do acordo firmado por Petáin com Hitler, Vichy foi elevada à categoria de capital do governo colaboracionista, enquanto que na Inglaterra se proclamava o governo da França Livre.

Estive em Vichy em novembro de 2014 para comemorar o aniversário de 70 anos do meu pai. Naquele momento eu estava em Paris, minha irmã Lília morando em Genebra e a minha outra irmã, a Ana, estava em Poitiers fazendo seu mestrado. Precisávamos encontrar um lugar para festejar que fosse equidistante para todos nós e a escolha recaiu sobre Vichy.

Vichy é uma “pequena e pacata cidade” no maciço central da França, com ruas arborizadas que ganham um colorido todo especial nos meses de outono. Às margens do Rio Allier há um parque público, com direito a calçadão e parquinhos para as crianças brincarem. Nos dias de sol no outono ambos ficam apinhados de jovens famílias que aproveitam os últimos dias de sol e algum calor antes da chegada do inverno.

São muito poucas as referências do período em que a cidade foi capital da França. É verdade que no parque defronte ao Cassino e à Ópera, onde estão algumas das fontes de águas termais mais antigas, há uma placa em que o governo da França reconhece o lastimável papel que desempenhou no triste evento que entrou para a história como o massacre do Velódromo de Inverno, quando milhares de judeus franceses foram entregues pelo Governo de Vichy aos campos de concentração alemães.

Depois de alguma pesquisa ainda encontrei um livro que fala dos prédios da cidade que abrigaram ministérios, embaixadas e outros órgãos governamentais durante o período da ocupação, mas é só isto. A sensação é que ainda há um sentimento local e nacional de vergonha por ter participado de uma ridícula farsa, um governo fantoche e subalterno.

Em “O Rouxinol” há uma tentativa, por parte da autora, de mostrar – não diria defender – as difíceis escolhas a que foram expostas as pessoas que ficaram na área ocupada pelos nazistas e que, para poderem sobreviver, de uma forma ou de outra precisaram conviver com a nova realidade, trabalhando com e para os alemães, tentando levar uma vida “normal” nos mais de quatro anos que grande parte da França ficou sob o tacão do nazismo.

Ao fim, o leitor fica com a sensação de que a irmã que fica e que “colabora” acaba sendo tão brava e tão sobrevivente quanto aquela que se converte em heroína da resistência francesa. É como se o livro dissesse que não há uma forma apenas de resistir a qualquer tipo de opressão.

Para nós, que estivemos em Vichy setenta anos depois que a cidade deixou de ser capital de uma França dividida, o que valeu mesmo foi o excelente jantar no restaurante Maison Decoret, onde também estávamos hospedados, quando comemoramos o aniversário do Dr. Paulo e reafirmamos nossa convicção, que é mensagem do livro de Kristin Hannah, que qualquer que seja a adversidade, é na família que encontramos a força para seguir vivendo.

Pena que o Carlos não pôde ir.